Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Notícias cultura.pe

“Frervendo” o caldo da renovação

Na segunda matéria da série em homenagem ao Dia do Frevo, os caminhos que o gênero encontrou para se renovar esteticamente

por Leonardo Vila Nova

O frevo nasceu um híbrido. Foi fruto de uma reconfiguração de linguagens que se encontraram nas ruas. Uma atualização resultante de um misto de dança e música, quando incorporou ao som das bandas militares os passos de capoeira, que, mesclados, deram origem ao que conhecemos hoje. Isso significa que esse gênero único no mundo já nasceu vocacionado para as metamorfoses e mutações que lhes seriam possíveis ao longo desses 108 anos. E, durante todo esse tempo, além de ir demarcando seu terreno dentro da música pernambucana, o frevo seguiu deixando seus códigos genéticos em aberto para que pudessem ser naturalmente reprocessados. E, assim, à revelia dos puristas de plantão, ganhou guitarras baianas, de rock, fraseados de jazz, bits de computador e uma infinidade de possibilidades de ser reinterpretado.

Divulgação

Divulgação

Carlos Fernando foi o nome à frente do projeto Asas da América, que modernizou o frevo na década de 1970

Do bairro de São José, nos velhos e saudosos carnavais, quando ainda era folião mirim, até passar pelos clubes e chegar aos palcos e trios elétricos, e se tornar centenário, o frevo traçou uma trilha de modernização que foi muito além da sua divisão clássica – frevo de rua, frevo canção e frevo de bloco. Primeiro, foi preciso se sedimentar, se afirmar. Para isso, contou com um panteão invejável: Nelson Ferreira, Antonio Maria, Levino Ferreira, Capiba, Louviral Oliveira, Luiz Bandeira, entre tantos outros responsáveis por clássico eternos. Com o respaldo da gravadora Rozenblit, o frevo se mostrou para o Brasil como classicamente o conhecemos. Esse movimento alcançou seu auge entre a segunda metade da década de 1950 até fim dos anos 1960.

A partir daí, já dono do pedaço, o frevo estava apto a se renovar, conquistar novos públicos, além dos salões dos clubes. E essa renovação veio quase uma década depois. Em 1979, entrava em cena o projeto Asas da América, capitaneado pelo compositor e produtor musical Carlos Fernando, que reuniu a nata da MPB para dar novo fôlego ao gênero. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Fagner, Zé Ramalho, Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro e uma infinidade de artistas (entre eles, alguns novatos, como Lenine e Lula Queiroga, por exemplo), emprestaram suas vozes aos seis volumes do projeto que modernizou a linguagem do frevo. “Aquele foi um momento em que o frevo estourou com uma força gigantesca. E isso porque era um frevo feito com uma linguagem jovem, pois Carlo Fernando era um jovem, andava com gente jovem, antenada. A partir daí, foi um ‘boom’ e até mesmo artistas que não tinham uma ligação com o frevo, passaram a gravar, pois viram naquela música um filão interessante a se explorar na indústria fonográfica”, constata Fábio Cabral, da Loja Passadisco. Ele tem, na sua coleção particular, todos os vinis originais da discografia do Asas da América.

“Asas da América”, canção da voz de Geraldo Azevedo, está no projeto

Tempos antes disso, o frevo, que tem sua raiz fincada em Pernambuco, não se furtou em ser alvo do flerte de outras paragens. Ganhou, por exemplo, sotaque baiano. Dodô e Osmar foram os responsáveis por isso. Modernizar o carnaval era a empreitada dos criadores da “fubica”, que viria a se tornar o famoso trio elétrico. A ousadia deles chegou no frevo, que, ao desembarcar em terras soteropolitanas, ganhou, para sua vestimenta, as tais “guitarras baianas”. Artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Moraes Moreira (que participariam do Asas da América), além da antiga banda deste último, os Novos Baianos, exploraram com competência essa vertente. Até mesmo um pernambucano, Robertinho do Recife, dessa linhagem de exímios guitarristas – a exemplo de Pepeu Gomes e Armandinho – também seguiu essa estética, inclusive, indo até mais além, com fartas doses de experimentalismo. “Não existe isso de frevo baiano. Frevo é frevo! O que acontece é que os baianos encontraram um jeito mais fácil pra eles de tocar o frevo. Os arranjos das orquestras daqui são mais complexos. Lá, eles descomplicaram um pouco. Mas é frevo também”, endossa Fábio Cabral.

Ouça “Frevo dos palhaços”, uma das músicas do disco “Robertinho no Passos”, de Robertinho do Recife e Hermeto Paschoal

Ao manguebeat
Na sequência, mais um hiato de experimentações e renovações. O fervor gerado pelo Asas da América havia arrefecido e, por mais uma vez, o frevo se resguardou em mais uma zona de conforto, conquistada pelo força estratosférica do projeto de Carlos Fernando. A música pernambucana, de um modo geral, havia perdido um pouco da ousadia. Nos anos de 1990, o novo som que despontava era o Manguebit, que revolveu todo o ecossistema da cidade estuário e toda a farta gama de elementos das tradições culturais para dar à luz um novo amálgama. Lá estavam rock, maracatu, hip hop, coco, soul music, embolada, dialogando. O frevo, no entanto, não fazia parte do cardápio do mangueboys. Isso suscita uma pergunta: se o frevo tivesse seu espaço garantido na proposta estética do Manguebit, ele hoje seria um ritmo com maior presença e influência na estética da música pernambucana jovem, com maior respaldo de mídia e de público?

