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André Madureira faz Pernambuco dançar

Patrimônio Vivo de Pernambuco, o fundador do Balé Popular do Recife conversa com a equipe do Cultura.PE sobre sua trajetória e planos para o futuro

Tiago Montenegro 

Aos 67 anos de idade e com mais de meio século de trajetória artística, André Madureira não descansa. Quase uma tarde inteira foi o tempo que precisou para relembrar seus primeiros movimentos no universo artístico, alguns momentos marcantes pelo caminho e adiantar planos para o futuro, em especial, aqueles impulsionados por sua mais recente conquista, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Nascido em Garanhuns, no Agreste do Estado, André mudou-se para Recife ainda jovem e, no final dos anos 1960, já era criador, diretor, produtor e apresentador de programas na rádio e na TV do Sistema Jornal do Commercio.  Foi em 1972 que fundou o Grupo Teatral Gente da Gente, que viria a se tornar o Balé Popular do Recife, seu feito principal, uma riqueza de Pernambuco que se confunde com a própria história de André.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

André Madureira recebeu a equipe do Cultura.PE em sua residência, no bairro de Casa Forte

“Eu sou de uma família de artistas, meu pai foi locutor de rádio e TV, acompanhei os passos dele nessa trajetória, não podia dar em outra coisa. Minha inserção na dança foi um acidente, eu não tinha nenhuma ligação com dança, era apenas um pesquisador das estações carnavalescas, juninas, eu via passar o arraial, não tinha pretensão de fazer disso uma profissão”, conta. “Em 1976, meu irmão Zeca Madureira era da Fundação de Cultura do Recife e propôs a criação de um grupo folclórico voltado pras tradições pernambucanas. Ariano (Suassuna) bancou a ideia de fazer um projeto cultural com música, teatro, dança e arte plásticas, e me convidou pra fazer parte do projeto com o balé armorial, foi aí que tudo começou”.

André lembra bem deste período como “de grandes dificuldades para manter o grupo teatral, formado por jovens entre 15 e 16 anos” e conta que, ainda assim, “todos foram se contaminando pela dança popular brasileira e quando o balé armorial acabou, nós assumimos este lugar, deixamos nossos afazeres do dia a dia para nos dedicarmos à cultura popular”.

Com mais de 40 anos de história, o Balé Popular do Recife deu origem ao segmento de dança popular cênica em Pernambuco. Desde o início, André é diretor e coreógrafo da companhia, responsável por ter formado mais de 5 mil bailarinos e impulsionado o surgimento de tantos grupos cênicos atuantes no Estado. “O balé começou com Ariano Suassuna, a gente não tinha uma linha própria de ação, às vezes era grupo folclórico, de dança popular, outras era de dança a caráter ou dança primitiva, não tínhamos definição para o que fazíamos. Foi ensaiando muito e pensando nisso que desenvolvemos uma metodologia nova, que manteve as características das danças populares autênticas, seus passos, a interpretação, a coreografia”, explica André. A esta sistematização e codificação dos passos e movimentos, foi dado o nome de Método Brasílica, ainda hoje importante ferramenta para transmissão dos saberes, que envolve de uma maneira especial, leve e didática, o público infantil.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

André Madureira é fundador do Balé Popular do Recife

Acumulando milhares de apresentações e processos formativos por todo o Brasil e diversos países, o Balé Popular do Recife mantém um programa permanente de oficinas em escolas particulares do Recife; além do elenco principal formado por 14 bailarinos com idade entre 13 e 17 anos; o Balé Brasil Brinquedo, com integrantes de 8 a 13 anos; e ainda atividades voltadas para a terceira idade. “Tudo isso atende ao objetivo de prepararmos a juventude pernambucana para conhecer melhor as tradições e expressões da dança, especialmente da dança recriada”, comemora.

Até aqui, foram muitas as conquistas do Balé. André celebra uma em particular: “Todo pernambucano dança frevo, é uma cultura consolidada. Isso é uma vitória, em parte, do Balé Popular, que levou a sombrinha pra rua, fazendo com que o frevo voltasse a ser a marca forte de Pernambuco não só no Carnaval, mas durante todo o ano”.  Entre os momentos marcantes na história do Balé, André lembra “quando superlotamos o Teatro Guararapes durante três noites, ninguém acreditava que o público do Recife gostava tanto do balé, aquilo foi um sucesso tremendo, o reconhecimento do público naquele momento foi o que permitiu concretizarmos o trabalho e nos levou ao título de Patrimônio do Recife. Temos muitas histórias, muitas viagens, muita insegurança, mas também muitas vitórias”.

