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Chocho: o mestre chorão mais antigo do Brasil

Aos 94 anos, mais de 70 deles dedicados à música, Mestre Chocho é também Patrimônio Vivo de Pernambuco desde 2017

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Mestre Chocho é Patrimônio Vivo de Pernambuco

Por Marcus Iglesias

Talvez muita gente não saiba que o mais antigo chorão em atividade no Brasil é pernambucano – outra megalomania, das bonitas, pra coleção do estado. Otaviano do Monte, conhecido como Chocho do Bandolim, ou, de forma mais honrosa, como Mestre Chocho, nasceu no dia 12 de fevereiro de 1924, no Cabo de Santo Agostinho. São 94 anos de vida e mais de 70 dedicados à música e ao choro, ao prazer de fazer as pessoas se sentirem bem através da arte, razão pela qual, em 2017, ao lado de outros cinco nomes da cultura popular, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

A história de Chocho é um clássico da boemia que passou a reinar no Recife em meados da década de 40, com a explosão das rádios e programas de música pela capital pernambucana. Também traz muita amizade, família e referências ao bairro por onde morou e mora há décadas, o bairro de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes. Carinho e envolvimento que se traduzem no apelido, sua marca registrada, que segundo ele veio dos avós. “Quando eu era criança, eu tinha problema de cansaço. Naquele tempo a gente chamava de puxado. Isso me deixou bem magrinho, e ai ficaram me chamando de Chocho”, lembra o mestre, abrindo um sorriso.

Envolvimento com a música

Mesmo sem nunca ter frequentado uma escola musical, Mestre Chocho aprendeu a arte com os ouvidos, a prática e a coragem de correr atrás do que mais gostava: tocar nas serestas e farras com os amigos. Assim como a maioria dos jovens da época e da atualidade, começou primeiro com o violão. “Muito cedo, com 12 ou 13 anos, mas naquela curiosidade de criança. Meu primeiro professor foi um tio. Zé Vital o nome dele, mas a gente o chamava de Tio Zé. Era irmão da minha mãe. Outra pessoa com quem aprendi muito foi o radialista Zé do Carmo Bendito Santo, que tinha um programa de seresta na Rádio Clube. Eu escutava aquilo e pesquisava muita coisa a partir dali”, detalha.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Assim como a maioria dos jovens da época e da atualidade, enveredou pelo caminho da música primeiramente com o violão

Até os 20 anos, Chocho morou em várias praias do litoral pernambucano, como Candeias e Boa Viagem, mas sempre com a disposição de se juntar com colegas e tirar um som. “Quando eu tinha essa idade, encontrei um pessoal em Boa Viagem, dali da Aeronáutica, que tocava também. Eu era fraquinho na época, mas enfrentei assim mesmo e fui em frente. Não demorou muito tempo pra chegarem até mim e falarem que não podiam mais tocar comigo porque eu estava muito adiantado”, relembra, com sabor de vitória. “Anos mais tarde eu fiz uma música, mostrei a um amigo e ele deu o nome a ela de Derramada no Deserto. Na época tinha um programa de calouros na Rádio Jornal, no início dos nos 1950, bem disputado. Fui lá e me inscrevi, e quando eu vi o resultado tinha tirado o segundo lugar”. Nasceu então o primeiro sucesso de Chocho.

Apesar do talento e disposição, a música nunca foi sua principal fonte de renda, e Mestre Chocho trabalhou boa parte da vida como mestre de obras.  “Com 29 anos eu já estava casado e fui demitido da firma que trabalhava. Recebi uma indenização e decidi tentar a sorte no Rio de Janeiro com a minha família. Admito que quando cheguei lá eu tinha muita intenção de música, mas quando o tempo passou, vi que não ia dar certo”, lamenta. “Fui então de novo ao escritório da firma que trabalhei no Recife e, como conhecia o dono, o Doutor Erasto, pedi trabalho a ele. Ele ficou muito feliz de me ver por lá e me mandou pra um serviço no Cabo Frio e Arraial do Cabo. Chegando lá e tinha toda uma turma que eu trabalhei no Recife, foi um ambiente familiar. Mas quando quis voltar pro Recife, dois anos depois, o Doutor Erasto me deu todo apoio”, disse, comovido.

