Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Notícias cultura.pe

Dedé Monteiro, o Papa da Poesia

Dedé já publicou quatro livros: Retalhos do Pajeú, em 1984; Mais um baú de retalhos, em 1995; Fim de feira, em 2006; e Meu quarto baú de rimas, de 2010

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Dedé Monteiro tem quatro livros publicados, um CD de declamações e tem suas poesias publicadas em várias compilações de escritores pernambucanos

Marcus Iglesias

A cultura da poesia de cordel é uma das marcas de Pernambuco, sobretudo na região do Sertão do Pajeú, terra do poeta José Rufino da Costa Neto, mais conhecido como Dedé Monteiro. Nascido no dia 13 de setembro de 1949, no sitio Barro Branco de Tabira, Dedé Monteiro é uma referência quando o assunto é a poesia pernambucana. Não é á toa que ele também leva consigo o apelido de ‘Papa da Poesia’, além de agora deter o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Dedé Monteiro começou a escrever versos ainda criança, influenciado pelo pai, Antonio Rufino da Costa, que cantava cordéis enquanto trabalhava na roça. “Ele gostava tanto de poesia que aprendeu a ler através da literatura de cordel e trazia da feira alguns pra gente ler também. Sabia vários de cabeça e trabalhava na roça cantando. Acho que essa musicalidade do cordel foi ficando na alma da gente. Eu sou o mais velho de vários irmãos, e todos nós, com exceção de um que foi morar na Bahia, viramos poetas”, comemora com orgulho.

Sua primeira poesia, aos 15 anos, foi feita numa gincana da escola que tinha a proposta de dar um presente para o Dia das Mães. “Eu estudava no ginásio e um dia a professora de português, Enaide Vidal Alencar, pediu que a gente fizesse um cartão pra levar pra nossas mães e sugeriu que fosse uma poesia. Mas nem eu nem ela ficamos com a prova, infelizmente”, lamenta o poeta.

No entanto a semente já estava plantada e a partir desse dia Dedé Monteiro não parou mais. Ao longo da carreira publicou quatro livros autorais, Retalhos do Pajeú, em 1984; Mais um baú de retalhos, em 1995; Fim de feira, em 2006; e Meu quarto baú de rimas, em 2010, pela editora Bagaço. “Nesta última publicação está o poema ‘As quatro velas’, premiado na Fliporto de 2010. Tenho também um CD de declamação intitulado Dedé Monteiro Voz e Amigos (2014), comemorando meus 50 anos de poesia”, comemora Dedé Monteiro, que teve também poemas seus publicados em vários outros livros, de autores como Jô Patriota, Nevinha Pires, Zé Marcolino, Lamartine Morais, Zé de Cazuza, Ivo Mascena, Manoel Filó, Joselito Nunes e Lindoaldo Vieira Campos Júnior. Uma produção vasta e bastante reconhecida.

Dedé Monteiro conta que não existe para ele uma fórmula certa para liberar suas poesias. “Prefiro a madrugada e final da noite, antes de dormir, pra criar. Me sinto melhor, acho que é a questão da calmaria. Mas cada um tem seu jeito. É normalmente um estalo, quem escreve tem sensibilidade. Às vezes você escreve, mas não colocou poesia no que escreveu. Faz um poema sem tocar em ninguém. Se não sensibilizar, é poema, mas não poesia. É uma boa definição, concorda? Poesia é uma coisa divina, estranha, mas divina. Não se pode dizer que fulano é poeta porque escreve versos. Poeta mesmo é quem faz poema com poesia, de forma poética, de forma sentimental. Eu tenho um poema que ele descreve a poesia, e eu digo num determinado trecho que “Explicar a poesia/ Ninguém consegue explicar./ Faz a tristeza morrer/ E o sonho ressuscitar.”

Uma das suas poesias mais conhecidas, Fim de Feira surgiu, por exemplo, a partir de um desafio de uma amiga, professora e poeta da região, chamada Maria do Carmo Viana. “Contadora de causos e brincalhona, ela me encontrou no meio da feira na quarta-feira e me disse, ‘ô Dedé, já escrevesse sobre tanta coisa e não escrevesse ainda sobre a feira?’. Me senti ali naquele momento desafiado. Foi quando surgiu o poema, no qual saio dizendo as coisas típicas das feiras daqui da região”.

Fim de Feira inspirou também o nome da banda Fim de Feira, cujo vocalista é o cantor Bruno Lins, amigo de Dedé Monteiro. “Ele já veio aqui e gravou comigo essa poesia pro DVD deles. Sobre o nome, foi o pai dele Joselito Nunes, escritor e meu amigo também, quem sugeriu o nome pra me homenagear. Uma curiosidade é que meu primeiro livro foi produzido na editora Rural, quando Joselito Nunes estava à frente dela, numa época que os livros eram impresso numas placas de chumbo”, relembra.

Essa relação com os poetas da região do Pajeú é antiga, e de muita cumplicidade e respeito mútuo. Quem inclusive inscreveu a candidatura de Dedé Monteiro como Patrimônio Vivo de Pernambuco foi a Associação dos Poetas e Prosadores de Tabira (APPTA). “Os meninos que fazem parte da APPTA estiveram no Recife no dia da minha titulação, no Palácio do Campo das Princesas. A minha convivência com esse pessoal é de amizade intensa. Tem alguns mais antigos que eu, como Dulce Lima e Albino Pereira, que a gente chama de Albino do bigodão. mas sou dos mais velhos. Esse pessoal tem uma história de muito tempo, recitando nas calçadas, nas ruas. Cada encontro que tem em Tabira tem poesia. Desde o nascimento de uma criança, nas festas de debutantes, casamentos e até velórios, tudo é motivo pra poesia”.

Em Tabira, inclusive, Dedé Monteiro tem se participado como apresentador dos encontros chamados Mesa de Glosas, na Escola Arnaldo Alves. “Glosar é fazer uma estrofe com base num mote. São encontros que dão muita gente, poetas da região inteira, e é tanta que mal cabem no auditório da escola. O interessante é que enquanto os poetas estão no microfone, a plateia não dá um pio, e quando eles terminam o povo entram em festa com os aplausos e comemorações”.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Jan Ribeiro/Secult-PE

Dedé Monteiro recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco das mãos do governador Paulo Câmara e do secretário de Cultura, Marcelino Granja

Sobre a titulação de Patrimônio Vivo de Pernambuco, o Papa da Poesia dedica com carinho o mérito ao Pajeú. “Foi um momento de muita alegria pessoal, mas também e principalmente pra região. E eu falo não só de Tabira, mas todas as outras cidades do Pajeú. Acho que o valor dele está mais nisso. Eu sei que nenhum poeta de outras regiões do sertão, como Araripe, Moxotó e São Francisco, foi contemplado ainda com esse título. Minha vontade é que eu seja o primeiro de uma série de outros e outras que possam receber essa homenagem. Melhor ainda é quando chega uma pessoa humilde, que não sabe bem o significado do título, mas vem me dar um abraço com o maior carinho do mundo. Eu me arrepio nessas horas, quando o pessoal mais humilde, vem me parabenizar”.

< voltar para home