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Território da ancestralidade africana, Nação Xambá é patrimônio vivo de Pernambuco

Conheça mais sobre o único terreiro de nação Xambá na América Latina, e o primeiro quilombo urbano do Brasil, localizado em Olinda

Por Marcus Iglesias

“Toda história misteriosa é envolvente. Quanto mais segredos ela tem mais ficamos curiosos e persistentes na busca de informações e respostas aos nossos questionamentos. A história da nação Xambá e do terreiro da Mãe Biu no Portão do Gelo, subúrbio de Olinda, ainda desconhecida da maioria do povo pernambucano, é assim: toda cheia de mistérios”. Assim começa a introdução do livro Nação Xambá, do terreiro aos palcos, da pesquisadora e jornalista Marileide Alves. Uma definição perfeita para descrever o misticismo e envolvimento a girar em torno do único terreiro de nação Xambá na América Latina, o primeiro quilombo urbano do Brasil que, sob a liderança do Pai Ivo (filho de Mãe Biu), conquistou este ano o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

Nação Xambá recebendo o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco

Para Pai Ivo, existe um significado nas entrelinhas por trás deste título, o primeiro concedido a uma casa de candomblé de Pernambuco. “Curiosamente, completamos 80 anos do fechamento dos terreiros em Pernambuco, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. Esse título de Patrimônio Vivo de Pernambuco nós já perseguimos ele há dez anos, não só pela questão econômica, mas pela questão política. Num momento em que vários terreiros estão sendo invadidos por outras religiões, é uma maneira do Estado reconhecer a religião de matriz africana. Para nós, que fazemos o terreiro Xambá – e isso é extensivo para as outras nações também -, é o Estado reconhecendo o trabalho cultural e religioso do candomblé em Pernambuco”.

História da Nação Xambá em Pernambuco – Essa memória viva tem origem na região localizada ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, nos montes Adamaua, no vale do rio Benué. É lá que diversos historiadores identificaram a origem do povo Xambá ou Tchambá, que foram trazidos como escravos para o Brasil durante séculos.

No início da década de 1920, o babalorixá Artur Rosendo Pereira, fugindo da repressão policial às casas de culto Afro-brasileiro, deixa Maceió e passa a morar no Recife. Na capital de Pernambuco, no bairro de Água Fria, por volta de 1923, reinicia suas atividades de zelador dos orixás. Na época, o babalorixá iniciou muitos filhos de santo e vários deles abriram terreiros posteriormente. Dentre eles, estava Maria das Dores da Silva, conhecida como Maria Oyá, que fez sua iniciação em 1927 e, posteriormente, assumiu o terreiro.

Elimar Pereira/CulturaPE

Elimar Caranguejo/CulturaPE

Pai Ivo narrou a trajetória e apresentou itens do acervo histórico do terreiro

Uma violenta repressão policial fecha a Casa de Xambá em 1938, que manteve o culto religioso a portas fechadas. Em 1939, Maria Oyá falece em decorrência de depressão e o terreiro segue com as práticas às escondidas até 16 de junho de 1950, quando Mãe Biu reabre seu terreiro na estrada do Cumbe. Um ano depois, em 7 de abril de 1951, muda-se para o atual endereço, na antiga Rua Albino Neves de Andrade, hoje Severina Paraíso da Silva, nº 65, no Portão do Gelo, Olinda.

Após 54 anos dirigindo e mantendo as tradições e rituais da Nação Xambá, Mãe Biu falece aos 78 anos, no dia 27 de janeiro de 1993. Donatila Paraíso do Nascimento, Mãe Tila, iniciada em 1932 por Artur Rosendo, sucede a irmã como Yalorixá, tendo como babalorixá seu sobrinho (filho de Mãe Biu), Pai Ivo. Em 2003, Mãe Tila falece, e Pai Ivo assume a direção da casa.

Memorial Severina Paraíso da Silva (Mãe Biu) – O primeiro ato do Xambá após a morte de Mãe Biu foi a criação deste espaço voltado para a difusão do conhecimento, iniciando uma intensa organização do acervo histórico e documental da casa.

