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Esse é pra tocar no rádio?

Na última reportagem da série em homenagem ao Dia do Frevo, os altos e baixos que o gênero encontrou (e encontra) para se difundir

por Leonardo Vila Nova

Que o frevo é um ritmo popular, todo mundo já sabe. Mas em que medida o termo “popular” pode ser utilizado? Para ser popular é preciso tocar nas rádios? É preciso viralizar na internet? Fazer o folião enlouquecer durante quatro dias de festa basta para ser popular? Pois bem, o que parece ocorrer é que o frevo sempre teve seus altos e baixos no quesito divulgação/difusão, e que toda a explosão que ele irrompe durante quatro dias parece arrefecer durante os outros 361 do ano. Além disso, o frevo também parece não se sustentar nacionalmente como outro gênero tão popular, o samba, apesar de ser reverenciado por milhões e de ostentar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, desde 2012. Momentos de glória e de ocaso, desafio e novas alternativas para difundir o nosso mais autêntico ritmo é o mote na fala dos entrevistados nesta última matéria da série em homenagem ao Dia do Frevo.

Costa Neto/Secult-PE

Costa Neto/Secult-PE

A coletânea “Pernambuco Frevando para o mundo” chega à sua edição e é material farto em composições

O frevo nasceu nas ruas, no meio do povo, assim como o samba, como o funk. Esses têm espaço garantido o ano inteiro nas rádios e TVs, além de shows Brasil afora. O frevo, não. Na verdade, o frevo passou por momentos de grande prestígio, mas que foram eternos apenas enquanto duraram. Os dois principais auges – em termo de massificação e generoso espaço midiático – se deram quando do advento da Rozenblit e durante o projeto Asas da América, de Carlos Fernando. Em ambos, o frevo teve espaço robusto no mercado fonográfico e em execução nas rádios. Após isso, o cenário mudou um pouco e o frevo passou a contentar-se com sua sazonalidade. “Boa parte do que se ouvia nas rádios daqui era o frevo. Infelizmente, ele não tem mais o mesmo respaldo midiático que tinha antes. As rádios continuam sendo sazonais e o frevo continua encapsulado, preso no período carnavalesco”, atesta Silvério Pessoa.

Além das rádios, outro ambiente importante para popularização do frevo foram os festivais de música carnavalesca, a exemplo do Frevança e o do Recifrevo, que tiveram seu auge na década de 1980. Eram espaço para que o público se familiarizasse com as novas músicas que surgiam anualmente, e, por consequência, um estímulo para os compositores. “Esses festivais eram transmitidos pelas TVs daqui. A Rede Globo transmitiu (Frevança), a TV Jornal transmitiu (Recifrevo). E eram transmitidos ao vivo, depois da novela das oito, em horário nobre… Tinha plateia torcendo. Ou seja, era algo que ajudava a massificar o frevo”, lembra Fábio Cabral, da Passadisco. Posteriormente, o Festival de Músicas Carnavalescas, realizado pela Prefeitura do Recife – rebatizado, há cerca de dois anos, de “Frevo da Humanidade”, continuou acontecendo (com interrupções de dois anos não consecutivos), mas, mesmo assim, parece não mais contar com o interesse da mídia e dos veículos de comunicação para sua repercussão.

Então, além do espaço que há durante o período carnavalesco, como manter o frevo em evidência ao longo do ano? Do campo de vista da oferta de novos trabalhos, algumas iniciativas podem servir como alternativa para que o gênero ultrapasse fronteiras estabelecidas equivocadamente, uma vez que música boa não carece de época do ano para ser tocada. Fábio Cabral, da Passadisco, não se furtou em colaborar e, além da loja Passadisco, fez da marca uma chancela para lançar as coletâneas Pernambuco cantando para o mundo, Pernambuco forrozando para o mundo e, nessa mesma linha, Pernambuco frevando para o mundo, que, no ano passado, teve prensada sua segunda edição, que saiu com uma tiragem de mil cópias.