Bandolim e choro no Quintal do Cosme

A volta ao Recife, além de colocar o mestre em contato com a terra-natal, fez com que ele se aprofundasse em outros dois instrumentos, o cavaquinho e, finalmente, o bandolim. “Vendi minhas coisas que tinha lá no Rio de Janeiro e chegando aqui já tinha meu cantinho. Eu estava com saudade de casa, e quando voltei me juntei com uns colegas pra arrumar uns serviços de obra. Fiz novos amigos, e um deles, chamado Josué, gostava muito de tocar comigo. Tivemos então a ideia de ficar ensaiando todo sábado. Nessa época eu já estava dominando o cavaquinho, porque dois irmãos meus já tocavam violão e eu ficava com esse instrumento nas rodas de choro e seresta”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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Segundo o mestre, o interesse pelo bandolim começou numa brincadeira, uma aposta com um amigo, que o desafiou a aprender a tocar o instrumento em uma semana

“Um dia, Josué me apareceu com um bandolim e me desafiou. ‘Se você no próximo ensaio tocar pra mim a música Diabinho Maluco, de Jacob do Bandolim, eu vou lhe dar uma radiola portátil e um disco dele de presente’. Eu nunca havia tocado num bandolim na vida, só tinha ouvido falar. Trouxe pra casa, e depois dos trabalhos eu ficava ensaiando, de segunda a sábado. Com isso não só aprendi as músicas, como também fiz uns arranjozinhos”, se vangloria.

“Quando eu fui até a casa do Josué no dia do ensaio, menti e disse que não tinha conseguido aprender nada. Ele ficou meio frustrado, mas fomos ensaiar com violão e cavaquinho mesmo. Ai depois que eu tomei umas eu disse ‘Compadre, me dá esse bandolim ai que não é possível que a gente não consiga tocar nada’. Peguei o instrumento e toquei a música do desafio, e ele ficou rindo sem acreditar, me xingando de tudo que é coisa. Foi a partir daí que larguei o cavaquinho e fiquei tocando bandolim”.

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“Na outra semana peguei o instrumento e toquei a música do desafio. Meu amigo ficou rindo sem acreditar, me xingando de tudo que é coisa. Foi a partir daí que larguei o cavaquinho e fiquei tocando bandolim”, conta Chocho

Chocho tem na memória muitas boas lembranças do lendário grupo Choro Unidos dos Guararapes, formado pelos amigos Josué, Ângelo e Cosme, que por mais de 30 anos tocaram na Roda de Choro do Quintal do Cosme e se tornaram um dos pontos de encontro dos chorões pernambucanos mais importantes da história local. A gente se apresentava antes num lugar chamado Bar Porta Larga, cujo dono era Seu Orlando, e quando ele faleceu nos mudamos para a casa do Cosme. Primeiro começamos na sala, depois fomos pra cozinha, ai quando não cabia mais de gente nos mudamos pra um terraço de lado. E por fim paramos no quintal. Assim nasceu o Quintal do Cosme. E lá era um celeiro de músicos. Passamos uns trinta anos, tocando nesse espaço, e vi passarem por ali muitos artistas bons, como o bandolinista Marcos César, entre outros tantos”.

Num dos períodos que precisou morar em Santa Maria da Boa Vista, por conta de trabalho, Mestre Chocho praticamente voltava para o bairro Prazeres todo mês apenas pra participar das rodas. “Eu morava perto da beira do Rio São Francisco nessa época, numa fazenda, e de noite a gente via a luz das estrelas e da lua refletindo na água. Eu me sentava e ficava ensaiando, procurando o que não encontrei, mas que estava ali e eu terminei encontrando. Foi assim que tive a inspiração de fazer a música Quintal do Cosme, mas ela veio no violão. Eu fiz a primeira parte, comecei a segunda, e ai decidi então passar para o bandolim”, descreve. A canção, posteriormente, foi letrada pelo músico Noel Tavares.

De mês em mês, os encontros passaram a acontecer quinzenalmente quando o mestre voltou pra casa. “Aconteceu que Cosme faleceu, e deixou minha comadre com as filhas. Foi quando a prefeitura veio com um projeto de construir um viaduto novo e destruiu todas as casas no caminho. E a casa do Cosme se perdeu. Isso foi por volta dos anos 2000, não me recordo bem”, resgata, com tristeza.  Mas o choro pernambucano não morreu ali. Marcos Veloso, dono do espaço Nosso Quintal, no Torreão, passou a realizar os encontros na sua casa, ambiente que foi o novo point de encontro dos seresteiros e chorões de pernambucano.

Registros fonográficos

As composições, em sua maioria, são inéditas para o grande público, e conhecidas apenas entre os frequentadores das rodas de choro. É um dos precursores do chamado choro frevado, que existe apenas em Pernambuco. Sua habilidade com os instrumentos de corda tornou Mestre Chocho a grande influência de nomes da música pernambucana, como Beto do Bandolim, Bozó e Tereza Cristina.

