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Uma brincadeira carnavalesca chamada ‘Pão Duro’

Um dos homenageados do Carnaval do Recife, o Clube Carnavalesco Misto Pão Duro celebra 100 anos de folia pelas ruas

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

José Levino Xavier dos Santos soma 50 anos de dedicação ao Clube. Presidente há três décadas, ele posa ao lado do estandarte que celebra o centenário da agremiação.

Por: Roberto Moraes Filho

A saída de um bloco, uma troça ou qualquer outra agremiação carnavalesca é sempre um momento único, mas que pode se repetir por anos, séculos talvez. É o caso do Clube Carnavalesco Misto Pão Duro, que surgiu no Recife como uma troça singela, sem grandes pretensões, e que celebra 100 anos de atividades no próximo 16 de março.

A troça foi fundada por apaixonados pelo carnaval de Pernambuco, como os compositores José de Barros e Sérgio Lisboa, co-autores dos de frevos consagrados como ‘Fogão’ e ‘A chave e um Segredo’, hinos da agremiação. Depois de muito caminharem pelo bairro do Pina à procura de refeição durante o carnaval de 1916, eles e outros rapazes encontraram uma única padaria aberta. No entanto, no estabelecimento estavam disponíveis apenas pães velhos e já endurecidos. A frustração foi tanta que um dos integrantes teve a ideia de fazer um estandarte improvisado com um pão no topo de uma vara, dando origem ao nome da Troça Carnavalesca Pão Duro.

Em 1966, após meio século de brincadeiras e o falecimento de alguns de seus fundadores, a administração da troça precisou ser renovada. Foi assim que o então porta-estandarte João Batista, um dos últimos herdeiros da geração inicial da troça, passou  o comando da tradição para o alfaiate José Levino Xavier dos Santos.

“Naquela época eu estava com 30 anos. Minha atividade carnavalesca era apenas a de acompanhar um grupo de palhaços, para o qual eu já confeccionava fantasias. Então, através de João Batista, que já conhecia o meu trabalho como alfaiate, eu e meus seis irmãos, sendo cinco homens e uma mulher, hoje já falecidos, conseguimos tornar a troça mais popular nos carnavais do Recife”, comentou Levino, no início da entrevista ao Portal Cultura.PE, no quintal de sua residência, onde funciona permanentemente o ateliê para a confecção de adereços e fantasias.

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

O ateliê da agremiação, no quintal de José Levino, é o lugar preferido do carnavalesco em sua residência.

“Sob nossa responsabilidade, a agremiação passou a ter características mais próximas do bairro de Afogados, sendo possível no ano de 1993, torná-la Clube Carnavalesco Misto Pão Duro. Estou há 30 anos na presidência desta agremiação e quando passa o carnaval, não tem mais nada para fazer. Por isso, o pouco de dinheiro que sobra dos meus trabalhos como alfaiate durante todo o ano, eu vou investindo no material que já vai servir para o tema do próximo desfile”, explicou o carnavalesco, que desde os 10 anos de idade foi o único dos sete irmãos, filhos do casal José Levino dos Santos e Francisca Pedrosa Lins dos Santos, que optou por seguir o ofício de alfaiate repassado pelo pai. Hoje, além de alfaiate, a missão de Levino é liderar sozinho as atividades desempenhadas pela agremiação, que antes dividia com os irmãos, todos criados no bairro de Afogados.

Perguntado sobre os desafios atuais da agremiação, Levino é enfático: “O carnaval está cada vez mais difícil de ser realizado. Eu sempre uso da criatividade para poder economizar e assim confeccionar a um custo baixo, possibilitando que os seguidores do clube, desde os mais antigos aos mais novos, tenham como adquirir as peças aqui produzidas”, ressalta.

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

“Eu vou observando, ao longo do ano, onde posso comprar o material necessário, vou fazendo as fantasias com base numa característica ou num tema que agrada e adquirindo o número suficiente de peças para as produções. Esse é o segredo de quem deseja colocar o bloco na rua, não deixar para em cima da hora”, orienta o carnavalesco, com base na sua vasta experiência.

No carnaval deste ano, o Clube Carnavalesco Misto Pão Duro é um dos homenageados da Prefeitura do Recife. Para Levino, o reconhecimento veio em um bom momento. “Estou com 80 anos de idade e nunca fiquei sem ir para o carnaval do Recife. É uma grande conquista porque nunca fui homenageado e a agremiação também não. Dessa forma, fico muito feliz representando todos os brincantes”, comentou. O tema do Clube em 2016 é “No Compasso do Passo”, com destaque para os passistas e palhaços, que marcam os 100 anos “desta tradição mantida com tanto esforço, de uma forma simples, mas que faz a alegria de muita gente”, sorriu Levino, com seu jeito tranquilo de receber os visitantes em seu ambiente caseiro de trabalho.

No processo de confecção das fantasias, Levino conta com a ajuda preciosa da esposa, Maria José Berto da Silva, além do apoio de costureiras da própria comunidade. Ao longo de 50 anos à frente da agremiação, o carnavalesco diz que o incentivo dado por órgãos públicos também é essencial à realização anual dos desfiles. “Mesmo me esforçando para garantir que pelo menos as fantasias estejam prontas dentro do prazo devido, o apoio que recebemos é muito necessário para despesas com orquestras e outros investimentos que possibilitam um belo espetáculo”, destaca.

Foto: Rodrigo Ramos/Secult-PE

No carnaval deste ano, a agremiação inicia o seu roteiro de desfiles logo na abertura oficial, que acontece na sexta-feira, 5 de fevereiro, no Palco do Marco Zero. Em seguida, o clube estará se apresentando na sábado (6), a partir das 16h, no Polo da Praça do Arsenal da Marinha. Já na terça-feira de carnaval (9), a agremiação faz parte do Grupo Especial do Carnaval do Recife, se apresentando na programação da Av. Nossa Senhora do Carmo, no bairro de Santo Antônio.

Cerca de 100 participantes estarão garantindo a animação. “Nesta edição especial de centenário, pretendemos demonstrar toda a beleza das nossas produções e queremos que o amor pelo clube seja ainda mais fortalecido, fazendo um carnaval da forma simples e criativa, como sempre soubemos fazer”, finalizou Levino, demonstrando as peças já produzidas, nas quais predominam os tons verde, azul e dourado, as cores do clube.

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