Nós fizemos aqui uma revolução. Quando assumimos, com o falecimento da minha Mãe (Biu), o Xambá praticamente não existia mais. Alguns historiadores chegaram a dizer que ele estava extinto. Então, o primeiro trabalho que nós fizemos foi optar pelo caminho da comunicação. Começamos a abrir as portas para as universidades, escolas, professores, alunos, e daí fomos atraindo todo tipo de sociólogo e historiador pra cá. Com isso, fizemos o Memorial (Severina Paraíso da Silva – Mãe Biu). A ideia foi minha, mas Antônio Albino, Hildo Leal e João Monteiro (seus filhos de santo) foram quem organizaram tudo”.

Elimar Pereira/CulturaPE

Elimar Caranguejo/CulturaPE

Mãe Biu é figura presente no cotidiano da Nação

No conjunto documental do Memorial, o mais importante é o acervo fotográfico com mais de 800 fotografias, quase todas da coleção particular de Mãe Biu. São registros de festividades religiosas, comemorações e fatos da vida familiar – registros datados dos anos 30 aos 90. Documentos pessoais da yalorixá e do terreiro (atas, registros de filiados, de yaôs, de obrigações religiosas, de nomes de Orixás), além de artigos de jornais, revistas e impressos diversos, complementam o acervo.

Há também um acervo bibliográfico, composto de publicações referentes ao universo cultural afro-brasileiro, especialmente sobre religião, história e artes. Quem quiser visitar o local precisa fazer um agendamento prévio pelo telefone (81) 3499 2021, ou enviar um e-mail para terreiroxamba@gmail.com.

Pai Ivo reflete sobre como entende o empenho de sua mãe em não ter deixado a cultura do Xambá se perder. “Eu não me formei na Universidade, mas ela, na minha visão, é coletora de conhecimento. O conhecimento está na periferia, no povo, e minha mãe foi uma autodidata. Maria Oyá teve pouco tempo de sobrevivência, porque o terreiro começou em 1932 e em 38 veio o fechamento deles com a Ditadura Vargas, através dos mandos de Dom Sebastião Lemos. Em 1939, Maria Oyá morreu de desgosto e minha mãe, junto às minhas tias, fez a grande resistência, tudo às escondidas, porque ainda era algo proibido. Quando veio a década de 50, ela abriu as portas”.

Elimar Caranguejo/CulturaPE

Elimar Caranguejo/CulturaPE

Pai Ivo relembra a todo instante o legado de Mãe Biu

Para ele, mais do que qualquer coisa, a importância de Mãe Biu nesta questão é “porque foi ela quem guardou toda essa documentação. Esse memorial só existe por causa disso. Se não, a gente não teria como contar nossa história. E um povo sem história é um povo sem memória”.

“Através do Memorial, atraímos os estudiosos e deixamos de inventar a roda. Em qualquer terreiro que você chegue é natural que você veja os cantos para os orixás, e você tem que respeitar a religião, não necessariamente acreditar. A partir do momento que nós fizemos um Memorial contando a vida de mulheres, como minha mãe, negra, divorciada (separou-se do meu pai quando nasci), com pouca condição cultural, e daí trazer uma tradição até nossos dias, para nossos filhos e netos, isso começou a atrair uma curiosidade maior nas pessoas”, relembra Pai Ivo, que cita algumas iniciativas que surgiram no Xambá a partir daí.

Reprodução/Elimar Pereira

Reprodução/Elimar Caranguejo

Acervo de fotografias está à disposição de pesquisadores e demais interessados

Algumas delas são o primeiro Museu Afro do Brasil e o título de 1º Quilombo Urbano do País (concedido pela Fundação Cultural Palmares em 2007). “Veio também o Terminal Integrado (Xambá), que na época as pessoas não entenderam a minha visão, alguns até da família. Meu pensamento é que conseguimos demarcar um território. Em pleno século 21, mudamos o nome do bairro. Outra coisa que vale ressaltar é que a primeira escola técnica de Olinda vai se chamar Escola Técnica Estadual Severina Paraíso da Silva, e foi também uma luta nossa porque temos que empoderar o nosso povo com a nossa cultura”.

Valorização da cultura do povo negro – A história do povo africano trazido ao Brasil, conta Pai Ivo, é contada de forma errada do começo ao fim. “Os escravos que vieram na África não eram escravos, eram reis, príncipes e princesas, guerreiros, que foram escravizados nessa terra. Nós não somos descendentes de escravos. Escravo não é descendência, é submissão. Nossa ancestralidade é africana. Quando a gente vê essa questão da cultura começamos a contá-la de forma diferente. A mudar essa ideia sobre as religiões de matriz africana no estado e no Brasil”, ressalta.

