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MÚSICA

A imensa aldeia que repercute prazeres

O percussionista Lucas dos Prazeres sobe ao palco do Teatro Luiz Mendonça, nesta quinta (13), para a gravação do seu DVD, “Repercutir”

Beto Figueirôa

por Leonardo Vila Nova

No dia 21 de julho de 2013, o percussionista Lucas dos Prazeres renovava seus votos de comunhão com seus instrumentos, em pleno Festival de Inverno de Garanhuns. Lá estava ele, no Parque Ruber Van Der Linden (Pau Pombo), apresentando ao público o seu espetáculo solo Repercutir, onde ele se mostrava inteiramente em essência. Era como se estivesse nascendo, em estado bruto (ver matéria). Um ano, quatro meses e 23 dias depois, ele volta a reverberar seus sons e afetos. Porém, desta vez, ele não está só, e sim envolto por um gigantesco grupo de 30 músicos. Nesta quinta (13), Lucas sobe ao palco do Teatro Luiz Mendonça – no Parque Dona Lindu – rodeado por sua “aldeia”, como costuma dizer, para apresentar e registrar em DVD o Repercutir, com nova concepção e formato. O espetáculo acontece à 20h e a entrada é gratuita, com retirada dos ingressos a partir das 17h, na bilheteria do teatro.

A gravação do DVD Repercutir foi viabilizada através do Prêmio Funarte de Arte Negra. Dos 33 projetos contemplados em todo o país, ele foi o único do Recife a angariar essa conquista. A captação de áudio e vídeo, assim como a edição da mídia, será feita pelo estúdio Fábrica, sob coordenação de Pablo Lopes. A concepção do espetáculo, feita em parceria entre Lucas e sua mãe, Conceição dos Prazeres, dessa vez, traz muitas diferenças do Repercutir que Lucas apresentou em Garanhuns. Antes solo, Lucas agora resolveu unir suas duas famílias: a das pessoas e a dos instrumentos. Ele irá se cercar da sua Orquestra dos Prazeres, ampliando-a, inclusive – um time inicial de 23 músicos chegará a 30 em cena.

Lucas é o responsável por arregimentar esse poderoso grupo de percussão que, dividido em naipes, como nas orquestras convencionais, arrebata a quem assiste, pelo vigor e sintonia em palco. São amigos de infância, aprendizes, parentes sanguíneos e irmãos de afinidade e afeto. Reunir-se com os seus: este é o rito que Lucas concebe para celebrar um “ciclo vivo, ativo e harmonioso” de conquistas que a arte lhe deu ao longo da vida. “Arte, pra mim, é junto com a família. Antes de qualquer ideia musical, se deu ali uma carga emocional muito grande, uma explosão de carinho, respeito e amor muito grande. Quando tudo isso se junta, tem uma química ali, e quem vê isso tudo também se conecta com esse momento”, relata. Além da orquestra percussiva – que tem declarada inspiração na orquestra de sabás do senegalês Doudou N’Diaye Rose – , reforçam a musicalidade do conjunto, no espetáculo, um baixo elétrico, uma viola e um set de percussão eletrônica.

Beto Figueirôa

Em Repercutir, Lucas também revolve em sua órbita sensível todas as referências artísticas que traz arraigadas em sua alma. A escolha dos convidados dá conta desse diálogo que Lucas estabelece com as mais diversas linguagens, que estarão em palco, junto a ele. A música se fará presente com a percussão de Gilú Amaral, assim como com as toadas rabecadas e também os bailados de cavalo marinho, através do grupo Sagaranna. O corpo em movimento também será marcado pelas participações do Afoxé Alafin Oyó e dos bailarinos Dielson Pessoa, Ana Paula Santos, Jamila Marques e do coreógrafo moçambicano Manuel Castomo. A poesia de Antônio Marinho vai reverberar no Luiz Mendonça, em cadência com o som de Lucas. Textos da tia Lúcia dos Prazeres também irão cerzir trechos do espetáculo. Também da família dos Prazeres, o primo e padrinho Feliciano contribuirá com seus traços em telas pintadas exclusivamente para o “Repercutir”, que serão projetadas por Gabriel Furtado. E um momento especial: após mais de 20 anos, Lucas divide o palco com Conceição dos Prazeres, em um número de dança que alude ao encontro entre Xangô e Iemanjá.

