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A terra das mulheres que têm mão boa

Dona Maria Asa Branca bota menino no mundo e faz reza bonita (Foto: Costa Neto)

Dona Maria Asa Branca bota menino no mundo e faz reza bonita (Foto: Costa Neto)

Acompanhe como foi o II Encontro de Rezadeiras, Benzedeiras e Parteiras da Mata Norte, durante o FPNC

Por Maria Peixoto

Em Lagoa de Itaenga, Dona Maria Júlia da Conceição, de 66 anos, mais conhecida como Maria Cabocla, diz que faz reza pra tudo: “dor de cabeça, dor de ouvido, só num rezo dor de feiura”. Diz também que se ela fosse rezar todo mundo que chegasse, num tinha tempo nem pra botar o feijão no fogo: “O povo diz que é porque eu tenho a mão muito boa”. Enquanto isso, Maria Gomes de Souza, ou Maria de Dodô, de 63, me conta que um dia tava lavando roupa e chegou o irmão adoentado. Ela nunca tinha rezado ninguém, mas já tinha visto a mãe rezar, deu um chá de água doce, rezou o menino três vezes, ele ficou bom.

Essas e outras senhoras encheram ontem (4/) a sala do Centro de Juventude de Lagoa de Itaenga, no II Encontro de Rezadeiras, Benzedeiras e Parteiras da Mata Norte. Dona Maria de Dodô falou de como é importante um encontro como esse, por causa do preconceito que as rezadeiras e benzedeiras sofrem, defendendo que “oração não faz mal a ninguém”.

Maria Cabocla e Maria de Dodô explicam que não gostam de receber nada em troca pelas rezas, que o povo oferece dinheiro, bolacha. A única coisa que Dona Maria Cabocla aceita é se trouxerem um maço de vela pra Santo Expedito. Diz que “é pecado trocar a reza por dinheiro”.

Dona Maria de Dodô é tão conhecida por rezar menino que eles próprios dizem às mães: “Leva, mamãe, eu pra Maria rezar”. Ela reza as crias de casa também. O filho tava que não se aguentava, com os olhos sem poder nem abrir, “só escorrendo água”, ela foi lá, rezou, ele ficou bom. Ela reza da cabeça até as unhas do pé: “Rezo peito aberto, ventre caído, espinhela caída”. “Oiado a pessoa reza ou com um gainho de mato ou com um terço”. Diz que já rezou pra mais de 500 pessoas. Até ela mesma se benze. Contou pra mim: “Às vezes, eu tô com a casa pra limpar, os pratos pra lavar e eu sem coragem, aí eu me benzo e faço tudinho”. Faz 30 anos que Maria de Dodô é rezadeira. Quando ela se casou teve que explicar pro marido porque se dedicava tanto a isso: “Tirando a dor dos irmãozinhos, a minha diminui”. Ela conta que só pode ser dom de Deus esse seu saber, afinal, “num tem escola pra aprender isso”.

A maioria das mulheres ali tem Maria no primeiro nome. Maria de Dodô diz que essa é uma das coisas que ela mais ama, além de sua cor e de sua atividade de rezar. Outra Maria é Dona Maria Asa Branca, parteira. Ela preparou toda uma encenação pra demonstrar como fazer um parto, levou um ursinho de pelúcia, pra representar a grávida, injeção, a “placenta”. Primeiro fez uma oração bem bonita, como que pedindo as bênçãos pra criança chegar bem. Depois ia dizendo: “Desceu a placenta, agora a gente vai fazer a limpeza da barriga da mãe, agora a gente vai cortar o imbigo”…  Terminado o “parto”, a senhora completou: “Eu tenho 163 afilhados, de uns 15, pelo menos, fui eu quem cortei o imbigo”. E perguntou pras outras senhoras que assistiam aos risos: “Eu ganhei dois nenéns e em casa o meu parto foi desse jeito. No de vocês foi assim?”. Todas responderam que “sim” em coro.

O encontro terminou com um grupo musical local e os cânticos das senhoras, rezando pra São Gonçalo:

“São Gonçalo foi um santo que arrumou a fogueira
São Gonçalo, o provedor, da cultura brasileira.”

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