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Literatura

Entrevista: José Luiz Passos

Há 18 anos vivendo fora do Brasil, o escritor pernambucano José Luiz Passos é, atualmente, professor de Literatura na Universidade da Califórnia, e seu nome foi alçado recentemente à condição de um dos mais consistentes romancistas da atualidade. Seu livro “O sonâmbulo amador” foi o grande vencedor do Portugal Telecom, mais importante prêmio literário exclusivamente dedicado às produções em língua portuguesa, no final de 2013.

E é com esta língua portuguesa que ele lida cotidianamente, apesar da distância geográfica de seu país. Seus livros são escritos em português e seus romances – o primeiro se chama “O grãos mais fino” – se passam em sua terra natal, Pernambuco. Como se processou essa sua criação, a partir da experiência de estar morando fora há um considerável tempo será um dos questionamentos do debate que ele trava hoje com o jornalista Schneider Carpegianni, às 19h desta quarta (7), no II Clisertão.

Antes, ele adianta um pouco das suas experiências como “exilado” para o nosso blog. Confira a entrevista abaixo.

 

O escritor ganhou, em 2013, o Portugal Telecom, importante prêmio de lietratura em língua portuguesa

O escritor ganhou, em 2013, o Portugal Telecom, importante prêmio de lietratura em língua portuguesa


por Leonardo Vila Nova

ClisertãoSua pátria é sua língua?

José Luiz Passos Como vivo fora do Brasil há 18 anos, minha relação com o espaço de origem, com os dados da cultura, com a memória é mediada pela distância. O único elemento palpável, presente e cotidiano da cultura brasileira é a língua que falo e ensino. Por isso, mais do que qualquer aspecto da nação ou da rotina no Brasil, o que me acompanha é a língua, nas suas relações com práticas e espaços também lusófonos. Sei que a frase parece um chavão. Mas no meu caso, o chavão é um fato. A língua portuguesa me faz grande companhia lá fora.

Clisertão: Bateu mais forte em você o fato de ganhar um prêmio de literatura dedicado exclusivamente à Língua Portuguesa estando longe do seu país?

José Luiz PassosÉ verdade que o prêmio me alegrou especialmente por ser um prêmio para a literatura em língua portuguesa, e que inclui autores dos demais países, além do Brasil. A companhia é excelente e me honra muito. Além disso, o ensino da língua e da literatura nos EUA não separa necessariamente os países de fala portuguesa. Ensino Machado, Eça, Lobo Antunes, Pepetela etc. Às vezes, estar longe nos aproxima de “outros” que são nossos iguais.

Clisertão: “O grão mais fino”, seu primeiro romance, se passa numa usina de açúcar, no século passado; e “O sonâmbulo amador”, num sanatório em Olinda, nos anos de 1960. Ambos, em cenários com uma identificação local bem evidente, mas escritos quando você já se encontrava fora do Brasil. Há algo deliberado em, mesmo morando fora, escrever em sua língua natal e com referências geográficas tão claras?

José Luiz PassosProcuro escrever sobre relações e cenários que trago sempre comigo, mesmo que removidos no tempo. Teria dificuldade em imaginar histórias sobre países, culturas ou grupos que eu pouco ou nada tenha conhecido. Mas o Pernambuco em meus romances também é imaginado e sonhado. São modos de destacar dramas ou questões que quero explorar através da imaginação da vida de outros. É um cenário que escolho lembrar, mesmo que eu ali não tenha vivido ou sequer concorde com os valores em questão. Essas referências geográficas me ajudam a imaginar mais densamente vidas diferentes da minha.

Clisertão: Há 18 anos você tem uma vida estabelecida em um país anglo-saxão, mas escrevendo em língua portuguesa e lidando cotidianamente com ela. E, ao ganhar o prêmio Portugal Telecom, entre as dedicatórias, você lembrou dos emigrantes, que mantêm sua língua viva, mesmo morando em outro país. Em que medida essa “desterritorialização” desperta em você um novo olhar a respeito de si mesmo e do seu país e de que forma isso se repercute na sua obra como romancista? Há algum conflito nisso?

José Luiz Passos
Não há conflito, há ganho. Como disse acima, a consciência da língua portuguesa como língua estrangeira é modo de reconhecer a ligação entre os vários espaços, culturas e grupos que compartilham a mesma língua. Sou imigrante. Falo como imigrante. Não só o espaço lusófono me interessa, mas também a relação entre ser brasileiro e ser latino-americano, ou mesmo hispânico, em pais de língua inglesa. Isso influencia a minha escrita, mesmo que eu não tenha escrito, até agora, pelo menos nos romances, sobre o tema da “minha” situação migratória.

Clisertão: Na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, você leciona sobre Literatura Brasileira. Como a experiência acadêmica influencia e lhe dá subsídios para o seu trabalho de escritor?

José Luiz PassosAprendo com os autores que ensino. E passo muito tempo lendo e discutindo textos que admiro, tentando mostrar aos alunos como eles funcionam ou como vieram a ser o que são, ou qual seu lugar na cultura brasileira. Acho que isso só pode ajudar. Desde que, é claro, eu não me deixe intimidar pelo contato intensivo com o texto dos outros autores. Depois de tanto admirar, dá vontade de tentar fazer igual, ou pelo menos parecido…

Clisertão: Sobre o mercado internacional e o consumo de literatura: como tem sido a visibilidade e difusão da sua obra e da literatura brasileira, de uma forma geral, nos Estados Unidos? Há entraves – não necessariamente a língua – para que essa literatura seja mais propagada?

José Luiz PassosA visibilidade é pequena. Mesmo os livros de Machado, Jorge Amado e Clarice circulam relativamente pouco. Pelo menos, no circuito comercial. Houve uma pequena ampliação recente na difusão de autores contemporâneos, mas nada tão significativo assim. O mercado americano é o mais fechado do mundo. Apenas 3% dos livros publicados são livros em tradução ou livros escritos em outras línguas. Dentro desse pequeno nicho, o livro brasileiro precisa competir com todas as outras línguas e países, inclusive Portugal. Há uma maior circulação dentro do meio acadêmico, onde o Brasil tem grande prestígio. Mas trata-se, também, de outro nicho. Os entraves são o baixo interesse do público leitor pela ficção estrangeira, a resistência a traduções de autores desconhecidos, a ausência de políticas de fomento (que só começaram há pouco tempo) e a questão do filtro nacional. Ou seja, o próprio Brasil exporta autores bem específicos, de editoras ou grupos editoriais bem específicos. Não é um mercado fácil, nem tampouco justo.

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