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Festival pernambuco nação cultural

“A Mata Norte é a base, é a referência, e quando eu saio muito longe eu me perco”

Entrevista concedida por Siba Veloso, antes do seu show no Palco Principal do Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Edição Mata Norte, em Goiana.

Julya Vasconcelos

Show de Siba em Goiana (Foto: Clara Gouvêa)

Show de Siba em Goiana (Foto: Clara Gouvêa)

Os seus trabalhos anteriores eram marcadamente trabalhos influenciados pela música da Mata Norte. Você é um artista que é formado por essa tradição. O seu disco novo propõe claramente uma quebra, apesar de manter essa sonoridade ainda viva em diálogo com outras. Mas o “avante” é de onde pra onde? Teria alguma relação com essa saída da cultura popular para algo mais pop?

Não, não. É engraçado porque essa é uma dedução muito comum, porque parte de um pressuposto que a gente tem já muito estabelecido de que a cultura popular é matéria prima, é uma coisa antiga, de raiz, todos esses adjetivos: antigo, raiz, o começo e a origem. Então coloca-se abaixo de todo o resto que parte daquilo. Aí quando eu faço um trabalho mais elétrico, com guitarra e tal, aí uso o nome “Avante”, por outro motivo, a dedução parece ser um caminho natural. Avante porque eu parti pra algo mais à frente da cultura popular. Não é nada disso, tem até uma letra inteira no disco que fala da quebra do bloqueio, fala da coisa da poesia pra ser cantada, do ofício do poeta que canta. E vem de um período que eu passei muito bloqueado, por conta de várias questões que envolveram a concepção desse trabalho. Então o “Avante” tem mais a ver com isso, sobre a força-motriz de movimentar pra frente. Mas não necessariamente pra uma coisa melhor, mais moderna, mas avançada. É um avante pra movimentar mesmo. Qualquer passo já é um movimento.

O seu processo criativo mudou nesse novo trabalho?

Mudou bastante em um certo sentido porque eu me propus, de alguma forma, a encerrar o processo musical em mim e menos com a banda. No sentido de que na Fuloresta eu só cantava, então o instrumento era a banda com um todo, o único instrumento era a banda. E esse foi um disco que eu tentei elaborar a partir de mim não só como poeta, mas também músico e cantor. Me recolocar com a guitarra levou  um tempo longo. Então o processo foi diferente porque ele partiu muito da música, de elaborar muito, e de construir uma música no meu corpo de novo. Por outro lado é um disco como outro qualquer pra mim, porque ele foi concebido pelo texto, através do texto, o texto é quem guia. Então é igual a qualquer disco que eu já fiz da Fuloresta, ou meu disco com Barachinha só de maracatu. É a mesma coisa. O texto, a poesia é que conduz, e está montada numa estrutura musical que poderia ser qualquer outra, na verdade. A escolha musical é um pouco aleatória e é um pouco também reflexo do que eu estou sentindo no meu momento de vida. Mas o condutor é sempre a poesia, e nesse sentido eu estou a fazendo a mesma coisa, não mudou nada. É o mesmo trabalho.

E a cultura musical da Mata Norte, que lugar ela tem nesse disco?

Eu não sou nada sem a Mata Norte. A minha formação, não inteira, mas o principal, a única formação sólida que eu tive foi aqui. Todas as outras foram mais informais: foi ouvir um pouco de rock, tocar um pouco de não sei o quê, ouvir música não sei da onde. Ter aula com não sei quem, passar pela universidade. Tudo isso foi muito fragmentado pra mim. A Mata Norte foi uma coisa sólida, que se desenvolve nos meus últimos 20 anos de vida e até hoje se processa, e aonde eu me senti terminando um processo de iniciação artística propriamente dita, diante de tomar posse de posse de uma linguagem pessoal, uma linguagem minha, dominar uma linguagem e trazer ela pra mim. Então a Mata Norte é tudo. Só porque não é só percussão e orquestra de sopro… mas pra mim a Mata Norte é a base disso tudo. Mas tem mais elementos externos, realmente. É o primeiro trabalho onde eu coloco pela primeira vez de uma maneira um pouco mais abrangente a minha foprmação de ouvido, musical. Então entra um monte de coisas, por exemplo o rock, que é a minha primeira formação, a primeira escola. Muito de uma coisa de ouvir música africana e me inspirar não só pela música, mas pelos processos da música africana, que está muito presente no disco. E um pouco de tudo o que eu já ouvi. Então nesse sentido é bem diferente musicalmente. Mas a Mata Norte é a base, é a referencia, e quando eu saio muito longe eu me perco.