Um disco duplo, totalizando 36 faixas, que traz de nomes mais clássicos, como Alceu Valença, Antonio Nóbrega, Coral Edgard Moraes, Geraldo Azavedo, Elba Ramalho, Moraes Moreira, até gerações mais recentes, a exemplo de China, Siba, DJ Dolores, Mundo Livre S/A, Herbert Lucena, esses, artistas que, de certa forma, não têm ligação direta com o frevo, mas que, em um dado momento, flertaram com esse caminho musical, o que também é o caso de Genival Lacerda, Maria Alcina, Arlindo dos Oito Baixos, entre outros que estão lá. “Quando eu fiz essa coletânea, me preocupei em trazer também gente nova, que tivesse uma identificação com o público jovem. Pois é através do jovem que a música pode se renovar. São esses artistas que podem alcançar essa juventude. São poucos, na música contemporânea, que utilizam o frevo com freqüência. Imagina só se Lenine lançasse um frevo em seus discos, se a Nação Zumbi lançasse”, destaca Fábio, ao lembrar que boa parte das músicas desse repertório veio de discos não necessariamente voltados para o frevo. Ou seja, não são discos sazonais, e podem muito bem ser rodados em qualquer época do ano.

Na rede

Costa Neto/Secult-PE

Costa Neto/Secult-PE

César Michiles utiliza o facebook até para publicar partituras de frevo

Outra ferramenta que pode ser utilizada a favor é, sem dúvida, a internet. Conscientes do alcance que a rede tem, os artistas se utilizam dela para divulgar seus trabalhos, formar redes de contatos e difundir o frevo. O instrumentista, compositor, produtor e arranjador César Michiles deu o pontapé a uma iniciativa no seu facebook. Há cerca de três semanas, ele lançou o “Desafio do frevo de rua”, uma brincadeira em que ele escolhe o frevo de um compositor e desafia esse compositor a tocar um frevo dele e passar a brincadeira pra frente, desafiando outro. O alcance disso, segundo Michiles, tem sido grande, tendo receptividade até mesmo fora do país. “O mundo inteiro se comunica pele facebook. Então, nada mais natural que eu, querendo divulgar o meu trabalho e o frevo, também utilize a internet pra isso. Já recebi mensagens dos E.U.A., França, Portugal, de pessoas querendo conhecer melhor meu trabalho. Além disso, eu também tenho disponibilizado partituras das minhas músicas, incluindo os frevos, pra que gente do outro lado do mundo possa tocar. E há um interesse muito grande do público do exterior com relação ao frevo. E a internet tem ajudado nesse sentido, aproximado ainda mais esse público do que a gente faz aqui”, considera.

O guitarrista e produtor Luciano Magno também faz usufruto do alcance das redes para difundir sua música, carregada também de frevos. Seu novo disco, “Estrada do tempo” está à venda online. “Eu procurei priorizar o álbum digital, dei carga total na distribuição, em plataformas como iTunes Store, além das de streaming, como Spotify e Deezer. Ou seja, as pessoas baixam e ouvem muito mais coisas na rede, é natural que o caminho para divulgação desse trabalho seja pela internet”, explica. Mas, para ele, ainda há ressalvas, que exigem tempo. “É um novo caminho que a gente tá aprendendo a utilizar. Com a internet, você tem um alcance gigantesco de um determinado conteúdo, mas é muita coisa ao mesmo tempo em circulação, as coisas vão se diluindo no meio desse mar de informações. O interessante, agora, o próximo passo é saber como prender, como focar a atenção para conteúdos de forma mais profunda. Esse é o nosso dilema daqui pra frente”, conclui.

No passo marcado de ponta de pé e calcanhar, o frevo vira e se revira como pode: na TV, na rádio, na internet, mas o seu lugar mais adequado, sem dúvida, é nas ruas do Recife, ou subindo e descendo as ladeiras de Olinda, e no coração de todo o folião que não se cansa quando chega a Quarta-feira, e já vislumbra o Carnaval do ano seguinte, levando o frevo dentro de si pra onde quer que vá!

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