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Literatura

Palavras, música, tradições e possibilidades

Eric Gomes

Eric Gomes

Adiel Luna se junta ao repentista Damião Enésio para entoar versos, na próxima sexta (9)


por Leonardo Vila Nova

Há alguns séculos, a tradição poética oral do nordestino encontrou na música um dos seus principais suportes, tanto como forma de expressão e criação quanto para sua difusão. Letrados ouvintes, leigos admiradores… todos atentam seus ouvidos para degustar palavras e sons, cerzidos, em comunhão, por poetas, trovadores, instrumentistas. Música e poesia que caminham juntas para transmitir ensinamentos, arte e percepções do mundo. Em sua segunda edição, o Clisertão celebra esse fértil entrelace com algumas apresentações que irão traduzir a mais perfeita harmonia entre universos que se complementam.

Poetas/“cantautores” de mão cheia levarão à Petrolina espetáculos onde a poesia e a música são as protagonistas. Tudo isso acontece no auditório da UPE, na unidade do município. Em palco, a noite de abertura do Clisertão contará com a participação dos irmãos Melo – Maciel, Marconi e Maviael – que se unem, no espetáculo “Vozes do Sertão”, na segunda (5), às 20h30. Os cantadores irão desfiar poesias e canções que compõem o imaginário nordestino, onde os característicos traços sertanejos se revelam, ao som de cantorias, forrós e xotes, repletos de lirismo.

Já na sexta (9), às 20h, é a voz dos repentistas que entra em cena, costurando versos muito bem metrificados, em melodias que soam como verdadeiros mantras. São sextilhas, martelos, galopes, motes em 7, em 10. Apenas algumas das inúmeras modalidades características da poesia popular nordestina, presentes no linguajar dos repentistas, nas toadas de maracatu, nos aboios, entre outras manifestações orais. De viola em mãos, e com a força da garganta, o poeta, coquista e cantador Adiel Luna forma uma dupla inédita com Damião Enésio. Eles se somam à dupla Francisco Oliveira e José Oliveira, em “Pé de Parede: Cantoria de viola”, onde a arte de improvisar, declamar e cantar é o verdadeiro mote.

Uma linguagem poética e musical sem amarras, plural, que, apesar de estar tão assentada em suas tradições, também passa a incorporar elementos que nos conectam com novas ferramentas de criação. E sempre o intenso diálogo entre música e poesia está presente, quase que umbilical. O caso mais flagrante disso é o do músico, poeta e ator José Paes de Lira, o Lirinha, que também marca presença na programação com o espetáculo “Poesia eletrônica”, que acontece na quarta (7), às 20h30. O número é uma confluência de possibilidades, que vão da poesia popular apre(e)ndida em Arcoverde a sons pré-gravados que são manipulados ao vivo (acionados através de sampler), funcionando como extensão das poesias, criando ambiências, cenários e texturas possíveis, tendo a tecnologia como ferramenta disso “O recital enaltece o conflito entre voz/memória e a eletricidade/dados arquivados”, conta Lirinha.

Sejam falados, sejam cantados. Versos e melodia se irmanam e compõem a tradição e o porvir dos nossos poetas e cantadores. Um linguajar poético assentado na herança de mouros, ibéricos, occitans, mas que aponta para novos caminhos e possibilidades. Parte disso é o que propõe cada um desses espetáculos, onde violas, sanfonas, samplers e gargantas falam com o mesmo sotaque.

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