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MÚSICA

O silêncio de Naná

Por Michelle de Assumpção

Para Naná, silêncio também era música. Ele gostava de brincar não só com os ritmos, com o corpo ou a voz, mas com as palavras também. “Toco mais quando não toco”. Então, Naná, ficaremos com seu silêncio e, portanto, com sua sinfonia final. Claro, com todo seu legado também. Não foi pouco o que deixaste.

André Seiti Miyahara

André Seiti Miyahara

De luto, a cultura pernambucana dá adeus a um de seus maiores tesouros

Naná lutou até o último momento pela vida, mas o sopro final aconteceu na manhã deste triste 9 de março de 2016, aos 71 anos de idade e há mais de 50 na estrada da música e da arte. “Eu tenho que fazer parte, de corpo e alma. A gente toca mais quando não precisa, senão vai confundir”, dizia sempre, mudando as palavras, mas sempre com este sentido: música também é silêncio.

Muitos fatos podem ter levado Naná a ter criado esse estilo brincalhão, criativo, subversivo, surreal, como também gostava de chamar a música que fazia. Pode ser porque desde muito cedo sabia o que queria fazer da vida. Chegou a sair de casa escondido para assistir ao pai, também baterista, tocar em bailes e clubes noturnos do Recife. Seu Pierre morreu quando Naná ainda era adolescente, mas já tinha permissão para frequentar a noite recifense e tocar.

Pode ter sido também por causa do trovão. Sim, Naná contava que quando era criança, ouviu certa vez um som forte, grave, seco, que seguiu se multiplicando e ecoando pelo ar, o que o fez correr para barra da saia da mãe, Petronila, negra de origem africana, que criou Naná com outros cinco irmãos. A mãe contou-lhe então que aquele som, reverberando ali pelo bairro de Sítio Novo, nada mais era que o maracatu de Seu Veludinho, mestre lendário das nações maracatuzeiras de Pernambuco.

Foi assim que Naná conheceu o maracatu: junto com a música dos trovões, junto com um som que parecia vir de uma coisa, mas vinha de outra. Depois, lá na frente, quando começou a criar, Naná retomaria os elementos da natureza: fez música dos ventos, da terra e do ar. Só não mexeu com fogo. Mas dançou e tocou na piscina, fez música com o som do atrito dos pés xaxando num grande balde com areia; sacolejou placas metálicas e chocalhos que imitavam as trovoadas; além daquela sensacional interatividade com sua plateia, em salas de teatro, que, regida por Naná, com palmas e batidinhas de mãos, era transportada para uma floresta, com a chuva batendo nas folhas das árvores.

Tudo que criava surgia de conceitos. Em 1967, mesmo sem estrutura e condições, foi para o Rio de Janeiro, acompanhando Capiba e outros músicos. Tinha 23 anos e decidiu ficar. Apresentado a Milton Nascimento por Geraldo Azevedo, foi a uma festa na casa do mineiro. Lá pelas tantas, alguém pediu a Milton que cantasse algo que gravaria na segunda-feira seguinte. Milton começou: “Morte vela sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai…”. Naná saiu da sala, sem ser notado, foi à cozinha e voltou com algumas caçarolas. Começou a experimentar interferências sonoras, rodeado pelas panelas, ali no chão. “Lá pela terceira música, Milton olhou pra mim e perguntou o que eu iria fazer na segunda-feira”, contou Naná. No dia seguinte Naná estava de mudança para casa do cantor. E foi assim, com liberdade, ousadia e criatividade, que entrou para a história da percussão brasileira e mundial.

O Rio lhe apresentou a outros músicos, como o saxofonista argentino Gato Barbiere, que o levou para Nova Iorque. Além dos batuques, Naná também já usava um berimbau, claro, fazendo um uso mais virtuoso deste instrumento, que era comum da capoeira. Naná contava que antes de ir a Nova Iorque não tinha coragem de tocar o berimbau da forma que passou a tocar. Achava que a crítica iria condená-lo.

Além disso, na época, o Brasil era da bossa nova . “Já eu vinha com a carga do candomblé, dos maracatus”. Intuição foi a palavra chave do percussionista. Traduzia, na sua opinião, todo o mote condutor da sua criação. “Os brasileiros que foram para os Estados Unidos quando eu fui perderam isso, se perderam também. O maior gol é que minha intuição disse, ‘fique aí que você não se parece com nada. Eu não parecia com nada, eles associavam o berimbau à selva e quando fazia minhas onomatopeias, queriam entender o que eu estava dizendo”, contou.

Durante todos os anos 70, Naná seguiu tocando pelo mundo. Foi morar na França, onde gravou, em 1972, o primeiro disco, Africadeus, e começou o trabalho com as crianças. Fez o cultuado e premiado álbum Dança das Cabeças, com Egberto Gismonti, e formou o trio com Don Cherry e Collin Walcott, o CoDoNa, com quem gravou três discos, em 1978, 1982 e 1983. Passava meses em turnês pelo mundo, ora acompanhando Pat Matheny, ora exercitando a livre criação com o CoDoNa.

Foi nessa época que desenvolveu as ideias mais criativas e libertárias, mesclando ritmos, surpreendendo, fazendo trabalhos solos com muitas experimentações, disseminando o conceito da world music, misturando Sítio Novo com  Amazonas, Paris e Japão. Naná era mais conhecido no Brasil por ter sido o percussionista que foi eleito, por oito vezes, o melhor do mundo pela revista americana Down Beat e ganhador de diversos prêmios Grammy.  “Ninguém mais me conhecia no Brasil e aqui acontecia tanta coisa, que eu resolvi voltar para encarar. Aquele momento de encontros e misturas na música não voltou a se repetir e, talvez, eu já tivesse tido a sorte de participar do trabalho de muita gente boa”, avaliou.

Eric Gomes/ SecultPE

Eric Gomes/ SecultPE

O percussionista em apresentação durante o Festival de Inverno de Garanhuns 2014

De volta ao Brasil, em 1997 consagrou seu prestígio mundial na área da percussão, ao ser o curador do maior festival de percussão internacional que o Brasil já sediou: o Percpan, que fez ao lado de Gilberto Gil, em Salvador. Continuava gravando, se apresentando, tocando e circulando pelo mundo. No Brasil, ainda reeditou o projeto ABC Musical, com oficinas e concertos envolvendo grupos de crianças.  Esse projeto aconteceu em outras versões, por outros países.

Em 2001, passou a protagonizar um projeto que deixará indeléveis marcas na cultura pernambucana. Até então conhecida pela forte rivalidade, as principais nações de maracatu do estado passaram a se juntar num cortejo que reunia mais de 300 batuqueiros, na sexta-feira de Carnaval, abertura oficial da festa na capital pernambucana. Naná conduzia orgulhoso esse cortejo, depois juntava o batuque do maracatu a músicos de vertentes variadas, no palco do Marco Zero. Sempre inventando. Neste carnaval, que foi seu derradeiro, ele mais uma vez quis inovar e levou, também, além dos maracatus, algumas tribos de caboclinhos. Naná talvez intuísse que estava perto da partida, mas isso não o fez desistir. Ele dizia que apresentar sua música era a sua cura. Cumpriu todos os compromissos. Poderia ter ficado mais um pouco. Mas desta vez, aceitou o silêncio.

Em tempo: Os depoimentos de Naná usados nesta matéria foram colhidos para uma reportagem dos jornalistas Michelle de Assumpção e Carlos Costa, publicados originalmente na revista Continnum, do Itaú Cultural.

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