Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Literatura

Luna Vitrolira poetiza o amor em seu primeiro livro

Poetisa pernambucana, Luna começou a recitar poesias aos 15, depois passou a recitar seus próprios escritos e agora se lança no mercado editorial de modo independente

Jan Ribeiro

Michelle Assumpção

Aquenda – o amor às vezes é isso. O intrigante enunciado é o título do livro de poesias, o primeiro, da poetisa pernambucana Luna Vitrolira. Luna, recifense, que desde os quinze começou a recitar poesias e depois passou a escrever seus próprios textos, deixou a oralidade para registrar, no papel, não um amontoado de poesias produzidas ao longo desse tempo que passou recitando em festas literárias e saraus. A partir do que já havia escrito desde essa época, ela construiu um livro conceitual, no qual cada texto costura as etapas de uma história que está na base da criação de toda e qualquer mulher: a busca pelo amor idealizado, aquele para o qual somos ensinadas a viver (e a morrer, em alguns casos).

Pode ser sim a história de qualquer mulher, mas Luna vai na mulher que sofre ainda mais nessa busca: a negra, pela solidão que enfrenta, por estar fora dos padrões.

“Na verdade, acho que todas e todos nós somos criados e criadas para encontrar o amor da nossa vida. O amor ocupa um lugar na nossa vida que parece que não tem outra coisa. Só o amor pode ocupar, e a gente vive obsessivamente procurando isso, e nada faz sentido quando não temos uma pessoa do nosso lado. A gente é criado como se precisássemos da outra metade. A gente não é criado como um indivíduo inteiro, que precisa do outro para se tornar um ser humano inteiro. E a gente não sabe o quanto isso mexe com a nossa personalidade. A gente se torna dependente de outras pessoas e isso se reflete nas relações. Para gente, que é mulher, cresce esperando o príncipe encantado, e é educada para estar sempre linda para este ser encantado e não ser essa mulher sozinha que não deve viver solidão afetiva. Como funciona essa solidão para uma mulher que é negra e marginalizada na sociedade? Uma mulher que precisa construir essa independência para não ficar se sufocando pela solidão por que que passa? Porque ela não é aquela mulher que está dentro dos padrões, física e psicologicamente”, conta a autora.  Sim, as poesias de Luna são uma porrada no amor romantizado, no amor de novela, de música sertaneja e de comédias românticas.

Jan Ribeiro

O livro – que nasce dez anos após a entrada de Luna na poesia, pela via oral – será lançado neste sábado (5), na 11ª FestiPoa Literária, que está acontecendo em Porto Alegre, e que traz a escritora mineira Conceição Evaristo, tida como a principal voz da literatura de autoria negra no Brasil, como homenageada do evento. Além da pernambucana Luna Vitrolira, a programação conta com nomes como Djamila Ribeiro, Luedjiluna Luna, Chico César, Barbara Santos, Linn da Quebrada, Mel Duarte e Márcio Junqueira.

“O título diz isso: ‘se liga, o amor na prática não está muito ligado ao que a gente idealiza, aquela coisa bonita, utópica, a paixão’. Na prática, as pessoas são agressivas, possessivas… Isto é, o amor é o contrário dessa idealização. Sempre fiquei muito impressionada como a passionalidade é naturalizada nas relações. É impressionante como a gente acha que ciúme é prova de amor, e que briga de amor se resolve na cama. As pessoas ainda reverberam essa ideia. Isso sempre me machucou muito”, coloca Luna.

Jan Ribeiro

DISTRIBUIÇÃO – Luna conta que não acharemos seu livro (que sai pela editora independente Patuá, de São Paulo) nas prateleiras das grandes livrarias, que costumam destinar os livros de poesias às prateleiras mais escondidas.  Ela quer andar com o material debaixo do braço, como sempre fez com a sua poesia. Vai recitar e vender em praças, feiras, festas, escolas, festivais e para mais onde for chamada com sua poesia. “Eu sou uma poeta declamadora. Eu tiro o livro da estante para levar para as pessoas. Então, para mim é muito mais importante levar meu livro para oferecer em praças, festivais, sarau, evento na escola. Eu prefiro isso, entregar na mão. E falar sobre ele”, afirma.

Feito com a ajuda de vários parceiros, entre eles o escritor Marcelino Freire, que acompanha a trajetória de Luna desde muito cedo, o livro terá um disco também. Afinal, tudo começou com o som. Da voz de Luna, que agora também ganha o auxílio luxuoso das vozes de Lirinha e também de Marcelino Freire, e do piano de Amaro Freitas, produtor e arranjador do projeto.

É Luna para ler, ouvir, mas, sobretudo, pensar. Pensar no amor de outra maneira. Porque nas poesias finais a personagem vai se reconhecendo, descobrindo o próprio corpo, percebendo que ela não precisava encontrar o amor da vida, que ela independe de ter a outra metade da laranja, então ela descobre o amor por si mesma, o se dar prazer, a independência.

< voltar para home