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Amigas e rivais

Antiga foto da Banda Curica, de Goiana

Antiga foto da Banda Curica, de Goiana

Julya Vasconcelos (texto) | Costa Neto (fotos)*

O sol está a pino. Sinto a pele queimar ao longo da Rua Siqueira Campos que vai, devagar e sempre, me levando no sentido das sedes das centenárias bandas filarmônicas Curica e Saboeira, no centro de Goiana, na Mata Norte de Pernambuco. Até agora, sei apenas que a Curica foi fundada em 1848; a Saboeira somente um ano depois. As duas são consideradas as bandas filarmônicas mais antigas em atividade no País.

David vem acelerado na bicicleta à minha frente. Deve ter uns 11 anos, no máximo. Meio galego, queimado de sol. O mesmo sol, dá pra entender perfeitamente seu bronzeado. Pergunto, introduzindo com um “Ei, você da bicicleta!”, se ele mora por ali, se sabe onde ficam a Saboeira e a Curica. Me responde com um “Ãh?!”, assustado e sério. Não dá um sorriso, mas vai respondendo as coisas sem nunca me olhar, concentrado no desenho da calçada e no barulho da corrente passando pelos pneus da bicicleta. Diz que o primo e o vizinho estudam música na Saboeira, e muitas outras crianças por ali. “Eu não, mas eu gosto de olhar, é bonito demais ouvir os instrumentos” – e pela primeira vez vejo o sorriso de David, que nessa distração acelera a bicicleta na minha frente e desaparece debaixo do mesmo sol.

Até chegar à sede da Curica, minha primeira parada, sempre que perguntava sobre as bandas a alguém, a esmo, no meio da rua, essa pessoa sabia me contar alguma coisa, qualquer coisa. Não há quem não as conheça em Goiana, e não há quem não torça para uma das duas. “Eu sou Curica, minha família toda é desde que me entendo por gente”, me diz um senhor sentado numa cadeira de balanço na frente de casa. A cidade é divida entre os que torcem pela Curica e os que torcem pela Saboeira. Uma rivalidade que lembra a de times de futebol, e ocasiona discussões acaloradas nos bares e nas esquinas.

Chego à Curica. Na verdade, a uma casa paroquial, na esquina da Rua Marechal Deodoro, mais conhecida como Rua Direita. “Fique atenta, que aqui tem rua que tem nome e apelido”, me diz um senhor sentado em um dos muitos bancos de praça que há nas calçadas de Goiana, sempre com alguém jogando conversa fora. A nova sede está em reforma, me conta Edson Jr., atual presidente da banda. Júnior e Kall – o maestro desde 2005 – me convidam para sentar num daqueles bancos compridos de igreja para conversarmos. Antes de qualquer coisa, o nome. Foi assim: “Ô, Rosa! Essa música só parece dizer Curi-cá-cá, Curi-cá-cá!”. Edson Jr. me conta que essa foi essa a frase que uma tal de Dona Íria gritou à escrava Rosa, no ritmo da (estranha) polca que a banda do português José Conrado de Souza Nunes tocava em frente à sua casa, na Rua Direita.

Irmandade e rivalidade

Manoel Jr., presidente da Saboeira (Foto: Costa Neto)

Manoel Jr., presidente da Saboeira (Foto: Costa Neto)

 

“A gente ficava mirando: quem é que tá perto de morrer? Não, aquele tá muito magro, é bom um gordo, que dá pra dividir por dois.” E era assim que Kall, por volta dos 10 anos, depois de largar o violão que lhe machucava os dedos e se encantar com o som do clarinete, tentava escolher junto com os amigos um uniforme pra tocar na Banda Curica de Goiana. Ele conta que a situação era tão difícil que para se ter um instrumento e um uniforme, era necessário que outro integrante morresse. E não é que desejassem a morte de alguém. Na verdade, pontuavam de bom-humor e pulsão de vida os seus desejos de fazer música e tocar na banda mais tradicional da cidade, apesar de toda a dificuldade. “Era como uma fila do SUS. Precisava morrer alguém pra você pegar um coração”, diz Kall sem nenhum peso e o mesmo bom humor. E completa: “Muitos desistiam por falta de instrumentos”. Isso aconteceu, por exemplo, com o irmão de Kall, Manoel Jr., presidente da Saboeira desde 2009. Hoje, felizmente, a realidade é diferente. As duas bandas são Pontos de Cultura e aprovaram diversos projetos em editais públicos, o que vem dando mais estrutura para que possam desenvolver tanto o trabalho musical quanto os trabalhos sociais nas escolas de formação, que juntas formam cerca de 100 alunos por ano.

A mãe de Kall e Manoel era professora. O pai, pescador de água doce, vivia de barco pelo Rio Goiana. Eles não tinham dinheiro para comprar instrumentos para os filhos aprenderem a tocar. Apesar de irmãos, e de terem vivido a mesma realidade, eles têm histórias bem diferentes com a música, e relações distintas também com as bandas. Kall, que na verdade se chama Cláudio, é músico, clarinetista, estudou no Cemo (Centro de Educação Musical de Olinda), fez cursos na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e na UFPB (Universidade Federal da Paraíba). Manoel acabou se desvinculando da música logo cedo, mas tem uma preocupação política e social intensa à frente da Saboeira.

