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A solidão e o segredo do Engenho Cumbe

Zé Estevão mantém viva sua paixão pelo maracatu (Foto: Clara Gouvêa)

Zé Estevão mantém viva sua paixão pelo maracatu (Foto: Clara Gouvêa)

A história de Zé Estêvão, o herdeiro do Maracatu Cambinda Brasileira

Julya Vasconcelos (texto) | Clara Gouvêa (foto)*

O chão de terra barrenta é bem seco e alaranjado. Em volta, a cana ondula com o vento, feito um mar verde claro. “Ali embaixo a gente planta cana pra vender pro engenho”, diz Zé Estêvão, apontando por detrás da cerca de arame. “Esse aqui é café-beirão, serve pra derrame. A gente tira a semente e faz um chá, que tem que ser fraquinho”, ensina Ele. “Zé… e se for forte?, pergunto. “Se for forte, mata”, diz, prendendo o riso e abaixando a cabeça, como se morrer não fosse exatamente assustador.

Manangú, romã, canela ali na frente. “Canela é bom pra ressaca. Se tu tomar uma cachaça em um dia, no outro faça o chá da folha da canela que tu fica boa na hora”, me ensina com ar professoral de quem já fez muito chá nos dias seguintes às sambadas de maracatu. “Tá vendo aquela ali atrás, da folha graúda? É pra gripe”. Tem também a carrapateira pra fazer óleo, a folha igualzinha a do mamoeiro, confusão que fez Zé rir da minha cara pela segunda vez. No terreno ainda tem goiabeira, bananeira e um mamoeiro de fato. Zé Estêvão aprendeu tudo isso com a mãe, Dona Joaninha, que faleceu há três anos. Ela fundou o Maracatu Cambinda Brasileira, há 94 anos, junto com Seu João Estêvão, pai de Zé, que também se foi, só que há longos 16 anos. Desde então, ele mora completamente sozinho no Engenho Cumbe, que fica na área rural de Nazaré da Mata. “Tem medo?”, pergunto. “Tenho não, o maracatu me protege. Mas um monte de gente foi embora com medo de assalto, de morte”.

Sobre a falta que o pai lhe faz, ele diz que o Domingo de Carnaval é o dia mais doído. “É nesse dia que eu sinto mais o meu pai. É como se ele estivesse aqui mesmo quando o maracatu vem pra cá”, diz avermelhando os olhos, sentado no braço do sofá da sua casa amarela, cheia de retratos na parede e com o primeiro estandarte do Cambinda exposto em destaque. “Aí eu choro, eu e minha irmã Zefinha, sempre. Ela chega e já vai derramando pranto”. Acima da sua cabeça, uma foto da mãe e do pai, com o Padre Ciço no meio, entre os dois. O retrato é retocado por aquelas técnicas antigas dos retratistas. Na hora me causa curiosidade o catolicismo da família. No meu imaginário, o candomblé, a jurema e outras tradições religiosas é que estariam por trás dos maracatus. Penso em perguntar, mas não pergunto. Já haviam me dito que não é um assunto que se fala com qualquer um.

Zé Estêvão é baixinho, magro, tem um jeito tímido. Toda vez que lhe faço uma pergunta, ele rebate, como que querendo confirmar se é com ele mesmo: “Eu?”. Me explica: “Quando eu era mais novo, eu era calado. Aí depois fui desenvolvendo mais um pouco”. Dessa vez, eu rebato: “Era? Eu acho que ainda é, viu?”. Ele se espanta e escorrega pelo braço do sofá, rindo muito, acho que por ter sido revelado. “Eu puxei ao meu pai. O problema dele era só maracatu, era muito calado. Chegava em casa, sentava em um canto e não falava nada. Ele dizia: ‘Tudo o que a gente sabe, se ensina, a gente fica sem nada’”, me conta em tom sério. “Eu duvido que alguém saiba o segredo do nosso maracatu. Ele não contava pra ninguém”. “E você sabe o segredo, Zé?”, pergunto. Mais uma vez ele me encara prendendo o riso: “Agora… eu não vou contar pra senhora, não!”.

Desobedecendo Zé Estêvão, Dona Maria de Lourdes, que é Dama de Passo do Cambinda há 13 anos, me diz que todo maracatu tem uma mãe de santo que o protege. No caso do Cambinda, é a Dona Biu. “Dona Biu, venha cá falar com a moça! Ela quer perguntar umas coisas!”, grita chamando a mãe de santo, que estava dentro da casa de Zé. Dona Biu aparece fumando um cigarro. Tem uma voz grave, e só me diz que não vai falar é nada. Uns minutos depois, fala que costura as roupas do Cambinda, e que já está “atacada” por não estar costurando. Sinto simpatia por Dona Biu, apesar de ela estar claramente fechada, séria. Zé e Maria de Lourdes continuam me contando segredos ao lado. Dizem que catolicismo e candomblé convivem em completa harmonia e equivalência de fé. Todo mundo no maracatu crê nos padres e nos pais de santo; nos santos e nas entidades de origem africana. Ali, naquela sala, parece até uma ignorância da minha parte questionar isso.

Zé diz que uma vez o maracatu estava brincando no terreiro, todo mundo distraído. “Eu tava brincando, aí de repente meu pai caiu. Foi um trabalho que fizeram pra ele. Se a gente não tivesse levado ele logo pra Dona Biu, pra ela desfazer, ele tinha morrido ali mesmo”. Entendo que é como se duelassem sutilmente para além das lanças dos caboclos e das rimas dos mestres: há um inacreditável campo de batalha espiritual. Zé fala que maracatu só sai desmantelado se não tiver uma mãe de santo poderosa pra proteger, e volta a falar em segredo, confirmando que cada maracatu tem o seu. Neste momento, Dona Biu diz com sua voz forte: “O segredo nem ele sabe, porque o segredo está na mão de Deus, de Rei Salomão e na minha”. E encerra o assunto de uma vez por todas.

Além de Maracatu, Zé conta que sua segunda paixão é o futebol: “Na minha infância, eu jogava bola e brincava maracatu, somente”. Bota a mão no queixo e me olha querendo falar alguma coisa. Faz um suspense e dispara: “Tu é de Recife, né? Teu time de lá, qual é?”. Quando eu digo que sou do Sport, ganho um aperto de mão efusivo. “Aí sim! Quando o Sport ganha, eu chamo os meninos pra bater terno aqui na frente no terreiro!”. A partir daí, eu e Zé somos amigos do mesmo time.

A timidez ficou mais suave, e ele me contou sobre a mulher que o abandonou e foi pra Brasília, e sobre como a solidão não é uma escolha, mas uma contingência. Fala dos dois filhos: do menino de 11 que brinca maracatu feito gente grande – “Toma, painho!”, e avança em direção ao pai com a lança de caboclo; e da filha de 13 anos que já é mãe de um bebê de cinco meses. Fala que queria muito encerrar a carreira de caboclo pra virar terno: “Eu sinto aquele prazer, meu sangue quer brincar maracatu”. Conta que pro Seu João Estêvão, o pai, também era assim. Antes de morrer, pediu que mesmo que fosse num domingo de Carnaval, que ninguém deixasse de brincar. Que em último caso, o enterrasse e voltassem pro terreiro. A mãe também pediu pra que eles nunca deixassem de colocar o Cambinda pra sambar. Se depender apenas das promessas de Zé Estêvão e da força de Dona Biu, o Cambinda ainda tem muita sambada pela frente.

*Esta narrativa foi feita durante o I Encontro de Poesia Oral, em Nazaré da Mata, produzido pelo Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte. O evento foi realizado de 26 de março a 1º de abril pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult/PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

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