Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Notícias cultura.pe

O doce desafio de levar Outras Palavras, cultura e arte, ao ambiente escolar

Na última terça-feira (12) a Escola Profª Elvira Viana, em Garanhuns, recebeu uma edição do projeto com a participação do escritor Amâncio Siqueira e da cantora Kiara Ribeiro

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Vencedor no V Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos ‘Nem tudo cabe na paisagem’, o escritor Amâncio Siqueira foi um dos convidados dessa edição

Por Marcus Iglesias

Pra quem gosta de falar sobre cultura e arte, por mais tímida que essa pessoa seja (como é o meu caso), parece até simples a missão de mediar um debate entre estudantes de uma escola pública de Garanhuns, e dois artistas que têm uma forte conexão com a Terra da Garoa pernambucana: A cantora Kiara Ribeiro, que segue em divulgação do seu CD Disco Velho; e um dos premiados no V Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos Nem tudo cabe na paisagem, o escritor Amâncio Siqueira – que apesar de ter nascido em Afogados da Ingazeira, mora na cidade do nosso maior Festival de Inverno (FIG) e a tem como um dos seus lares.

Mas quando você se vê diante dos olhos curiosos – e também tímidos – daquela garotada, uma doce responsabilidade cai sobre o colo de quem está ali na frente, como um aviso que serve pra lembrar que com educação não se brinca – por mais divertida que a proposta seja.

Cerca de cinquenta alunas e alunos da Escola de Referência em Ensino Médio Professora Elvira Viana participaram desse debate, mais uma edição do Outras Palavras, neste caso realizada na última terça-feira (12) em Garanhuns, véspera de Santo Antônio, o padroeiro da cidade. O projeto da Secult-PE e Fundarpe já percorreu mais de 500 escolas, levando escritores e escritoras, mestres e mestras da cultura popular, e dezenas de artistas que fazem parte da atual cena cultural pernambucana. Sem falar na revolução social que isso representa, é uma iniciativa que forma público, que o informa, e que faz circular a atual produção artística do estado pelas escolas.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Vou começar aqui a conversa com os artistas, mas eu preciso que vocês entrem no papo também e se libertem da timidez pra fazer suas perguntas, até porque preciso da ajuda de todo mundo pra fazer minha matéria sobre esse encontro”, brinquei na ocasião

Como jornalista que acompanha o Outras Palavras, já escrevi dezenas de matérias sobre o assunto, mas nunca estive no papel de mediador do debate. Antes apenas observava o cenário para depois narrar por escrito a história que vi. Ali, na mediação, no entanto, tive uma perspectiva bem diferente e deixo aqui o reconhecimento a quem cumpre esse papel. É desafiador sentir a curiosidade de um público jovem e criar meios para que eles interajam com a ação – que só fará real sentido com esta dinâmica. “Vou começar aqui a conversa com os artistas, mas eu preciso que vocês entrem no papo também e se libertem da timidez pra fazer suas perguntas, até porque preciso da ajuda de todo mundo pra fazer minha matéria sobre esse encontro”, brinquei, tentando quebrar o gelo. Acho que consegui.

A diretora da Gerência Regional de Educação, Adelma Elias, fez uma fala legal neste sentido, do papel da educação e da proposta de aula que estava ali sendo apresentada. “O que a gente vai vivenciar aqui hoje é fruto de uma articulação entre duas secretarias do estado, a de Cultura e a de Educação. Precisamos refletir que a educação é uma tarefa que precisa ser feita com várias mãos. A escola tem esse papel formalmente, mas ela não é possível sem parcerias como essa, que partem pelo viés das artes. Outras Palavras, seja na literatura ou na música, mas que elas venham para dentro do ambiente escolar”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Precisamos refletir que a educação é uma tarefa que precisa ser feita com várias mãos. A escola tem esse papel formalmente, mas ela não é possível sem parcerias como essa, que partem pelo viés das artes”, refletiu a diretora Adelma Elias