Eu entrevistei recentemente o cirandeiro João Limoeiro. E ele me falou que as únicas pessoas que cantavam ciranda e tinham um estilo próprio eram ele, você e a Lia de Itamaracá…

Ele foi injusto com Zé Galdino…

Mas ele te colocou no hall dos mestre de cultura popular mesmo. Como você vê isso? Você se vê como um Mestre?

Sim, eu canto ciranda, canto maracatu. Eu não estou tão atuante quanto nos primeiros anos de Nazaré, nos primeiros quatro anos que morei aqui na Mata Norte. Eu vivi pra isso, né? Naquele momento foi um momento que eu me doei pra isso. Eu cantava ciranda e maracatu na região, e era o que eu fazia de mais importante. Embora não me desse retorno profissional financeiro imediato, mas eu tava completando uma formação. E naqueles anos aqui eu cantava cirandas de quatro, cinco horas, com meu repertório. Cantava maracatu, fazia sambada. Tudo isso eu fiz intensamente naqueles anos. E é por isso que eu me sinto formado, e que a minha escola única e formal é essa, e tal. Então sei cantar ciranda, maracatu, são linguagens que eu domino, agora eu não estou praticando isso no momento. Não tenho um grupo de ciranda. Eu acho que um mestre de maracatu e de ciranda é um cara que faz isso, essa ciranda de cinco horas com repertório próprio, de improviso também. Eu ainda sou mais mestre de maracatu do que de ciranda. A ciranda está muito mais lá atrás porque virou uma parte de um show da Fuloresta, e a partir de certo momento eu passei a desenvolver a Fuloresta como um conceito de show e não mais eu cirandeiro e a Fuloresta como um grupo de ciranda. Essa prática da ciranda exige uma coisa diária, de exercício, memorização, improviso. Eu deixei faz um tempo. Então me coloco em um patamar muito inferior ao deles, que estão nisso a vida inteira e todo dia. Mas maracatu ainda estou cantando alguma coisa.

Por fim, eu queria saber qual a tua opinião sobre a crescente industrialização da região, no sentido de como isso pode afetar, a partir do momento que afeta os modos de produção e a rotina das pessoas, a cultura da região. Você acha que há motivo para preocupação?

Não por esse motivo. A modernização da Mata Norte já começou muito antes, há uns 40, 50 anos, com a queda dos engenhos últimos, com a urbanização. A vida aqui já mudou muito nesse tempo. Essa cidade aqui, por exemplo, ela hoje só é assim imensa porque todos os engenhos ao redor não existem mais. E é assim com várias outras. Goiana é uma das que mais cresceram, Nazaré também, e várias outras. E a cultura local teve que dialogar com essa modernização. Algumas coisas praticamente acabaram. Outras, pelo contrário, cresceram com isso, como o Maracatu de Baque Solto. Esse maracatu, como a gente o conhece hoje, é fruto dessa modernização, da urbanização, e da capacidade dos artistas de maracatu, especialmente os poetas, mas não só, de se adequar e articular essa arte em um outro momento. Então, a princípio, eu não acho que esse novo momento que está vindo necessariamente tem que atingir, pelo contrário. Esse é um momento onde tudo está mais conectado, mais global, as pessoas não são mais tão bobas, os artistas locais não são mais tão bobos, eles sabem o valor que têm em um nível muito maior do que há 40 anos. E eu acho que eles, de alguma forma, vão saber lidar com isso, não vão ignorar isso. Agora de que forma isso está acontecendo aqui do ponto de vista de uma coisa mais, vamos dizer, justa, eu não estou bem informado. Nesses processos sempre vem também um processo de achatamento muito forte, de dominação. Então é contraditório mesmo, mas eu acho que se vem mais oportunidade de emprego, uma possibilidade das pessoas conquistarem um nível de cidadania um pouco melhor, isso vai fortalecer, e não derrubar.

 

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