Ritmo da vida
O roteiro de Repercutir foi construído a quatro mãos. Lucas e sua mãe, Conceição, tiveram o desvelo de trazer ao palco todo um universo de referências de toda a vida do percussionista, mas de forma a conectá-las com um conceito bem amarrado, que pudesse abarcar, de forma inteligível e sensível essas conexões. O espetáculo, então, é dividido em quatro atos, baseado no ciclo da vida, fazendo uma analogia com o desenrolar das estações do ano. De cara, abre com o Inverno, que remete a um momento de introspecção, quietude, reorganização e fecundação, em que Lucas canta e reza para seus mestres e orixás, abrindo seus caminhos; depois, o florescimento que vem com a Primavera, “a conscientização do brotar de um jardim novo, com novas flores”; a explosão do Verão, personificada na dança e em ritmos festivos, como o semba e o coco; e o Outono, que culmina com a sabedoria que há no desprendimento e desapego diante das coisas da vida.

Assista ao vídeo promocional, gravado por Lucas e Orquestra dos Prazeres:

Negritude, orixás e consciência
Filho de Xangô não teme porque é filho de rei”, cantava Noriel Vilela em Saravando Xangô. Filhos de Xangô são aguerridos, enfrentam desafios com gana e obstinação. No caso de Lucas, o DVD Repercutir é mais uma prova dessa imponência diante de um novo desafio. E é bem mais do que isso. É a reafirmação da sua relação com o universo artístico, que rege sua vida desde sempre. Lucas, 30 anos, diz também ter 30 anos de carreira, uma vez que sua mãe, que foi bailarina do Balé Popular do Recife, se apresentou com ele em seu ventre até os 7 meses de gestação. Sua relação com a arte – em especial, a dança e a música –, portanto, é umbilical, sanguínea, essencial. No lugar onde cresceu e se criou – o Morro da Conceição – sua convivência com esse universo artístico tomou forma, e, há 18 anos, ele se apropriou profissionalmente das linguagens que aprendeu ao longo da vida para levá-las aos palcos dos quatro cantos do mundo.

Desde sempre, mesmo que de forma mais lúdica, através das brincadeiras populares e da sua relação tão íntima e simbiótica com a percussão, ele trouxe nas veias, no espírito e nos movimentos a sua herança negra. Porém, em Repercutir, esse lado se mostra ainda mais forte. “Os ensaios e espetáculos da Orquestra sempre tiveram ensinamentos referentes à consciência negra. Traz esse negrume de maneira mais consistente, com fundamentos religiosos, com a filosofia do candomblé, nesse diálogo mais energético com a magia da natureza”, explica Lucas.

O repertório do espetáculo, repleto de referências ao candomblé e a canções que exaltam nossas raízes negras remetem a essa ligação mais clara e forte. Zumbi, de Jorge Ben; Felicidade Guerreira, de Gilberto Gil; Semba dos Ancestrais, de Martinho da Vila, menções ao coco e à capoeira são apenas algumas das referências à negritude, mas não a negritude que lamenta as agruras da escravidão, mas uma negritude afirmativa. Traços bem característicos daqueles que trazem a verve guerreira e destemida de Xangô. Lucas canaliza isso em sua arte, de forma altiva e criadora. “A grande luta do guerreiro, filho de Xangô que sou, é por ter uma vida digna, confortável, harmoniosa, pacífica e feliz sem sair do meu palco… ser respeitado no meu palco… ensinar meus filhos e netos no meu palco… receber meus amigos e amores no meu palco… conhecer o mundo inteiro sem sair do meu palco”, afirma o artista.

Acessibilidade
O espetáculo Repercutir também dialogará com pessoas com necessidades especiais. Um momento inédito em espetáculos de música no país. O show terá a interpretação simultânea em Libras – Linguagem Brasileira dos Sinais – feita pela tradutora Poliana Alves, que reproduzirá, através da comunicação por gestos não só o som das músicas do espetáculo, como todas as letras – tanto em português quanto em yorubá, idiomas que farão parte do show.

SERVIÇO
Gravação do DVD do show Repercutir, com Lucas e Orquestra dos Prazeres
Quinta (13), a partir das 20h
Teatro Luiz Mendonça (Parque Dona Lindu) – Avenida Boa Viagem, s/n, Boa Viagem – Recife/PE
Entrada franca (com retirada dos ingressos a partir das 17h, na bilheteria do teatro).

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