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Festival pernambuco nação cultural

Água benta em terra de chão batido

O batismo de José Rodrigo (Foto: Dani Nader)

O batismo de José Rodrigo (Foto: Dani Nader)

O batismo de dois “caboclinhos” de lança ou a alegria de Dona Maria Viúva

Chico Ludermir (texto) | Daniela Nader (fotos)*

Com o sinal da cruz, Padre João começou mais uma cerimônia de batismo. Desta vez, longe de sua paróquia. Veio do Centro de Glória do Goitá, na Zona da Mata Norte pernambucana, por um caminho escuro de terra batida até o Engenho Thomé, onde Dona Maria Viúva esperava com seus dois netos ainda pagãos. Gabriel já ia completar 15 anos, José Rodrigo já tinha 10, mas nenhum dos dois tinha recebido o primeiro sacramento, o que entristecia a avó beata.

Defronte à casa onde moram, em cima de um palanque armado, os dois meninos olhavam a pequena multidão que os observava como quem olha o vazio; como quem tá vendo desfocado por uma timidez, que os imobilizou durante toda a cerimônia. Num banquinho, Dona Maria contemplava aquilo tudo com um brilhinho no olho: aquela paisagem da qual faz parte desde pequena, rodeada pela cana-de-açúcar, de onde até hoje tira o seu sustento; aquela casa pobre, de parede descascada, de chão alaranjado de terra; os netos que criou desde que nasceram.

Vestidos com a gola do maracatu de baque solto Estrela da Tarde, Gabriel e Zé não precisaram falar para traduzir o que aquela cerimônia tinha de única. Dois “caboclinhos” de lança, símbolo da tradição da Mata Norte, recebendo as bênçãos católicas no mesmo terreiro de cultura popular onde, minutos depois, aconteceria a sambada do grupo do qual eles fazem parte desde o berço.

“Vocês querem que eles sejam batizados?”, perguntou João aos integrantes do maracatu rural, debaixo de uma lua crescente, estampada num céu quase sem nuvens. E quando todos responderam que “sim”, o pároco derramou a água benta carinhosamente na cabeça dos dois brincantes. Em seguida, num sincretismo religioso absoluto, os padrinhos Manuelzinho Salustiano e Leda Alves colocaram na cabeça dos meninos o chapéu colorido, típico do caboclo, representando um segundo batismo.

Um “Pai nosso” declamado pelos homens de chapéu na mão e as velas carregadas pelos batizados celebravam o final da cerimônia idealizada pelo próprio padre. João Parari, além de se dedicar à Igreja, também estuda o sagrado no maracatu de baque solto. Realizar o desejo de uma de suas seguidoras mais fiéis foi, ao mesmo tempo, a constatação de um diálogo intenso entre as duas tradições.

“A maioria dos meus paroquianos faz parte desta cultura e eu não posso ficar alheio. Eu tenho que me envolver com eles para dialogar. Tenho que conhecer, tenho que me apaixonar, tenho que ler, estudar, escutá-los para conhecê-los”, explica João. A paixão dele pelo maracatu é um reflexo do amor que ele tem pelo seu povo. “Eu fiquei emocionado, porque era o desejo deles de ser batizado, era o desejo de Dona Maria”.

Tão logo acabaram as rezas, sem espaço para o silêncio, o próprio padre convidou todo mundo para dançar ao som do terno do baque solto, abençoando o terreiro com uma oração Santo Anjo. Com a voz tremida dos cantadores, o mestre Natal soltou os primeiros versos da sambada daquela noite: “Muito obrigado Jesus, o Senhor é o nosso pai, é a imagem do mundo, eu estou feliz demais. Agradeço a Jesus e à Virgem Santa Maria, que me colocou no mundo para cantar poesia”, e aliviou a ânsia de muitos, loucos para começar a sambar.

Entraram os caboclos balançando o surrão e fazendo o barulho dos sinos, que tocavam nas costas, como que transportados diretamente do topo da igreja que não estava lá. Naquele chão, a poeira começou a subir com a pisada ágil dos pés dos trabalhadores do engenho.
Recém-batizado, Gabriel já tocava, no terno, a buzina feita de metal. Já Zé Rodrigo brincava de caboclo junto aos outros amigos pequenos. “Achei muito bonito, mas fiquei com muita vergonha”, contou o mais velho. O outro, de tanta timidez, só conseguiu me dizer seu nome e me mostrar um pouco da sua dança alegre de criança.

Se aos 10 anos Zé não entendia muito bem, aos 72, Dona Maria sabia demais o que estava sentindo. É lá onde ela mora há 55 anos. Foi lá que, há mais de três décadas, num Domingo de Páscoa, foi criado o seu maracatu, o Estrela da Tarde, por quatro dos seus 12 filhos, que saíram escondidos enquanto ela plantava macaxeira naquele quintal. Foi lá onde ela perdeu seu marido de uma “dor”, e deixou de ser “Maria de Antônio” para ser mais uma entre tantas “Marias Viúvas” da região. Daí em diante, passou a trabalhar seis dias na cana-de-açúcar, fizesse sol ou chuva.

“Eu vivi aqui sem conhecer nada. Somente conhecia a ‘paia da cana’. Para mim, esse momento é muito especial. Ver meus netos, que são como filhos, batizados. Eu fico muito feliz também, porque eu tenho gente na minha casa que eu pensava que nunca ia chegar: Padre João, Manuelzinho e vocês que vêm de fora me visitar. É uma alegria muito grande!”.

Dona Maria Viúva (Foto: Dani Nader)

Dona Maria Viúva (Foto: Dani Nader)

*Esta narrativa começou a ser construída na noite do dia 31 de março, durante a sambada de maracatu promovida pelo Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte, realizado de 26 de março a 1º de abril pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult/PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

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