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Não deixe o samba morrer

Como o samba de véio ainda sobrevive na pequena Ilha de Massangano

Por: Dora Amorim

Ricardo Moura

Edes tem 15 anos e, há um ano, passa o dia atravessando o Rio São Francisco. O jovem guiou a nossa travessia para a Ilha de Massangano, em Petrolina, em uma pequena embarcação, nas cores azul, amarelo e branco. A viagem custou apenas R$ 1. Antes de nos deixar (eu, o fotógrafo e o motorista), o menino avisou que só trabalhava até as 18h40. O relógio marcava naquele instante 18h, ainda estávamos chegando à ilha que guarda uma das maiores manifestações da cultura pernambucana: o samba de véio.

Na frente da igrejinha, decorada com luzes esquecidas do período natalino, um grupo protagonizava uma daquelas cenas na qual começam as histórias do passado. Os moradores estavam sentados, esperando o sol descer para dar a hora do jantar, falavam dos meninos e da novela – escutei até uma especulação sobre o “Big Brother Brasil”. As crianças, por sinal, corriam de um lado para o outro, numa cena difícil de encontrar nas cidades.

Foi assim que conheci Juninho, de apenas 2 anos. Ele perguntou se naquela noite haveria samba. Quando a resposta foi afirmativa, disse que queria dançar, logo depois pegou um tamborete de couro de boi, um dos instrumentos do samba também usado como banquinho, e começou a tocar com uma alegria e rapidez surpreendente para quem estava conhecendo aquele universo pela primeira vez.

Aos poucos, a frente da igreja começou a ser tomada por mulheres de saias floridas e blusas vermelhas, além de homens vestidos com um figurino semelhante. Embaixo da árvore, um grupo esquentava o tamborete em uma fogueira, esperando o início do samba – a afinação do instrumento foi feita desta forma, através do calor.

Durante o dia, aquelas pessoas trabalham na roça, na plantação de goiaba, banana, acerola. Antes, eram as hortaliças a fonte de sustento da ilha, mas uma praga denominada tiririca acabou com tudo. E eles tiveram que recomeçar e se reinventar, como sempre fizeram quando o assunto era o samba.

“Contam que há mais de cem anos o samba existe. Os moradores da ilha dançavam quando a colheita era boa para comemorar, do mês de dezembro até janeiro, eles sempre dançavam. Havia, inclusive, um ritual (mantido até hoje): os integrantes saíam de porta em porta, das casas da vila, cantando e pedindo licença para fazerem o samba. Eles só entravam nas casas se tivessem a permissão dos donos”, lembra Dona Raimunda Sol Posto, coordenadora da Associação do Samba de Véio.

TRADIÇÃO

Ninguém sabe ao certo quando o samba de véio surgiu. Comentam na região que a manifestação foi herdada dos índios, mas teve fortes influências da cultura negra. No entanto, sabe-se que ela foi preservada através das histórias e do olhar: os mais jovens viam os familiares dançando, cantando e reproduziam o samba. Foi assim que as canções se perpetuaram e a ilha conseguiu preservar uma das suas maiores riquezas. Dona Amélia, de 77 anos, é a mais antiga representante. Ela lembra com deboche do tempo quando ficava dormindo em casa, por obediência aos seus pais, que não deixavam ela e os mais novos participarem da festa.

“Nesse tempo, menino muito novo não andava pelo samba, o povo mais velho não deixava a gente ir. Lembro de ficar em casa dormindo, nessa época ainda não tinha nem luz. Fui crescendo e andando também, aí aprendi”, conta Dona Amélia. Comenta-se na ilha que, nesta época, as crianças eram proibidas de frequentarem o samba, porque os mais velhos só brincavam bebendo cachaça. Aliás, uma das integrantes dança com uma garrafa de aguardente na cabeça, se equilibrando no meio da roda e interagindo com os demais. Hoje, foi criado o samba de véio mirim, com intenção de reunir jovens entre 4 e 14 anos para procurar conservar a tradição.