“Se você pega um livro de Armando Souto Maior, está escrito lá. ‘O Quilombo de Palmares foi destruído pelo grande bandeirante Domingos Jorge Velho’. O homem que destruiu o quilombo em troca de recompensa e perdão de seus crimes, e ainda recebeu a cidade do Paulista de presente. Por isso que se diz ‘do Paulista’. Enquanto Zumbi dos Palmares, quando chegou a Portugal, não estava bonito de se ver. Com a mão decepada, o olho arrancado, o pênis na boca. Foi difícil reconhecer que aquela carcaça era Zumbi dos Palmares. E essa é a forma que querem contar nossa história. Fazer da Princesa Isabel nossa redentora”, opina o sacerdote do Xambá, para provocar uma reflexão, em seguida. “Sabia que a primeira grande obra de engenharia desse País, as docas de Dom Pedro I, foi feita por dois engenheiros negros, os Irmãos Rebouças?”, conta.

Elimar Pereira/CulturaPE

Elimar Caranguejo/CulturaPE

A fachada do Memorial expõe os principais títulos conquistados pela Nação até o momento

Para ele, as pessoas ainda têm uma visão equivocada sobre a cultura afro-brasileira. “E tem gente que acha que a África é um país. A africanidade é desprezada pela sociedade, e tivemos todo um cuidado com a nossa memória e nosso povo. Aqui é uma nova África. Cada terreiro pra mim é um quilombo”.

Respeito aos povos de terreiro – Pai Ivo olha com orgulho e respeito para o que foi construído no que diz respeito à autoestima dos povos de terreiro, bem como a preservação de suas práticas. “Hoje estamos redescobrindo uma nova África e nossa religião, assim como todo povo tem a sua. Quando invadem um terreiro de candomblé, como muitas vezes os evangélicos fazem, estão invadindo a vida de uma pessoa. É o mesmo que você estar tirando um negro da África mais uma vez. Tirá-lo do seu habitat natural”, afirma o babalorixá, que já participou de diversas audiências da Comissão de Igualdade Racial na Assembleia Legislativa de Pernambuco.

“Segundo a ONU, países que vivem na miséria ou são ditaduras militares, civis ou fundamentalistas. Eu acho que todas as religiões precisam ser respeitadas. As casas religiosas precisam ser respeitadas e se comportar como oficinas de diálogo com a sociedade, porque a religião tem um poder enorme”, criticou Pai Ivo.

“Tem crianças pobres aqui na comunidade que o primeiro brinquedo que receberam foi aqui. E tem mais. Essas pessoas quando entram aqui pra se alimentar, ninguém pergunta sua orientação sexual, a religião da família, essas coisas. É um trabalho filantrópico que a sociedade não reconhece. É essa mudança que o Xambá está fazendo aqui dentro”, reforça o filho de Mãe Biu, que ano passado recebeu a Medalha Leão do Norte, título concedido pela Alepe. “Fui o primeiro pai de santo a receber essa medalha”, destaca.

Elimar Pereira/CulturaPE

Elimar Caranguejo/CulturaPE

O acervo inclui ainda peças de porcelana, artefatos e imagens de santos

Portão do Gelo - Ao escolher o bairro de São Benedito para construir seu novo terreiro, Mãe Biu uniu em torno de si toda a família. “Isso aconteceu também porque o interventor Agamenon Magalhães fez a Liga Social contra os Mocambos, que era basicamente tirar o povo negro do centro e levar para as periferias e subúrbios. Minha mãe veio para cá, que antes era um sítio, e fez essa primeira casa de taipa. Teve na época a visão da união, típica de um quilombo. E trouxe todos os seus familiares para seu entorno, que vieram também pelo estômago, porque era uma época bem difícil. Daí veio toda essa fortaleza. A gente tem uma religião que vem de uma relação familiar. Aqui no terreiro mais de 40% da população é formada por familiares”, ressalta Pai Ivo.

