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Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo, um história de pólvora e luta

Grupo mais articulado do gênero no mundo, a SOBAC recebeu em 2017 o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco

Por Marcus Iglesias

Fundada no dia 1º de maio de 1966, no Dia do Trabalhador, pelo torneiro mecânico Zé da Banha, a Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo de Santo Agostinho (SOBAC) é o primeiro grupo de bacamarteiros operários do estado. Mas a história dessa manifestação, cheia de pólvora e luta no sentido mais verbal da palavra, vem de décadas atrás – sem falar na articulação intensa com os mais de 100 grupos e os cerca de cinco mil bacamarteiros no estado. Hoje, considerado o grupo mais articulado do gênero no mundo, a SOBAC também é Patrimônio Vivo de Pernambuco, título conquistado em 2017.

Inicialmente, a expressão era formada por pessoas do campo que saíam do agreste e sertão em busca de novas oportunidades de trabalho, sob a liderança de Zé da Banha, que criou a primeira associação do gênero com perfil jurídico, articulando-se com o legislativo e com o Exército Brasileiro para criar uma cobertura legal da prática cultural.

Jan Ribeiro/Secult-PE

“O primeiro líder da gente foi um torneiro mecânico e ele quem criou os primeiros bacamartes de aço, com bomba reforçada. É uma raiz muito forte que temos por causa de Zé da Banha, que foi um cara que redesenhou o folguedo”, explica Ivan Marinho, atualmente presidente e líder da SOBAC. Outros feitos de Zé da Banha, conta Ivan, foi criar um grupo de primeiros socorros, o primeiro regimento interno e o primeiro batalhão feminino. “Sua trajetória com o bacamarte também contou com seu empenho em difundir o folguedo na capital pernambucana, se apresentando em diversos locais do estado, além de criar uma escola para os filhos de bacamarteiros”.

Após a morte de sua liderança, a SOBAC passa por um momento obsoleto, até a chegada da liderança do professor Ivan Marinho de Barros Filho, no começo do século 21. A partir daí, a Sociedade passa novamente a traçar uma trajetória agregadora, orientando vários grupos para a regulamentação junto ao Exército Brasileiro. A internet serviu internsamente como um ponto de comunicação entre os bacamarteiros, como o Blog do Museu Olímpio, do Bacamarte em Pernambuco, da Federação, um canal no YouTube, e uma página no Facebook.

Jan Ribeiro/Secult-PE

“Não só Pernambuco, a gente tem orientado o Brasil inteiro, porque na verdade existem outras manifestações que não se chamam de bacamarte, mas que se assemelham muito com a gente. Por exemplo, tem um grupo no Rio Grande do Sul que nem sabia que precisava da regulamentação, porque é um grupo de fazendeiros e a polícia não mexe. E a partir de uma articulação com um deputado estadual de lá, nós repassamos as informações para que eles se regularizassem”, conta Ivan Marinho.

A SOBAC, pela segunda gestão consecutiva, preside a Federação dos Bacamarteiros de Pernambuco (FEBAPE), e a partir dela orienta outros grupos sobre a questão da regulamentação, do impedimento legal do uso da arma de fogo por conta do Estatuto do Desarmamento e do Sistema Nacional de Armas. “Creio que na criação da primeira ITA, uma Instituição Técnico Administrativa sobre o assunto, teve a participação especial do Cabo de Santo Agostinho, porque foi o Zé da Banha quem se preocupou com isso, em criar a primeira pessoa jurídica, que até então não existia. E possivelmente ele discutiu também com o exército pra ver se arrumava esse guarda-chuva legal”, opina o presidente da SOBAC.

Jan Ribeiro/Secult-PE

De acordo com ele, recentemente a Sociedade ofereceu uma assessoria para a 7ª Região Militar para criar uma nova ITA adequada aos tempos de hoje. “Este documento está tramitando no Ministério da Defesa e provavelmente nos próximos dias será assinada”, comemora. A justificativa para essa orientação, além da tradição, é a manutenção dos grupos. “É um folguedo muito caro. Até pouco tempo atrás a gente usava um uniforme feito de zuarte, que cada metro custa, pelo menos, 30 reais. Vestir um batalhão inteiro é uma fortuna. Fora as documentações que a gente precisa tirar pra poder rodar com os armamentos. Um tiro que a gente dá custa 10 reais, então se você der 50 deles, gasta R$ 500. E as pessoas precisavam desenvolver essa agilidade pra poder manter essa tradição”, disse Ivan.