Ricardo Moura/Secult-PE

Eric Gomes/Secult-PE

Silvério também incorporou novos elementos ao gênero, no álbum “Micróbio do Frevo”

Porém, mesmo não dialogando diretamente com o frevo, o Manguebit despertou nos músicos pernambucanos a vontade e a ousadia de explorar novos contextos e esferas musicais, tendo à mão elementos locais e universais, trabalhando essa alquimia possível e fecunda. Alguns artistas enxergaram, então, no frevo essa possibilidade. O mais ousado e assertivo nesse sentido foi o músico, cantor e compositor Silvério Pessoa, que trouxe ao mundo, em 2002, o projeto/CD Batidas Urbanas – Micróbio do Frevo. Uma compilação de canções carnavalescas de Jackson do Pandeiro, totalmente desconstruídas e recriadas a partir de novas linguagens musicais. Um trabalho arrojado, que fincou estacas como um dos trabalhos mais inovadores no gênero.

O frevo é um possibilitador de trocas, de diálogos e de hibridações, isso é fato”, enfatiza Silvério, que não compõe frevos, mas que os tem como fonte de inspiração musical. “Há uma ligação muito forte do frevo com a musicalidade pernambucana. E, como impulso no meu trabalho, o fruto inconteste disso é o Micróbio do Frevo, que foi um disco importante nessa minha trajetória”. Silvério encheu o disco de convidados que, cada um à sua maneira, contribuíram com o Micróbio do Frevo. Eddie, China, Pácua & Via Sat, Mônica Feijó, a própria Almira Castilho (companheira de Jackson), Re:Combo, SaGrama, foram alguns que participaram do álbum. O resultado, capitaneado por Silvério, é uma gama de sonoridades que trazem, em definitivo, o frevo para o ambiente das experimentações sonoras contemporâneas. “Foi um disco com essa perspectiva de reconfigurar o frevo a partir dessas outras possibilidades, utilizando filtros, sampler, efeitos, dialogando com gêneros musicais diversos”, explica Silvério.

O disco Batidas Urbanas – Micróbio do Frevo está disponível para venda no iTunes.

Outro nome que lançou mão do frevo a partir de novas possibilidades sonoras é a banda Eddie. Em meio ao reggae e ao rock, traços da tradição artística e cultural olindense marcam a música do grupo liderado pelo vocalista, guitarrista e compositor Fábio Trummer. Suas canções vêm impregnadas de Olinda, vestida num formato mais “descolado”. E em várias delas lá está o frevo, ganhando contornos diferenciados, que acabam aproximando o gênero das gerações atuais. “O frevo, de certa forma, voltou a ser uma musicalidade preciosa neste momento de globalização de massa, uma expressão musical que só existe nesse pedacinho de mundo e isso, pra gente, é visto como uma oportunidade de criar com uma identidade local e única, que é tão universal aos ouvidos atentos mundo afora”, considera Trummer.

Ricardo Moura/Secult-PE

Ricardo Moura/Secult-PE

O “Original Olinda Style” da banda Eddie também flerta com o frevo

Outro importante instigador de ainda mais hibridações no frevo é o Maestro Spok. O homenageado do Carnaval do Recife deste ano se consagrou como um dos mais importantes nomes da música pernambucana e brasileira, principalmente por inovar no frevo, incorporando e vestindo nele elementos e andamentos típicos do jazz. Tudo isso numa mistura fina, sem perder de vista a espinha dorsal rítmica, aquela que remexe o corpo inteiro do folião. Com isso, o frevo passou a fazer “carreira” além das fronteiras brasileiras, empreendendo turnês pela Europa e, mais recentemente, pelos E.U.A., onde cumpriu uma agenda exitosa de concertos. A última, no fim de 2014, passou por locais como Nova Iorque, Filadelfia e Pittsburgh.

Outras iniciativas também têm colocado o frevo mais próximo do universo pop, como é o da música da banda Ska Maria Pastora, que reprocessa o gênero através de elementos da música jamaicana; ou do disco Frevo do Mundo (2008), que reuniu diversos artistas da música contemporânea para cantar tanto os clássicos do carnaval pernambucano, como Quarta-feira ingrata (É de fazer chorar), na versão da banda Eddie, ou novas composições, como Metendo Antraz, da Mundo Livre S/A.; além de nomes como Isaar, DJ Dolores, João Donato, Edu Lobo, Orquestra Imperial, 3naMassa, entre outros. O disco ganhou versão repaginada, em show, apresentada no último fim de semana, com participação de Siba, Otto, Céu, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e direção musical de Pupillo (Nação Zumbi).

Conheça o disco “Frevo do Mundo”

Fechando a série de reportagens em homenagem do Dia do Frevo, o Cultura.PE lança a questão sobre como o gênero tem encontrado espaço para repercutir nos ouvidos e corações do público,  nos dias de hoje.

< voltar para home