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Literatura

Outras Palavras leva a pluralidade cultural de Pernambuco para escolas da RMR

Na última semana, o projeto contou com edições na ETE Maximiano Accioly Campos, em Jaboatão dos Guararapes, e na Escola Estadual Guedes Alcoforado, em Olinda. Os artistas convidados foram o escritor Walther Moreira Santos, o músico Neudo Oliveira, o poeta Phillippe Wollney e Dona Glorinha do Coco.

Rodrigo Ramos

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Walther Moreira Santos abriu o bate-papo na ETE Maxiamiano Accioly Campos

 Por Camila Estephania

Na última semana, o projeto Outras Palavras, realizado pela Fundarpe/Secult-PE, teve continuidade em diferentes cidades da Região Metropolitana do Recife. Através da iniciativa, o escritor Walther Moreira Santos e o músico Neudo Oliveira foram até a Escola Técnica Estadual Maximiano Accioly Campos na manhã da quarta-feira (11) para conversar, não só com alunos da instituição anfitriã, como também da Escola Bernardo Vieira, EREM Henriqueta de Oliveira, EREM Vila Rica, EREM Rodolfo Aureliano, Escola Frei Jaboatão e Escola Souza Brandão, que ficam em Jaboatão dos Guararapes.

Na ocasião, a ação foi iniciada pela apresentação da articuladora do projeto, Márcia Branco, que lembrou o sucesso do Outras Palavras desde a sua criação em 2015. “Até hoje, foram beneficiadas 481 escolas, cerca de 11.387 estudantes e doados aproximadamente 4.790 livros”, comemoro ela, antes antes da exibição do curta “A Hora da Saída”, produzido por alunos da Escola Estadual Santa Paula Frassinete.  Logo após, Walther Moreira Santos falou do início da carreira há 18 anos com o lançamento do livro “Dentro da Chuva Amarela”, assinado pelo pseudônimo Willian L., quando ainda trabalhava com advogado, até se dedicar integralmente à paixão pela literatura.

Rodrigo Ramos

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Alunos de sete escolas participaram da edição em Jaboatão dos Guararapes na última quarta-feira.

Curiosos, os estudantes fizeram perguntas buscando entender quais são os caminhos seguidos por quem deseja trabalhar com a escrita. “O mais importante é saber é que a gente não faz literatura com a cabeça, a gente faz com o coração, com o sentimento. Teve livro que precisei estudar psicanálise durante anos para escrever 130 páginas, enquanto que o livro ‘O Metal de Somos Feitos’, eu escrevi apenas de um lugar de muita raiva (das atitudes bélicas tomadas durante o governo do presidente norte-americano George Bush). Redação não é decorar nada, é só se colocar no lugar do outro e ter empatia”, disse Walther, ao responder ao aluno Arthur Barbosa, que quis saber sobre seu processo criativo.

Questionado sobre o que poderia ser um ponto de partida para começar uma história, o escritor reafirmou que a emoção era o ponto central. “Não precisa falar de amor, qualquer sentimento serve, só precisa ser sincero. Se eu fosse escrever para adolescentes agora, escreveria sobre orelha de abano, porque foi um trauma que eu tive. Pega um sentimento que dá certo”, indicou ele. Para Pedro, que gosta de escrever, mas sente preguiça, Walther foi assertivo: “a literatura é um equilíbrio entre paixão e disciplina”, respondeu, incentivando o aluno a insistir no exercício regular.

Este é o segundo que eu faço esse projeto e o feedback é incrível, porque é experiência que não termina aqui. Os alunos entram em contato e você depois, aí tem esse processo continuado. Essa ação é importante porque desmistifica o autor, que não é inalcançável. Isso é essencial para resgatar a autoestima dessa galera. É para eles saírem daqui achando que podem escrever algo, vai além da literatura”, resumiu Walther sobre a experiência ETE Maximiano Accioly Campos.

Rodrigo Ramos

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Neudo Oliveira apresentou estilos e conceitos do cancioneiro nordestino

Natural de Bodocó e radicado no Recife, o músico Neudo Oliveiro começou a sua apresentação na sequência apresentando o conceito da sua “poesia de ponta de rua”, que caracteriza as músicas com narrativa interiorana. Entre as canções autorais de discos como “Desafio” e “7X7”, o músico também ensinou estilos populares nordestinos como o ‘galope à beira mar’, praticado na música “Ibura”, dedicada ao poeta também pernambucano Miró, como reflexo de suas influências de artistas urbanos.

Ao ser questionado sobre o que o inspirava a fazer canção, o músico exemplificou como cenas cotidianas também rendem um bom material. “Trabalhei em diversas coisas, uma delas foi na feira. Os personagens da feira são muito interessantes, tinha uma cega na porta do banco Bandepe que reconhecia as moedas e, quando davam pouco, ela reclamava e as pessoas costumavam dizer que ela não era cega, aí fiz uma música sobre ela”, lembrou Neudo, ao interpretar a “Cantiga da Velha Cega”, que tem um teor social mais abrangente.