Dona Amélia é um dos nomes mais significativos do samba, ao lado de Peba, João Malaveia, Chiquinha e Félix. Ela faz parte do grupo dos mais velhos, criadores de muitas das músicas cantadas até hoje. “Minha mãe, meus tios não deixaram o samba acabar na época deles. A gente também não deixou”, diz. A integrante da manifestação, inclusive, gravou um álbum com as canções do grupo intitulado “Dona Amélia do samba de véio”, de 2008. “É a mesma coisa cantar aqui ou no estúdio, não tem diferença. Não sei por que me chamaram pra fazer essas coisas”, afirma sorrindo. “Sou muito brincalhona, deve ser por isso”, reflete.

Creuza Nogueira, de 62 anos, está no samba desde os 7. Afilhada de Dona Amélia, ela é conhecida na ilha como Peba e se lembra bem da tradição intitulada “Reis de Rancharia”. No dia 1º de janeiro, um dos moradores da ilha se oferecia para receber o samba na sua casa. Eles matavam bode, porco e amanheciam o dia comendo, bebendo e dançando. Hoje em dia, a festa é realizada no dia 6 de janeiro na casa de Dona Raimunda, que recebe muitas pessoas de fora da ilha.

Dona Raimunda, inclusive, é uma das responsáveis pela divulgação desta manifestação cultural. Quando chegou à ilha pela primeira vez, levada pelo marido há 30 anos, conheceu o universo do samba: rico, diverso, forte, impactante. E se apaixonou. Decidiu que deveria mostrar aquilo para o resto do mundo. Sendo assim, em 2000, conseguiu reunir a equipe da TV Petrolina e fazer uma matéria com os moradores da ilha.

Depois, o grupo foi convidado a participar da Festa da Lavadeira, na Praia do Paiva, e em uma das vindas ao Recife, se apresentou na casa de Ariano Suassuna. Encantado com as danças e a música, o escritor tornou-se uma espécie de padrinho, ajudando, inclusive, na gravação dos álbuns “Samba de véio da Ilha de Massangano”, de 2004, e o de Dona Amélia.

DANÇA

“É muito fácil dançar, a demora é só colocar o pé no chão”, brincou Dona Amélia antes de se posicionar para começar o samba. Todos os integrantes se juntam em uma roda. Um tamborete, um cavaquinho e um pandeiro são os responsáveis pela sonoridade. A zoada das palmas se mistura ao som emitido pelos instrumentos e todos começam a dançar e a cantar em coro. Quem abriu a roda foi Maria Clara, de 6 anos, uma das mais novas e entusiasmadas.

Só vai para o meio da roda quem for chamado por um dos integrantes. A sonoridade e a própria dança lembram o coco de roda, também típico de Pernambuco. O samba de véio é ritmado, cheio de energia, impactante, uma das danças mais passionais que já presenciei. Só o coro sincronizado contagia quem está vendo de fora. Os pés descalços, batendo forte no chão, também são responsáveis pela sonoridade intensa e pelo gingado da dança. Em êxtase, eles cantam:

“Se tivesse dinheiro também ia/

Na bacia de ouro de Iaiá/

Bate palma/

Bate palma”

Na dança da despedida, a roda se desfez. Todos começaram a dançar junto. Ao longe, Félix Manoel Ubaldo, de 65 anos, chamava a atenção pelos passos ritmados e cheios de vontade. Natural de Itacurubá, Félix se apaixonou pelo samba numa noite de “Reis de Rancharia”, há 38 anos. “‘Vou entrar nisso’, pensei quando vi o samba pela primeira vez. Foi difícil, pois onde eu morava não existia nada parecido com isso, mas consegui”, diz saudoso, enquanto estava sentado na frente da igreja.

Félix é casado ainda hoje com Chiquinha, desde pequena integrante do samba. “Dos três filhos, nenhum deu pra dança”, completa sem mágoas. Depois de falar da família, ele perguntou, tímido, se gostei da apresentação. Respondi que sim, é claro. Feliz, me pediu obrigado, como se estivesse estranhando aquela atenção dos que são de fora.

Ao fim, como era de se esperar, Edes não estava mais fazendo a travessia. Tive que ir embora numa embarcação de um dos moradores, Seu Chagas. Dona Peba pegou uma carona, ia para o outro lado encontrar uns amigos. De longe, as luzes da igreja ainda chamavam a atenção e o céu estrelado do Sertão brilhava para a ilha, aprovando a beleza do samba de véio!

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