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Festival pernambuco nação cultural

A “greia” do Magiluth no FPNC Agreste Setentrional

Texto de Nelson Rodrigues foi encenado no último sábado (1/9), em Limoeiro, pelo grupo pernambucano

Encenação do grupo pernambucano faz releitura do sarcasmo rodriguiano (Foto: Ricardo Moura)

Encenação do grupo pernambucano faz releitura do sarcasmo rodriguiano (Foto: Ricardo Moura)

Por Chico Ludermir

“Vocês captaram bem a ideia do meu pai”, teria dito um dos filhos de Nelson Rodrigues ao ver a encenação da peça “Viúva, porém honesta” pelo grupo Magiluth, na estreia do espetáculo no Rio de Janeiro, em agosto. Com muito menos propriedade do que a do familiar, o crítico que aqui escreve arrisca dizer o mesmo. Se o Anjo Pornográfico visse a peça do último sábado (1/9), em Limoeiro, teria provavelmente se deliciado com toda a anarquia em cena. “Greia” em bom pernambuquês define com precisão a apresentação do elenco no Festival Pernambuco Nação Cultural do Agreste Setentrional. E não se sabe bem quem se divertiu mais, se os atores ou a plateia.

Mesmo sendo tido como um texto menor, dentro do repertório extraordinário de Nelson Rodrigues, “Viúva…” ganha força na versão do grupo. Alma rodriguiana. A bagunça da vida real se transpõe para dentro do palco, que, diga-se de passagem, termina de cabeça para baixo. Jornal, batatas e todo figurino jogados no tablado.

O grupo, cada vez mais maduro cenicamente, mostra que vem construindo sua língua cênica, ou linguagem, como tanto falaram em entrevista publicada neste blog. Ator que comenta sobre o personagem, narrador dentro do texto, passagem de tempo inserido nas falas são alguns dos elementos. O jogo de cena é escancarado. E tudo com as bênçãos de Nelson. Como eles próprios confessaram, tiveram que trazer o nosso maior dramaturgo para a terra. E fizeram bem. Nelson não gostaria de estar posto ao lado de Jesus.

Ao centro, a viúva que não senta (Foto: Ricardo Moura)

Ao centro, a viúva que não senta (Foto: Ricardo Moura)

 

A brincadeira rola solta. E vale tudo. O troca-troca de personagens – se me permitem o trocadilho – dá um ritmo lancinante à encenação. Os personagens da peça, como Ivonete (nome da viúva antes de perder o marido), Madame Cri Cri, Pardal, o Diabo da Fonseca, o psicanalista, o otorrino… se revezam entre os cinco atores, o que demonstra uma profunda sinergia grupal. O revezamento de papeis, contudo, é facilmente reconhecido por alguns trejeitos e peças de figurinos que todos absorvem com graça.

A “Viúva, porém honesta” do Magiluth é um misto do libido rodriguiano com o frescor dos jovens que claramente amam fazer teatro. Revela toda as contradições da esferas pública e privada da década de 1950, ainda presentes nos anos 2010. E ainda choca. “Eu não gostei de jeito nenhum”, disse um dos espectadores limoeirenses, claramente impressionado com vibrador, as traições e o beijo entre atores homens no espetáculo. Por outro lado, o militar reformado Getúlio Simões discordou: “É uma peça muito atrante.. Duvido que alguém cochilasse. O excessos são todos coerentes”, defendeu.

De cá, como “crítico”, prefiro parar de opinar por aqui. Sei o papel que me cabe. Quando for para o inferno, podem me buscar nas fichas na letra “v”…

"Viúva, porém honesta" debocha dos críticos de teatro (Foto: Ricardo Moura)

“Viúva, porém honesta” debocha dos críticos de teatro (Foto: Ricardo Moura)

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