Quando fomos, eu e o Amâncio, convidados a compor a mesa, eu já sabia que teria ali uma conversa muito gostosa sobre literatura. Li Nem tudo cabe na paisagem e fiquei bastante encantado com aqueles contos e aquelas palavras construídas pelo autor. Alguns em especial, como Bastardo (que narra a vingança de um índio que teve seu pai assassinado por um homem branco) e Atirei no que vi, acertei no que não vi (mais tarde confessado pelo próprio autor, sob os olhares de sua mãe que assistia emocionada a participação do filho, como uma espécie de confissão que desejaria ter feito ao pai, falecido em 2014). Além disso, por coincidência, descobri nas pesquisas que fiz que nascemos eu e ele no mesmo dia, 13 de janeiro. Eu estava à vontade, mas queria levar mesmo essa sensação era para o público de jovens.

Amâncio também queria isso. Era sua primeira vez no Outras Palavras (assim como a minha primeira como mediador), e com seu tom professoral e didático falou de como foi simples o surgimento da paixão pela literatura na sua vida. Espontaneamente, ele diria. “Eu gostava muito de ler gibis e tive dentro de casa uma mãe que me estimulava bastante a ler livros, sempre tinha uma sugestão de algo pra mim. E lembro que tinha um amigo que era assinante da Revista Superinteressante. Na época, eu não tinha nenhum projeto literário, mas já gostava de pesquisar sobre as coisas que eu gostava. A palavra sempre foi fascinante pra mim”.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Estudantes e autor puderam conversar sobre vários assuntos, como o mercado editorial brasileiro, o processo criativo de uma escritor e os projetos futuros de Amâncio

Nem tudo cabe na paisagem é o segundo livro lançado por Amâncio (que estreou na literatura com o romance Quebra-Cabeça – 2015), e que foi lançado graças ao V Prêmio Pernambuco de Literatura. Sobre ele, Amâncio reforçou que “esse Prêmio é importante por várias razões. Uma delas é porque ele passa pela avaliação de duas comissões, primeiro por região e depois dentro das categorias. Há também o pagamento de um valor em dinheiro, o que ajuda o escritor a se sentir profissional. E há uma organização que não é comum dentro do mercado editorial brasileiro, com o envolvimento de várias outras pessoas que fortalecem o trabalho final”.

“O título do livro, por exemplo, surgiu a partir de uma ideia do meu colega Carlos Caldas, que percebeu que há nos contos, com muita força, a presença de paisagens. Cada viagem, na verdade, traz uma revelação pros personagens em questão”, detalhou o autor para os estudantes. Num dos contos que citei, o Atirei no que vi, acertei no que não vi, há um trecho que diz: “Tem um livro de Saramago que ele começa dizendo que a única coisa que não tem fim é a paisagem. Quem viaja sabe que é verdade. A viagem acaba, a vida acaba, e a paisagem ali, desafiando.”. 

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

‘Nem tudo cabe na paisagem’ é o segundo livro lançado por Amâncio (que estrou na literatura com o romance Quebra-Cabeça – 2015)

Nesse ponto da conversa, o papo entre ele e os estudantes já havia se estendido sobre vários assuntos, como o mercado editorial brasileiro, o seu processo criativo e projetos futuros. Mas questionado por um aluno sobre que conselho ele poderia dar a alguém daquele auditório que tivesse um sonho com a arte, Amâncio respondeu com firmeza: “O conselho é que a vida é curta e os sonhos não acontecem sozinhos. Não vai descer um anjo dos céus pra realizá-los. O ser humano ele é feito de vontade, de desejo, de projetos, então toda vez que você realiza um, aquele deixa de ter aquela importância e você projeta um novo. Eu busco agora conquistar algum prêmio nacional, quero ser o melhor dos melhores. Não me contento em ser considerado um bom escritor. Quero ser o melhor que puder”, explicou.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE


“A inexistência é a regra básica do universo. Eu inexisti durante 15 bilhões de anos, existirei por no máximo cem e inexistirei por mais muito tempo. Então não percam tempo e corram atrás do que vocês gostam de fazer”, sugeriu o escritor

“A inexistência é a regra básica do universo. Eu inexisti durante 15 bilhões de anos, existirei por no máximo cem e inexistirei por mais muito tempo. Então não percam tempo e corram atrás do que vocês gostam de fazer. Escrever é como respirar. Eu posso prender a respiração durante algum tempo, mas terei que voltar a fazê-lo para me sentir vivo. A escrita é uma necessidade, e se eu não exercitasse isso eu não me sentiria um ser humano completo”, refletiu na sequência.