Jan Ribeiro/Secult-PE

A SOBAC tem também, hoje, uma sólida participação no seio social, graças à ação conjunta com a Igreja Católica, dentro de onde foram fundados os grupos – que praticam mensalmente, na histórica igreja de Santo Amaro, o Terço dos Bacamarteiros, além de acompanharem as várias procissões na cidade. “Na minha busca, percebi que todas essas manifestações da cultura popular possuem um laço religioso que dá sustentação, o amalgamar das relações em tempo de fragmentação da cultura. E fui buscar na história do bacamarte uma relação fortíssima que tem o folguedo com a Igreja Católica”. 

Jan Ribeiro/Secult-PE

Na opinião de Ivan Marinho, a região da Mata Sul e Litoral Sul de Pernambuco tem uma ligação muito forte com a cultura alagoana. “O tratamento que se davam aos escravos aqui sempre foi pior do que o dado na Mata Norte, e acabamos herdando uma cultura ibérica de forma muito forte. E como tudo da cultura ibérica que veio pra cá, veio junto a Igreja Católica. Aqui, além da reaproximação que trabalhamos, há uma participação ativa nas atividades da igreja, mantendo o conceito espiritual do próprio folguedo”.

Neste sentido são realizadas a Missa do Bacamarteiro, a Procissão dos Santos Juninos, e mensalmente o Terço do Bacamarteiro, na Igreja de Santo Amaro, onde depois da missa acontece a reunião ordinária do grupo. “Isso faz com que haja uma cumplicidade maior entre os brincantes, e ajudou muito no processo de criação de um sentimento de família”, reflete Ivan.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Das diversas oficinas oferecidas pelo Bacamarte Tiro da Paz, duas tornaram-se permanentes: a de pífanos e a que leva o nome do Ponto (Tiro da Paz). A primeira resultando na criação do grupo Pifados da Abelha, que já atua no cenário municipal, e acontece toda terça-feira, às 19h, na sede da SOBAC. Já as oficinas de tiro são realizadas uma vez por mês, no último domingo do mês, das 8h às 17h.

Outra atividade permanente é a que acontece no Museu Olímpio Bonald de Bacamarte, o único do gênero no mundo, voltada para a educação patrimonial. “Ele é um museu comunitário, que conta com a participação dos bacarmateiros no seu funcionamento. Hoje em dia, a gente abre o espaço diante de agendamentos, na maioria do caso são feitos por escolas. Contamos com um acervo iconográfico inumerável, com uma quantidade grande de objetos, tanto que nem cabem nas paredes. Mas a gente organiza exposições e mostras temáticas, a gente tem um acervo permanente que ganhamos de Olívio Bonald Neto, da Academia Pernambucana de Letras, um pesquisador de bacamartes no mundo”, detalha Ivan. Segundo ele, as fotos remontam a década de 40 e 50, e só existem na SOBAC. O museu conta ainda com outros objetos, como pilão antigo de sucupira, que faz a pólvora, e muitos armamentos modernos, marca do bacamartismo cabense.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Além disso, a SOBAC realiza o mais completo encontro de bacamarteiros, o Encontro Zé da Banha de Bacamarte que, de acordo com Ivan Marinho, reúne mais de 500 bacamarteiros que participam da Procissão dos Santos Joaninos, da Missa dos bacamarteiros, ambos acompanhados por pífanos, sanfona e o Coral Boca de Bacamarte. “No encontro Zé da Banha se faz o cortejo dos grupos, a maior linha de tiro de bacamarte e a entrega da Comanda do Mérito Bacamarteiro a mestres e apologistas”.

Em 2017, a Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo de Santo Agostinho (SOBAC) recebeu também uma menção honrosa no Prêmio Ayrton Almeida de Carvalho, da SecultPE/Fundarpe pela preservação da memória cultural no estado – destacadas, por exemplo, nas cinco versões do Encontro Zé da Banha de Bacamarte, o maior do gênero no Brasil.

Jan Ribeiro/Secult-PE

Para a SOBAC, este reconhecimento é muito significativo pelo que vem sendo feito na preservação deste folguedo pernambucano. “Mas isso não aconteceria se não houvesse existido o Zé da Banha fazendo a mesma coisa na década de 60, quando eu nasci. Não o conheci, mas quando soube da história foi como se ele estivesse diante de mim. Mas não quero competir com seu talento, porque ele tocava pífano, bandolim, foi um dos melhores torneiros mecânicos que se tem notícia, e que tinha uma sobriedade e capacidade de administração fora do comum, além, claro, da autoridade”, conclui Ivan Marinho.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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