Um dos poucos registros fonográficos que têm é o CD Chorinho do nosso quintal (2006), com seis músicas de sua autoria e que foi produzido por Marcos Veloso – que também lançou em 2017 o documentário Chocho – 70 Anos de Cordas Musicais. Outras canções de Chocho foram gravadas por outras pessoas, como Danda e seu regional, que possuem dois discos com músicas do mestre. Há também a intenção de inscrever projetos no edital do Funcultura/Governo do Estado para gravar o primeiro disco do mestre. “Devo ter mais de 200 composições. Não dá pra contar. Eu perdi muita fita com músicas. Mas eu tenho muito na cachola ainda”.

De 2015 pra cá, o mestre recebeu uma enxurrada de homenagens e premiações. Festival do Choro João Pernambuco; 70 anos de carreira – Chocho: 70 anos de Cordas Musicais; Documentário Chocho: 70 anos de cordas musicais; Patrimônio Vivo de Pernambuco; e recentemente o Bloco da Saudade, grupo em que o mestre atuou por vários anos, também lhe homenageou. No entanto, para o mestre, a mais simbólica foi a feita pela produtora Naara Santos, em comemoração aos seus 50 anos de música. “Era pra ser só uma filmagem nossa. Ela vem me acompanhado desde o Quintal do Cosme e um dia chegou aqui com um amigo e me ofereceu essa filmagem gratuitamente. A gente fez filmagens em vários locais da cidade, no trem, na praça, na praia, no quintal, e esse foi nosso material de divulgação por muito tempo. Esse vídeo deve estar por ai até hoje”, brinca. Outra honraria que Chocho recebeu foi em 2015, quando o SESC dedicou um evento a ele no Dia Nacional do Choro, comemorado no dia 23 de abril.

Patrimônio Vivo

Uma das coisas que o Mestre Chocho disse ao governador Paulo Câmara na ocasião em que recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, no Teatro de Santa Isabel, foi que “ele não se esquecesse daqueles que merecem esse prêmio”. E ele explica o motivo. “Pra mim foi muito importante recebê-lo. Primeiro porque não é qualquer pessoa que recebe. Tem que merecer pra receber. Dona Isabel, a presidente do Bloco da Saudade, disse pra mim que ficou maravilhada com o que eu disse. Mas é porque é a verdade. A gente tem que torcer pelos outros também, não vamos pensar só na gente”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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‘Eita que placa bonita danada! ’”, relembra o mestre, no momento que recebeu das mãos do governador Paulo Câmara, em 2017, o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco

Quando perguntando o que passou na sua cabeça no momento que recebeu o título, o mestre caiu na risada. “E eu sei lá, rapaz. É tanta coisa que passa na cabeça da gente nessa hora. Mas lembro que quando eu vi a placa me emocionei, Pensei, ‘eita que placa bonita danada! ’”, relembra emocionado. Mas um momento mais bonito e que poucos presenciaram, revela o mestre, foi o dia da defesa da sua candidatura ao título de Patrimônio Vivo do estado. “Era pra gente tocar duas músicas, mas só tocamos uma porque ficamos por último. Tocamos a música, e quando eu desci do palco Betto do Bandolim e Henrique Anneos vieram falar comigo. ‘Chocho, que música bonita é essa. Vamos aprender!’, disseram. Fiquei muito honrado. Foi a música da classificação”, comemora.

A música acima de tudo

Quem vê o Mestre Chocho se apresentar com seu bandolim no colo pode ter a impressão que ele está numa espécie de transe. Como se ele entrasse em outro plano e esquecesse do seu instrumento, ambos se transformando numa coisa só. “A música é muito importante, não só pra mim, mas também pra muita gente. Lá em Marcos Veloso (Nosso Quintal), umas duas vezes, eu estava tocando e eu ouvi alguém gritar ‘Chocho, eu te amo!’. Só isso é suficiente pra deixar a gente realizado. É bom fazer o que os outros gostam, preencher o vazio de alguém que precisa”.

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“É bom fazer o que os outros gostam, preencher o vazio de alguém que precisa”, reflete Chocho sobre seu ofício com a arte da música

“A mensagem que eu deixo pra todos os meus colegas é que não deixem o choro cair e, sempre quando aparecer um interessado a aprender, eles ajudem para que o chorinho nunca acabe. Isso é importante pra todos nós. Você vê as crianças, por exemplo. Um dia desses eu estava aqui tocando e eu não vi não, mas me disseram que enquanto eu tocava a criança abriu uma bocão. Ficou emocionada. Isso comove”. E determinou: “Só vou parar com isso quando papai do céu disser que não dá mais”.

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