Com vários primos músicos na formação, o Bongar é um exemplo dessa força familiar no quilombo. Considerados como os principais ‘garotos-propagandas’ do Xambá, o atual babalorixá da casa explica que os músicos são enxergados como o grupo que levou a cultura da nação na sua musicalidade, na maneira como se canta, para vários lugares do mundo. Seis jovens integrantes do terreiro fundaram o Bongar em 2001 com o propósito de levar aos palcos a tradicional festa do Coco da Xambá. Os integrantes do grupo herdaram toda essa musicalidade desde a infância, ouvindo os mais velhos e aprendendo com eles os toques, as loas e as danças, durante as festas.

Pri Buhr/CulturaPE

Pri Buhr/CulturaPE

O grupo Bongar leva as tradições do terreiro para os palcos

Sobre a batida específica, com a alfaia deitada, Pai Ivo conta como surgiu, mais uma vez uma lembrança que envolve Mãe Biu. “Quando mamãe completou 50 anos, fez uma festa e uma menina morreu afogada numa cacimba. Ela ficou aperreada e fez uma promessa de, no ano seguinte, fazer um coco em homenagem aos mestres da jurema. Então a festa começou em 1965 e seguiu sem parar até o falecimento dela, em 1993. Foi nessa celebração que surgiu a alfaia deitada. Depois que Mãe Biu faleceu, comprei uma granja e fizemos a festa lá durante um ano. Mas no outro ano trouxemos de volta pra cá pro Xambá. Daí em diante, não paramos mais. Já estou passando pras novas gerações e hoje eu quero ficar simplesmente observando”.

Centro Cultural Bongar – Nação Xambá - O espaço funciona na própria comunidade, quase em frente ao terreiro, no prédio que deu nome ao Quilombo, Portão do Gelo. “A conquista deste espaço é fruto de uma luta da juventude negra de terreiro, mediante o nosso entendimento de que o Xambá é uma comunidade quilombola e tem suas particularidades de praticar os cultos aos orixás”, afirma Guitinho, vocalista do Bongar.

Em 2016 eles receberam o equipamento e passaram a oferecer várias ações com a proposta de preservar a própria cultura. “Damos oficinas de capoeira, percussão, leitura direcionada ao universo afro-brasileiro e cinema. Na música, temos o Bongar como principal elemento condutor desse processo. A gente é muito claro no sentido de que aquilo é uma casa que trabalha a identidade do povo negro, e nosso objetivo é manter viva a memória da Xambá”, reforça Guitinho.

Jan Ribeiro/CulturaPE

Jan Ribeiro/CulturaPE

Guitinho da Xambá representa o grupo em rodas de conversa e seminários pelo país

As crianças que desejarem participar de alguma oficina precisam estar em dia com a escola. Já para o público em geral, de outras idades, não tem tantos critérios. “A única coisa que a gente exige é que o espaço seja visto como um ponto de referência de ambiente de lazer, familiar, educativo. Não é uma espaço de festa, mas de formação, voltado para conhecimento”, pontua o vocalista do Bongar.

Guitinho conta que dentro do Xambá o Bongar está construindo um ambiente cultural fora do centro da cidade. “Criando uma agenda fora do eixo para as pessoas através de iniciativas como o Quilombo Cultural, que conta com incentivo do Funcultura. Nós temos um anfiteatro, pra que as pessoas venham aqui também assistir aos shows produzidos pelas pessoas da comunidade. Que as pessoas se sintam pertencentes e mantenedoras daquela ação”. Para outras informações sobre a programação do espaço, os interessados podem entrar em contato pelo telefone (81) 81 9927 6258 ou no e-mail bongar@uol.com.br.

Outra manifestação cultural nascida deste caldeirão cultural foi o Afoxé Ilê Xambá, que continua saindo nas festas de Momo. “Afoxé quer dizer terreiro na rua, e em 2004 o arrastão da Gigantes do Samba fez uma homenagem pra mim. Nesse ano saímos com o afoxé e, desde então, ele não parou mais”, detalha Pai Ivo, que também criou o primeiro Polo Afro de Pernambuco, realizado até ano passado no Carnaval de Olinda.

O encerramento deste texto pede um resgate histórico do povo desta nação. No final da Festa do Coco da Xambá, celebrado no dia 29 de junho, Mãe Biu sempre cantava uma loa, mantida até hoje pelos filhos, netos e bisnetos no ritual.

“Meu chiqueiro de capim,

Meu curral de bode,

Com a dona de casa ninguém pode”

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