Em seguida foi a vez da cantoria Kiara Ribeiro conversar com os adolescentes, recebida com muitos aplausos. Talvez Kiara não lembrasse – e eu nem comentei – mas cheguei a entrevistá-la algumas vezes durante o Festival de Inverno de Garanhuns, então de certa forma também já me sentia à vontade com a artista. “Eu acho que esse encontro vai frutificar e vai eternizar, e é isso que importa. Passar e fazer valer. Estar aqui hoje é mais do que uma realização profissional, é pessoal mesmo”, disse ela.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

““Desde criança eu vislumbrei o palco como um espaço de realização plena e transformação. Eu não sabia se eu queria dançar, cantar, o que eu queria era o palco. Queria ser artista”, disse Kiara Ribeiro

“Desde criança eu vislumbrei o palco como um espaço de realização plena e transformação. Eu não sabia se eu queria dançar, cantar, o que eu queria era o palco. Queria ser artista. Mas também estudei, tenho formação acadêmica, e deixo esse conselho a vocês. Que independente do que você deseje, o estudo é sua maior segurança e o maior investimento que você pode fazer”, aconselhou a cantora, que atualmente tem divulgado o seu novo trabalho autoral chamado Disco Velho, uma homenagem ao samba brasileiro.

“Há sete anos eu coloquei o samba dentro do meu repertório por intuição. Eu nunca tinha cantado esse gênero. E aconteceu que o samba engoliu o show de uma maneira que se tornou uma constante. Ali é minha casa e onde me realizo. E não achem que o samba só existe no Rio de Janeiro. Ele tem forte força lá, mas o samba é de raiz negra, e existe em vários estados, como aqui em Pernambuco. Mas sem dúvidas minha maior referência é a cantora Clara Nunes.”

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Foram também várias perguntas direcionadas a Kiara, sobre como é estar em turnê, o apoio dos fãs e parcerias que deseja fazer na vida artística

Na hora que Kiara falou isso, alguma estudante perguntou em voz alta pra si mesma “Quem é Clara Nunes?”. Ao ouvir a pergunta, um professor provocou a cantora a explicar ao público quem é a tão famosa cantora – aparentemente não tão famosa nas novas gerações. Mas ao cantar a música Iansã, houve uma identificação por parte de boa parte daqueles jovens, como se a música estivesse numa espécie de memória celular. “Ah, então quer dizer que essa música é de Clara Nunes? Que legal”, conversou consigo a mesma estudante, com aquele olhar de quem percebeu alguma coisa no ar.

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Rodrigo Ramos/Secult-PE

Kiara se surpreendeu quando uma das alunas pediu para cantar com microfone uma música de Dominguinhos ao seu lado

Foram também várias perguntas direcionadas a Kiara, sobre como é estar em turnê, o apoio dos fãs e parcerias que deseja fazer na vida artística (“Cantar com Roberta Sá, sem dúvidas, seria um grande sonho”, disse ela na ocasião). Para finalizar sua apresentação, a cantora fez uma homenagem ao seu grande incentivador musical, o mestre Dominguinhos, e pediu a ajuda do público pra fechar com chave de ouro. “Vamos todo mundo ficar de pé e cantar comigo?”, convocou a cantora, para depois se surpreender quando uma das alunas, corajosa e determinada, pediu para cantar com microfone ao lado dela. “Eu só quero um amor, que acabe o meu sofrer, um xodó pra mim, do meu jeito assim, que alegre o meu viver” foi um refrão que ecoou naquele auditório, com vários sorrisos nos rostos, e provou que quando a arte se aproxima da educação, coisas incríveis podem acontecer. Eu, pessoalmente, só tenho a agradecer pelo convite e pela experiência de ter mediado um encontro tão sincero e bonito.

< voltar para home