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A vida que se molda com as mãos

Mãos de Severino Barbosa (Foto: Ricardo Moura)

Mãos de Severino Barbosa (Foto: Ricardo Moura)

Raquel Holanda (texto) | Ricardo Moura (fotos)

É nas margens do Rio Ipojuca que o barro – ou a argila – pode ser encontrado na cidade de Caruaru. Essa matéria-prima de cor terrosa segue, no século 21, modelando os sonhos e a criatividade dos mais de 600 artesãos que vivem da arte da cerâmica no município agrestino, em especial no Alto do Moura, ainda tido como um dos mais expressivos celeiros de arte figurativa das Américas.

O barro era utilizado inicialmente apenas para fazer objetos utilitários, como panelas, copos, tigelas, pratos e vasos, mas, em 1948, a relação do Alto do Moura com a matéria-prima se modificou. Foi neste ano que Mestre Vitalino chegou à cidade e introduziu na cultura local a produção de bonecos de barro no artesanato. As influências de Vitalino para a cultura do bairro e da cidade foram muitas e ainda hoje são os bonecos do famoso mestre e de alguns de seus discípulos, como Manuel Eudócio e Zé Caboclo, que levam consigo a identidade de Caruaru e do Alto do Moura.

Artesãos oficialmente inscritos na Associação dos Artesãos em Barro e Moradores do Alto do Moura (ABMAM) são 200, mas Severino Barbosa, presidente da associação, revela que o número real é três vezes maior. Artesão há 42 anos, ele esclarece que embora o trabalho com o barro seja algo do dia a dia, o retorno com a venda das peças faz parte de um mercado sazonal. “O barro é um produto de épocas, Semana Santa e São João são festividades que aumentam nossas vendas, e nos meses de férias, como janeiro, julho e dezembro, a procura também é bem maior”, explica.

O trabalho no barro cresceu com o município de Caruaru. Para Amélia Campelo, uma das gestoras do Museu do Barro, localizado na cidade, a arte da cerâmica estimulou o desenvolvimento do município, a partir principalmente do Alto do Moura. No entanto, embora o barro faça parte da história e da cultura dos moradores da cidade, Amélia acredita que o Alto do Moura esteja fugindo de suas raízes. “Costumávamos ver cenas do cotidiano do Nordeste através das peças de barro, hoje vemos peças copiadas de outros lugares, muita coisa passou a ser repetitiva. Estamos perdendo a identidade do verdadeiro artesanato de Caruaru”, lamenta a gestora.

Diante da nova realidade, a maneira como se dão as relações com o próprio barro e com as peças surgidas a partir de sua modelagem estão se diferenciando da forma de labor cultuada pelos primeiros artesãos e seus discípulos. Hoje, alguns se dedicam exclusivamente a uma produção segmentada, como é o caso de Carlos Silva, que faz apenas o corpo de bonecas típicas de Minas Gerais, mas conhecidas em todo o País. Segundo Severino Barbosa, “essas bonecas com o cabelo de arame são as coqueluches do momento”. O artesão também revelou, com pesar, que muitos artesãos deixaram de fazer as peças tradicionais devido à procura por essas peças.

Sobre a mudança dessa relação, na qual o artesão não experimenta o processo completo da produção, Paulo Rodrigues, artesão e filho de Zé Caboclo, acredita que isso pode ser positivo. “Eu acho importante esse tipo de trabalho também, pois a procura é grande em toda parte do País. Se aumenta o número de pessoas produzindo, melhora o nosso trabalho”, comenta ele, embora acredite que, na arte com o barro, “a criatividade deve sempre ser privilegiada”.

E falando em criatividade e primor com cada movimento, seja a mão livre ou com o auxílio do torno, o concurso realizado na Fenearte (Feira Nacional de Negócios do Artesanato) é uma ação bastante cultuada pelos artesãos do Alto do Moura. “Já estamos trabalhando nas nossas peças, todos os anos sempre produzimos algo especial para este concurso voltado para a nossa criatividade com o barro”, diz Paulo Rodrigues, enquanto modela a peça que levará para a competição em julho. “A minha peça não posso revelar, apenas antecipo que estou trabalhando com a temática do centenário de Luiz Gonzaga”, completa o artesão.

