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A folia dos bichos

Onde o camelo, a girafa e o leão se encontram para frevar

Por: Cirlene Leite

Priscilla Buhr

Um Encontro de Bichos foi a motivação para pegar, numa Segunda-feira de Carnaval, a BR-232 com destino a Vitória de Santo Antão, a 53 km do Recife. Localizada na Zona da Mata Sul, a cidade tem um Carnaval que se destaca, com tradição em blocos e troças normalmente representados por animais de todos os tipos, de todas as raças e também de terras distantes, que não se encontram por essas bandas, a não ser em zoológicos.

A zebra, o camelo, a girafa, o leão e o urso convivem pacificamente com bois, bode, guiné, sapo, coelho, galo, cisne, morcego, águia e até, pasmem, ET e bicho papão. Tudo isso tem por lá. Talvez por esse motivo, o folião vitoriense seja fera em animação. Quase toda a cidade se envolve na brincadeira e cai no passo das orquestras de metais e seus frevos rasgados, ou mesmo dos trios elétricos que sobem e descem ladeiras no ritmo do axé baiano e dos sucessos bregas do momento.

O bloco A Girafa é um desses; aliás, o maior e mais famoso deles. São dois trios elétricos arrastando mais de 3 mil pessoas, segundo seus organizadores. Tem meio século de existência e costumava desfilar com carros alegóricos, orquestras de chão e grupos fantasiados. Na década de 1990, rendeu-se à “novidade” dos trios elétricos dos carnavais fora de época exportados da Bahia e mudou o estilo, adotando o cordão de isolamento – dentro dele só vai quem tem a camisa amarela do bloco.

“A Girafa é 10!”, grita Terezinha Urbano, sem perder o ritmo na descida atrás do trio. “É o mais animado, saio nele há seis anos, virou um vício”, completa Marcicleide de Sena, outra foliã apressada. Quando pergunto, de longe, quanto pagaram pela camisa, o grupo, composto por mais outras quatro garotas, responde numa só voz: “Noventa reais!”. E então somem no meio da multidão.

E para não “dar com os burros n’água”, já que não fiz nenhuma “vaquinha” pra comprar a camisa, tiro o “cavalinho da chuva” e saio de fininho em busca de outros animais, antes que o Encontro dos Bichos acabe e a “vaca vá pro brejo”. E é só o tempo de dobrar a esquina e pegar a Rua Imperial, para dar de cara com eles. Em cima de um carro alegórico, estão o Camelo, o Cisne, o Urso Preto e o Leão, o mais antigo de Vitória, com 110 anos de fundação, todos confeccionados pelas mãos do artista plástico Deusdete da Mata.

Acompanham o cortejo pessoas usando cabeças caracterizadas com outros bichos, que seguem para a Praça da Matriz ao som do frevo. À bicharada, se juntam os brincantes de bois e os Bonecos Gigantes de Pernambuco, arrastando o povo. “Eu só sei brincar assim, de graça, com orquestra no chão. Prefiro 100 mil vezes esse Carnaval”, enfatiza o servidor público José Eduardo Severiano dos Santos. O casal João e Avanice Lira é da mesma opinião: “Trio elétrico é horrível, não é adequado para Vitória. Aqui é Pernambuco, não é Bahia”, reclama.

As troças são um capítulo à parte. E são muitas, uma atrás da outra. Consegui “frevar” na O Boi é Bom e na Pingunços, ambas muito animadas e concorridas. Foi nelas que conheci Mari Souza e a família: marido, irmãos, filhos e até a mãe dela, com mais de 70 anos, fazendo o passo. “É Carnaval para a família toda, tradição e tranquilidade”. E como idade não é mesmo documento, a troça O Tabaco da Véia faz a alegria dos foliões, levando um homem travestido de uma debochada e simpática senhora, sentada em uma cadeira de balanço em cima de um carro alegórico. Com um cachimbo apagado na boca e “fazendo irreverências mil”, a velhinha reforça o slogan da troça “…e o fumo entrando”. Brincadeiras que só são possíveis nesse frenético reinado de Momo.

O Carnaval de Vitória é assim, com diferentes públicos, todos contemplados pela diversidade de ritmos, de bichos, de palcos e polos de animação. O Secretário Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, Paulo Roberto Arruda, procura definir essas características assim: “Todos os ritmos e tribos convivem em harmonia e brincam juntos nos cinco polos distribuídos pela cidade. Os polos da Matriz e do Livramento são mais culturais, com blocos que representam os antigos carnavais da cidade. O Polo Duque de Caxias tem mais shows de palco e o de Pirituba, por ser na zona rural, preserva as brincadeiras de terreiros”, explica.

Na prática, o que se vê em Vitória é um só Carnaval de alegria: participação e encontros de bichos, com gente fazendo a festa acontecer.

 

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