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Com que roupa eu vou para o arraial que você me convidou?

Nesta primeira matéria especial sobre o ciclo junino, o Cultura.PE visitou o Morro da Conceição, no Recife, para acompanhar o processo de criação e produção dos figurinos da Junina Tradição

Que as quadrilhas trazem beleza, cores e tradição às festas do ciclo junino, todo mundo sabe. Mas é de se imaginar o esforço que dá organizar, produzir e coreografar esse verdadeiro espetáculo que enche de alegria os arraiais pelo Nordeste. Um trabalho coletivo, que envolve centenas de integrantes, repertórios que vão desde o xote ao baião, coreografias e figurinos. Este último quesito, então, com o passar dos anos, tem merecido a atenção do público e atraído um olhar especial dos jurados dos maiores festivais do gênero.

Para conhecer mais de perto os processos de criação e produção dos figurinos, assim como os artistas e personagens que mantêm viva esta tradição, o repórter Bruno Souza mergulhou no universo de uma típica quadrilha junina recifense. A reportagem é a primeira de uma série especial que o Portal Cultura.PE vai seguir apresentando neste mês sobre o Ciclo Junino em Pernambuco.

Andréa Rêgo Barros/PCR

Andréa Rêgo Barros/PCR

O Cultura.PE conheceu o processo de produção/criação dos figurinos da quadrilha Junina Tradição

Seja retratando os típicos personagens do sertão ou trazendo o que há de mais contemporâneo, é o figurino que ajuda a contar a história da quadrilha e que dá vida às apresentações, entrando no imaginário de crianças e adultos de todas as idades. Embora o considere como um elemento importante na composição de uma quadrilha, o pesquisador Mário Ribeiro – que durante anos organizou o Festival Pernambucano de Quadrilhas Juninas, da Prefeitura do Recife, e atualmente é o coordenador de Conteúdo do Cais do Sertão – ressalta que o figurino deve estar articulado ao tema proposto pela quadrilha e possuir uma funcionalidade. “Ele [o figurino] não fala por si só. Depende do corpo que dará vida a ele no arraial, e depende também da articulação com o tema. O figurino deve ser funcional, literalmente. Ele pode ser luxuosíssimo, mas a dama não consegue executar um passo perfeitamente. Outros, com menos pompa, mas completamente de acordo com o tema, pode contribuir para a conquista do título pelo grupo”, disse.

Clélio Tomaz/ExclusivaBR!

Clélio Tomaz/ExclusivaBR!

Pesquisador das tradicionais festas juninas na capital pernambucana, Mário Ribeiro afirma que as quadrilhas passaram por uma série de transformações nos últimos anos

Doutor em História pela UFPE, com uma tese sobre as festas juninas no Recife, Ribeiro fez, em 2010, um apanhado histórico de mais de 40 grupos pernambucanos para o livro Nos Arraiais da Memória. Nas páginas da publicação, é possível perceber as transformações pelas quais as quadrilhas passaram ao longo dos anos e que, segundo o autor, é um processo natural para manutenção dos grupos. “Como toda forma de expressão, as quadrilhas juninas são bens vivos, dinâmicos, que se transformam para atender às necessidades de quem faz. Neste sentido, os temas e os figurinos se transmutam a fim de dialogar com os contextos específicos que vão surgindo com o passar do tempo. Os jovens que fazem quadrilhas hoje, não são os mesmos jovens que fizeram nos anos 60 e 70. Os grupos transformam-se para sobreviver no tempo. Esse é um processo natural quando tratamos de cultura. A quadrilha é um canal através do qual os quadrilheiros se comunicam com o mundo, fala das suas concepções, de seus valores”, comentou.

Em relação à díade quadrilha tradicional versus quadrilha estilizada, o pesquisador é categórico ao afirmar que, ao menos no Recife, existe espaço e público para as duas modalidades. “A discussão aqui na cidade já avançou bastante sobre isso. Era forte esse debate até o início dos anos 2000, mas depois já passamos para outro ponto. O novo estilo de fazer quadrilha vai englobar uma série de elementos do período anterior. Até mesmo o emprego do adjetivo ‘tradicional’ só vai surgir, justamente, quando as estilizadas começam a conquistar a preferência dos quadrilheiros. Esse novo modo irá trazer mais brilho nas roupas, movimentos mais acelerados, trilha sonora que foge das marchinhas juninas, uma proposta de casamento mais audacioso, não obedecendo ao modelo padrão de família tradicional que estamos acostumados a ver. Apesar de termos essas diferenças, os grupos continuarão comemorando o casamento, continuarão dançando em pares, executando movimentos como anarriê, grande roda, entre outros passos, mas só que agora eles são recriados”, contou.

Essa evolução, tanto no figurino dos dançarinos quanto nos temas das quadrilhas, pode ser observada em grupos, como o da Junina Tradição (JT), do Morro da Conceição. Fruto de uma dissidência da Origem Nordestina, pertencente ao mesmo bairro, a Tradição foi criada em 2004 por um grupo de quatro amigos: Fabiano Ferreira, Maurício Francisco, Ademário Ferreira (Xoxo) e Jimmy Glauber. Com o apoio dos primos Joselito Costa (atual presidente da JT) e Perácio Jr., e dos vizinhos Gildo Alencar, Anderson Gomes, Cleyton Santos (Buda), Sandro Sá, Diogo Luís, Adeilda Souza (Tetei) e Maria Lúcia (Nena), e a experiência anterior adquirida na Origem, o grupo, desde então, vem se sagrando como uma das quadrilhas mais premiadas de nosso Estado, graças à sua originalidade e capacidade de ousar.