Neste momento de celebração pelo título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, André menciona também outros mestres que sempre o inspiraram e colaboraram com a história do Balé. “Antônio Pereira, Mariano do Cavalo Marinho de Rebouças, Seu Nelson do Boi da Cara Preta, Luizinho do Xaxado, Dona Zélia do Maracatu Cruzeiro do Forte, a lista é enorme. Todo esse pessoal recebeu o balé de braços abertos, nos deram de ‘mão beijada’ o rico acervo da cultura popular para que transformássemos em algo que apontasse para o futuro das tradições”, relembra. “O Balé segue acreditando que a cultura é transformadora, um processo de regeneração. Se o Pernambuco é tão rico em cultura, o povo deve ser rico também em tradição”, destaca o diretor artístico da companhia.

Costa Neto/CulturaPE

Costa Neto/CulturaPE

Espetáculo do Balé ‘Nordeste – A dança do Brasil’, apresentado no FIG 2015

A aquisição da sede do grupo, que funciona na Rua do Sossego, número 52, na boa Vista, é uma das principais metas do grupo na atualidade. O objetivo é também que ela se consolide como um espaço para pesquisa, com salas amplas, biblioteca, que comporte todas as atividades do Balé. “Não temos patrocínio, sobrevivemos como um milagre da natureza, todo dia a gente vai à luta pra conseguir vender o balé, temos um mercado já consolidado, mas com muita concorrência, por isso é importante a manutenção das ações como polos de animação durante Carnaval, São João, para a sobrevivência de grupos como o Balé”, destaca André.

Sobre o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, que garante uma bolsa mensal oferecida pelo Governo de Pernambuco a André, ele comenta da “alegria que sentiu ao ver os amigos se organizando e me indicando para o título, em especial, os amigos da Fundação Gilberto Freyre. O título veio coroar nossa luta, é um privilegio muito grande e me coloco à disposição para o que precisarem. Sou muito agradecido por isso e, apesar da minha dificuldade atual de locomoção, continuo trabalhando em prol da dança e da arte em Pernambuco”.

Costa Neto/CulturaPE

Costa Neto/CulturaPE

Espetáculo ‘Nordeste – A dança do Brasil’, apresentado no FIG 2015

Hoje, André exerce a função de “guru, mentor do balé”, como gosta de dizer. A filha Angélica Madureira responde pela parte artística e a esposa Angela pela administrativa. A escola de balé está sob o comando de Pedro Pernambuco. “Fico flutuando no meio desses grupos, sem a mesma força de antes, mas dedicado, pensando no bale 24 horas por dia, para que ele sobreviva, realize suas missões”, ressalta André.

Entre os sonhos para futuro, André adianta: “Queremos formar uma geração nova de passistas de frevo, mil passistas formados com o frevo clássico, o frevo da dança cênica, que compreendam a dramatização dos passos e a técnica do método brasílica. A gente não para, tá sempre se movendo, o importante é fazer Pernambuco um estado dançante,  e isso a gente vem conseguindo”.

PRINCIPAIS TRABALHOS DE ANDRÉ MADUREIRA COMO COREÓGRAFO E DIRETOR

1977 – “Brincadeira de um Circo em Decadência”, com o qual iniciou sua carreira e deu origem ao Balé Popular do Recife;

1979 – “Prosopopeia – O Auto do Guerreiro”, que apresentava folguedos e danças populares de vários estados brasileiros;

1983 – “Presepadas do Dr. Munganga”, espetáculo infantil;

1984 – “A Capital do Frevo”, espetáculo didático apresentado em oficinas de frevo;

1981 – “O Baile do Menino Deus”, espetáculo infantil natalino baseado na obra de Ronaldo Brito;

1984 e 1982 – “Oh! Linda, Olinda”, espetáculo em homenagem à cidade, que apresentava folguedos como pastoril e no qual foi criado o personagem Veio Mangaba, do ator e cantor Walmir Chagas;

1987 – “Nordeste – A dança do Brasil”, espetáculo resultado dos 10 anos de pesquisa do Balé Popular do Recife e ainda hoje encenado com adaptações;

1992 – “Brasílica – O Romance da Nau Catarineta”, composto por 70 bailarinos, em comemoração aos 15 anos do grupo, com cerca de mil peças de figurino, dando continuidade à pesquisa da Dança Brasílica.

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