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Literatura

Uma língua? Vários falares

Costa Neto

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Andreia Joana, Alexandre Furtado, Luís Serguilha e Abreu Paxe debatem a lusofonia

por Leonardo Vila Nova

Hoje, mais de 200 milhões de pessoas espalhadas pelo globo terrestre falam a língua portuguesa. No entanto, nem todas falam a mesma a língua. Nascidos nos continentes europeu, africano e americano (no caso, no Brasil), oito países (mais outras três regiões), dadas “n” circunstâncias históricas, têm a língua portuguesa como base do seu idioma, mas, em cada um deles, diferentes outras línguas e dialetos foram se agregando, se recombinando e conferindo a cada uma dessas nações vernáculos, expressões, jeitos e sotaques muito particulares como modo de se expressar. Apesar da alcunha “lusófonos”, a dinâmica da língua em cada um desses territórios geográficos lhes confere singularidades muito acentuadas. Este foi o tema da mesa “Lusofonia: mito e paradoxo”, promovido pelo II Clisertão, nesta terça (6), com a presença do escritor angolano Abreu Paxe, o poeta português Luís Serguilha, o professor da UPE Alexandre Furtado, com mediação da professora portuguesa Andreia Joana Silva.

Durante a mesa, ficou claro que todos os participantes concordam o quão complexa são as realidades de cada lugar que tem o português como seu idioma oficial. Mas, para aproximar essas nações, existiria alguma forma de unificá-las, através da língua que compartilham? Categóricos em suas falas, Luís Serguilha refuta o termo “lusófono”, ao afirmar que ele não abarca a dinâmica de transculturação e miscigenação pela qual a língua portuguesa sempre caminhou, desde a sua origem. Também ganham a sua antipatia as expressões “identidade” e “multiculturalismo”, que, segundo ele, são responsáveis pela segmentação das sociedades em grupos, guethos. “A língua, na verdade, alimenta-se da transgressão, ela não permite qualquer tipo de dominação e não pode ser reduzida a algo estático, classificatório. Ela é dinâmica, incontrolável, mutável. Ela está em estado de incompletude permanente, criando rotas a toda hora. Assim o é também com a língua portuguesa. Engana-se aquele que diz que ‘domina a língua’!”

A tentativa de uniformizar a língua portuguesa, surgida através do mais recente Acordo Ortográfico, constitui-se em um equívoco, à medida que não leva em conta tanto essa pluralidade que retrata as nações que falam a língua portuguesa, inclusive os tratos particulares de cada uma delas, assim como a sua relação com signos próprios de interpretação e uso dessa língua. “A Gramática é o lugar da norma. Mas o que alimenta a Gramática são, justamente, os elementos periféricos, marginais. A literatura, por exemplo, é alimentada pela linguagem que está à margem das normas. E quem resolve o acordo ortográfico está dentro de gabinetes“, pontuou Abreu Paxe, ao explicar que toda a dinâmica da língua não é levada em conta por aqueles que edificam as normas, tentando, em vão, unificá-la, engessá-la.

Outra possibilidade que faz cair por terra a unificação da língua portuguesa – e até mesmo de qualquer língua – como forma de homogeneizar culturas tão diversas, é que, a língua não se restringe apenas à palavra em si. O tanto de significados diferenciados que ela pode vir a carregar, tal seja o território por onde ela trajeta, assim como a própria compreensão do que se fala por quem fala e por quem ouve. Segundo Alexandre Furtado, o caminho que se estabelece entre o que é dito e o que é ouvido é carregado também de significados. “Nem sempre o que você pensa e constroi e o que você diz, ao ser dito, vai ser escutado e compreendido da mesma forma. Há um caminho de escuta que se perde e a palavra não dá conta“.

A Língua Portuguesa e o território fértil da discussão onde ela se situa para debater modos, costumes, estéticas e jeitos de povos tão diversos rendeu uma longa conversa, que não se esgotou apenas na mesa. Assim como são se esgotará em tantas quantas sejam as edições do Clisertão. Enquanto esse texto está sendo feito, a nossa língua continua se transformando, ganhando novas interpretações e sendo reescrita. É essa inconclusão que nos define a cultura… continuamente “loading…”

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