Os sentidos do barro
“O valor eu dou ao barro é o valor da identidade de Caruaru, enquanto pernambucanos podemos nos reconhecer e nos mostrar através destas peças”, fala Amélia Campelo, ao reforçar que esses trabalhos são uma oportunidade de valorizar o trabalho dos artesãos. “É mostrar a grandeza do pessoal  ao Alto do Moura diante da produção artística de valor cultural inestimável”, enfatiza.

Além de ser um produto conhecido pelos caruaruenses, a tradição do artesanato com o barro também se vincula ao turismo da cidade. Para o artesão Antônio Rodrigues, o barro “é uma arte que continua sendo valorizada, apesar de muitas pessoas que estão trabalhando nela não darem o valor que merece. Às vezes, vulgarizam a arte, não se preocupando em fazer peças com qualidade e criatividade, apenas reproduzindo as já existentes”, fala Antônio, que aprendeu sua arte com o pai Zé Caboclo.

Antônio Rodrigues (Foto: Ricardo Moura)

Antônio Rodrigues (Foto: Ricardo Moura)

 

A junção do tradicional com o contemporâneo é o “segredo” usado por alguns artesãos para manter viva a paixão pela arte figurativa. “Me sinto realizado, feliz por trabalhar na arte, tanto pelo que ela representou para meu avó, Zé Caboclo, como na minha experiência de ter aprendido com ele. Eu vou mantendo viva essa cultura e é uma profissão pelo qual sou muito respeitado. É o barro que dá sentido à minha vida, e fico ainda mais feliz por ver que essa tradição está sendo continuada por minha filha Anabele, de 9 anos, que já faz suas peças em miniatura com barro”, comenta Emerson Rodrigues.

Na visão de muitos artesãos, o barro é a maneira de eles expressarem sua forma de viver, o cotidiano nordestino. Para Severino Barbosa, é uma matéria-prima que revela a própria identidade dos moradores de Caruaru: são reisados, cavalos marinhos, bumbas-meu-boi e outros elementos comuns à cultura da região.

Além de fonte de renda para grande parte dos moradores do Alto do Moura, a arte na cerâmica também é o estímulo para a mudança da própria comunidade. Morador do bairro há 64 anos, Severino Vitalino relembra as transformações que vivenciou depois do início do artesanato com o barro: “Enriqueceu o nosso povoado, antes aqui era uma região de trabalhadores da roça. Me lembro de ver muitos andando com a enxadinha nas costas. Então meu pai (Mestre Vitalino) trouxe essa alegria para o Alto do Moura, trouxe cultura. Essa arte tão maravilhosa que é hoje, que levou Pernambuco a ser conhecido pelo muito inteiro. Caruaru cresceu e agora muitos vivem da cultura. E parte desse crescimento foi por conta do boneco de barro”.

Perguntado pela nossa equipe o que sente ao trabalhar com o barro, o filho do Mestre Vitalino falou entre risadas: “Parece que eu estou brincando. Na verdade, eu estou fazendo uma obra de arte, mas eu sinto que estou brincando. Eu gosto e é algo que eu faço apaixonado desde os 7 anos. E olha que hoje eu já tenho 72”, comenta o artesão que aprendeu o ofício com seu pai. E foi com ele que também construiu sua vida: “Tudo o que eu arrumei (um pão, alimento, roupa) foi através do barro. Se hoje cheguei até aqui por conta do barro, foi ele que me possibilitou ter 13 filhos, então o barro para mim é a minha segunda mãe. O barro para mim é sagrado.”

*Esta narrativa foi feita em Caruaru, que espera a primeira edição do Festival Pernambuco Nação Cultural na cidade. O evento fica por lá até o dia 20 de maio de 2012. Caruaru está no Agreste pernambucano, a cerca de 130 km do Recife.

Severino Vitalino (Foto: Ricardo Moura)

*Esta narrativa foi feita em Caruaru, que espera a primeira edição do Festival Pernambuco Nação Cultural na cidade. O evento fica por lá até o dia 20 de maio de 2012. Caruaru está no Agreste pernambucano, a cerca de 130 km do Recife.

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