Rodrigo Ramos

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O músico cantou músicas autorais para os alunos

Minha poesia é vivência. Claro que à medida que o tempo passa, a gente vai sendo mais universal. Isso é importante e necessário, mas grande parte da minha obra é sobre minha trajetória e é uma forma de resistência mesmo”, completou depois, ao responder sobre o seu processo criativo também como uma forma de combate ao preconceito. “Preconceito com o sertão é geral, mas a gente vai derrubando essas barreiras. Aqui você é visto com um olhar diferente no começo, mas a gente vai quebrando isso, porque somos um só corpo”, concluiu ele.

“Reunir educação com a cultura é primordial para os nossos jovens para fazer com que eles sejam protagonistas de sua própria história. Então, esse trabalho que a Fundarpe tem é fundamental. Havia uma expectativa muito grande para receber o Outras Palavras e estamos felizes porque eles gostaram e replicaram”, avaliou o professor Iran Escobar, que faz a gestão da ETE Maximiano Accioly Campos.

OLINDA

Na quinta-feira (12), pela manhã, foi a vez da Escola Estadual Guedes Alcoforado, que fica no Varadouro, em Olinda, receber o Outros Palavras. Na ocasião, os artistas convidados foram o escritor Philippe Wollney, vencedor do 4º Prêmio Pernambuco de Literatura, e a coquista Glorinha do Coco, de Amaro Branco.

Jan Ribeiro

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Phillipe Wollney foi o escritor convidado do Outras Palavras na Escola Estadual Guedes Alcoforado

Aberto pelo bate-papo com Wollney, o dia foi marcado por um diálogo direto e mais próximo dos alunos. “Goiana tem aquele perfil de terra arrasada, onde não tantas ofertas de atividades, então, sempre penso que a arte que eu faço se aproxima das periferias das grandes cidades”, iniciou ele, ao justificar a transgressão de sua métrica. “Sou uma mistura de escritor e terrorista cultural, porque faço os meus atentados”, definiu-se.

Aspirante a músico na adolescência, o autor revelou que o interesse pela literatura se manifestou tardiamente como uma consequência da composição. “Me descobri um péssimo músico, o que me interessava é que as canções tinham estrutura diferente e aí a poesia começou a me acolher melhor. O que me fez adotar ela foi a linguagem que acho que faz um caminho mais curto para o que eu busco”, explicou Wollney que, influenciado por músicos como Itamar Assumpção e Tom Zé, dedicou-se a desconstrução da melodia e outras formas de montá-la, o que se refletiu na sua poesia.

Jan Ribeiro

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Alunos participaram do debate com o escritor

Critico quem pensa que o escritor é especial. Acho que isso é um tipo de representação artística elitista, é um discurso de isenção. Não sou essa pessoa da arte pela arte, às vezes é preciso ser abaixo a estética e priorizar o conteúdo. Se fossemos uma sociedade com oportunidades iguais, eu acreditaria em estética, mas enquanto não for assim, acho que é só mais uma forma de priorizar um grupo”, refletiu ele sobre a forma de reivindicação por trás da escolha do seu estilo.

Para mim, literatura e política estão muito próximos. Quando alguém mais novo lá de Goiana chega e diz que a primeira vez que viu um sarau foi comigo ou que se interessou por isso quando viu alguma intervenção minha, considero que tem uma simbologia política, a gente estando ali na cultura canavial, naquele ambiente da tensão da monocultura”, disse ele ao responder aos alunos se alguém já havia lhe dito que havia sido influenciado pela obra dele.

Jan Ribeiro

Jan Ribeiro

Alunos declamaram versos próprios

Estudantes como Márcio Daniel, de 20 anos, ficaram curiosos sobre o autor. “Acho interessante para os alunos que a escola traga cultura, porque isso é tudo para muita gente e a cultura está em toda parte. Curti conhecer Phillipe, vou até ler o livro dele quando eu chegar em casa”, disse ele, que participou do debate com perguntas e lendo versos próprios.

Dona Glorinha falou um pouco sobre a sua trajetória no Coco, iniciada aos 7 anos de idade, quando acompanhava as apresentações da sua mãe. Até hoje, considerada sua maior influência, a matriarca é a autora das músicas do primeiro disco homônimo de Dona Glorinha, a faixa que leva seu nome é a única que não foi composta pela mãe. Após a breve conversa, a coquista preferiu dedicar maior parte do tempo à música, mostrando que seu principal veículo de interação com as pessoas é o Coco.

Jan Ribeiro

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Dona Glorinha do Coco relembrou a sua trajetória

“Para mim é um prazer muito grande estar me apresentando e mostrando o que eu sei para os alunos. O Coco é uma tradição muito antiga e temos que mostrar que é cultura, porque foi uma das primeiras que chegou em Pernambuco e deve ser valorizada”, disse ela, ao final do evento, sobre a sua participação no projeto.

“Foi a primeira vez que recebemos o Outras Palavras e espero que não seja a última, porque foi uma experiência muito boa. Os estudantes adoram arte e a gente precisa encontrar caminhos de resgatá-los. Através de uma iniciativa como essa, a gente vê como a cultura agrega muito à escola”, observou o diretor da Escola Estadual Guedes Alcoforado, Ezio Alves Ferreira.

Jan Ribeiro

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