Andréa Rêgo Barros/PCR

Andréa Rêgo Barros/PCR

A Junina Tradição é um dos grupos que mais faturam prêmios em nosso Estado

“É possível transformar a apresentação de uma quadrilha em um verdadeiro espetáculo cênico, com inovação e sem ser repetitivo. Gosto de provocar o público que nos assiste. Já tratamos de temas como o casamento homoafetivo e, no ano passado, sobre o abuso sexual que, infelizmente, muitas mulheres sofrem”, disse Anderson Abreu, projetista da Junina. Ator, dramaturgo e diretor de teatro, Abreu é, desde 2010, o responsável por orquestrar e roteirizar toda a história que o grupo, através do tema, vai contar nos arraiais em que se apresenta.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Anderson Abreu é uma espécie de roteirista da quadrilha

Como as quadrilhas estão se profissionalizando cada vez mais, e buscam executar suas ações cada vez mais cedo, o trabalho de Anderson se inicia com vários meses de antecedência do ciclo junino. “Começo a pensar em outubro no tema, para apresentar, já no final de novembro, um esboço à direção da JT do que iremos tratar no ano seguinte”, disse Abreu. Uma vez aprovado, é hora de lançar/mostrar a temática aos quadrilheiros e mobilizar a comunidade em torno dos ensaios, que já acontecem no primeiro domingo de janeiro, e da arrecadação de fundos para os figurinos e cenografia. “Costumamos realizar uma série de eventos nos espaços culturais daqui do Morro [da Conceição], como bingos e shows, para ter um caixa bacana para nossas despesas, que não são poucas”, afirmou a costureira Adeilde Souza, mais conhecida como D. Tetei.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Dona Tetei comanda a confecção das roupas e acessórios das damas na quadrilha

Responsável pelo figurino da ala feminina da Junina Tradição, Dona Tetei – que é também mãe do presidente do grupo, Joselito Costa – transforma sua casa em um ateliê nesta época do ano, a fim de dar conta de todo o serviço que lhe é delegado. “Desculpe a bagunça, meu filho, mas não tenho tempo nem para dormir quando vai se aproximando o dia da nossa estreia. Sento-me na máquina às 8h30 da manhã e só vou dormir às 4h do dia seguinte. É uma rotina puxada, porém, é muito gratificante ver o nosso trabalho sendo exposto em vários cantos do Estado”, disse, cuidando dos últimos ajustes dos vestidos. Além dela, a JT conta com uma equipe de sete costureiras fixas, fora a colaboração das auxiliares e dos próprios quadrilheiros, que, vez por outra, ajudam no bordado das pedrarias. “Temos 112 integrantes – 56 damas e 56 cavaleiros. Por conta dos atos propostos no tema João: São João, Santo de Fé, Homem de Festa, pelo nosso projetista Anderson, tivemos que confeccionar neste ano 224 looks (um para cada ato). É trabalhoso, mas conseguimos cumprir com nossa missão”, disse Maria Lúcia, a Dona Nena, que capitaneia a confecção da ala masculina.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Dona Nena costura as roupas dos cavaleiros do grupo

Assim como na casa de D. Tetei, a residência de D. Nena fica tomada de tecidos, aviamentos e adereços nesse período que antecede o ciclo junino. “Ao contrário das agremiações carnavalescas, não reaproveitamos os nossos figurinos – costumamos vendê-los para quadrilhas de outros estados. Então, todos os anos começamos do zero: o estilista manda os croquis entre o final de março/início de abril, criamos o piloto e, quando aprovado, corremos contra o tempo para entregar tudo”, diz ela que já terminou o figurino dos cavaleiros e, para agilizar a entrega das roupas, está ajudando a finalizar os looks das damas, com o apoio da sua fiel escudeira Nidete Cristina. Juntas, as duas costuram há 11 anos para Junina Tradição, e, entre um botão e outro, ainda encontram fôlego para enfrentar a maratona de apresentações do grupo pelos arraiais de Pernambuco. “Assistimos a todas [as apresentações], que já começam sábado (13), com o festival da Globo, no Sesc Goiana. Somos da retaguarda. E sempre levamos linha e agulha na bolsa para qualquer eventualidade”, contou Nidete.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

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Nidete auxilia D. Nena na produção das roupas

Recém-chegado à JT, o designer e estudante de arquitetura Felipe Lopes, de 27 anos, foi convidado por Anderson Abreu para assinar o figurino e a cenografia do grupo em 2015.  Filho de costureira, o figurinista não esconde que ficou receoso com a proposta no começo. “Essa é a primeira vez que produzo o figurino de uma quadrilha. Nunca tinha vindo aqui no Morro, mas vou confessar: no primeiro ensaio que assisti, eu já me senti, de cara, parte da Junina. O contato e a colaboração dos quadrilheiros foram fundamentais à minha adaptação e, hoje, estou muito mais à vontade com todos eles”, disse.

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Costa Neto/Secult-PE/Fundarpe

Essa é a estreia de Felipe Lopes no universo das quadrilhas juninas

Como lida diretamente com as expectativas e, porque não, a identidade/auto-estima dos quadrilheiros – que vestem literalmente os figurinos da JT para vencer os festivais, Lopes ressaltou que seu trabalho, além da plasticidade e beleza, tem que ter funcionalidade. “Não adianta ter um corpo bem marcado, no caso das damas, se as meninas não conseguirem realizar os passos da coreografia. As cores, os tecidos, os acessórios precisam conversar entre si e devem ajudar os quadrilheiros a contar a história proposta no tema”, contou. Para um estreante, o figurinista já entendeu que a perenidade e a beleza da cultura popular residem, justamente, no empenho dos grupos em se manterem ativos/atuantes nos seus territórios, e que é o esforço coletivo da comunidade que a transforma verdadeiramente em campeã.

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