“Ah, Manoel Jr. é meu ex-irmão!”, diz Kall, brincando com o fato de estarem em bandas rivais. Fato que, na verdade, entrega o atual clima entre as duas bandas: irmandade. A rivalidade se mantém suave, apenas no coração dos torcedores e na busca pela superioridade musical. Mas nem sempre foi assim. No histórico de rivalidade das bandas consta até a morte de um maestro e um quebra-quebra no meio da rua, apartado pelo polícia. “Teve que sair a Curica na frente, a polícia no meio, e a Saboeira atrás”, conta Edson Jr. Ele também relembra a história do maestro da Saboeira que, motivado pelo roubo de uma música, esfaqueou o maestro da Curica.

A história, que há décadas vem sendo passada boca a boca pela cidade, é mais ou menos assim: era Festa da Conceição, na qual, tradicionalmente, a Curica costumava tocar. No entanto, houve um ano em que a Saboeira foi convidada a fazer as honras da festa. O maestro da Saboeira compôs uma peça de harmonia muito bonita, chamada “Ao fugir do luar”. Aborrecidos com o fato de a Saboeira ter sido convidada para tocar no evento, o maestro da Curica foi escondido para a praça que fica em frente à sede da banda rival para escutar a música que estava sendo executada. Ele achou que a canção estava sendo mal tocada e resolveu que iria reescrevê-la. Fez isso e colocou o irônico nome de “O luar fugiu”, incitando a ira do adversário. “Mas a rivalidade agora é só musical, e eu acho que é o que as deixa vivas”, reflete Edson Jr.
Seu Tota e a vida feita de som

Big band de Seu Tota, um dos mais antigos integrantes da Curica (Foto: Costa Neto)

Big band de Seu Tota, um dos mais antigos integrantes da Curica (Foto: Costa Neto)

Kall acha que eu deveria falar com Seu Tota, antigo clarinetista e saxofonista da Curica. Olha o relógio várias vezes: “Será que dá tempo de eu levar vocês lá na casa dele e voltar pra apresentação?”. Pensa e resolve que vamos. Entramos no seu carro e ele sai dirigindo por Goiana, rua pequenas, ruas largas, até que chegamos na Avenida do Povo.

“Seu Tota!”, grita Kall. “Tem um pessoal aqui que queria conversar com o senhor”. Seu Tota abre a porta desconfiado, abotoando uma camisa, de calça preta de linho. Me olha calado um tempo que parece uma eternidade ali do lado de fora da sua casa. De repente sorri e manda a gente entrar, sentar. A primeira coisa que faz é tirar uma foto emoldurada da parede de casa. “Quero ver se vocês sabem quem sou eu aqui na big band”. Olhamos, olhamos e arriscamos um homem moreno, de rosto redondo, umas sobrancelhas destacadas. “Mas por que esse?”, questiona. “Pelo formato do rosto”, eu digo. Nessa hora ele me olha, olha de novo pra foto e dispara um “E num é?!”. Abre a mão direita e me convida a apertá-la: “Tome cinco!”, e me aperta a mão com seus cinco dedos de músico.

Gerações da Curica se encontram: Seu Tota e Kall (Foto: Costa Neto)

Gerações da Curica se encontram: Seu Tota e Kall (Foto: Costa Neto)

 

Seu Tota, apelido de Antônio Martiniano, tem uma voz grave, bonita. Ohar bem firme, penetrante. Tem quase 90 anos e tanta firmeza parece não condizer com sua idade. Antes de entrar na casa dele, eu só sabia que era um antigo integrante da Curica. Imaginava que ele me contaria histórias, causos, coisas assim. Seu Tota não me contou nenhuma história exatamente, mas foi uma das coisas mais bonitas que pude ver e ouvir nessa passagem pela Mata Norte. Falou sobre música, amor, vida.

“Quando pequeno eu tocava tantan, batia direitinho”, me conta falando de como a música é uma arte que se precisa saber teórica e prática. “Dó-re-mi-fá-sol-lá-si-dó”, cantarola com as mãos acompanhando. “A outra é a prática. Três dedos aqui e não sei o quê. A música só é som. Eu já nasci com afinação”. Entrou na Curica com 13 anos, em 1937, pra aliar essa afinação inata ao saber teórico. Tornou-se músico de apoio, clarinetista e saxofonista. Respeitado e admirado, era sempre chamado a tocar em outras orquestras. Viajou até para Brasília em 1994 com a banda, pela Fundação Banco do Brasil. “Tocamos ‘Vassourinhas’, essas coisas todas. O povo aplaudiu muito”, relembra. Ficou na Curica até pouco tempo atrás, quando a saúde passou a lhe dar algum trabalho e teve que começar a fazer hemodiálise três vezes por semana no Recife, no Hospital Português. “Eu passei minha vida toda tocando na Curica. Quando eu toco, eu sinto alegria e responsabilidade. Eu queria, se fosse possível, que voltasse tudo pra eu ser criança de novo e voltar pra onde estou agora”. Seu Tota fala com gosto da vida. Queria que a roda girasse novamente pra viver tudo, como se tocasse mais uma vez sua música preferida. “Eu sinto saudade”.

A filha de Seu Tota me conta que há uns dois anos ele teve que se submeter a uma cirurgia de próstata. Algumas complicações o levaram à emergência e quando voltou pro quarto, imediatamente começou a cantar a plenos pulmões o frevo “Evocação Nº 1”. Seu Tota pergunta se queremos ouvi-lo cantar. Começa, com as mãos juntas, seguindo a batida da música, como um maestro: “Felinto, Pedro Salgado/ Guilherme, Fenelon/ Cadê teus blocos famosos?/ Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apôs-Fum/ Dos carnavais saudosos… pararampapã”. Enquanto canta, faz o som dos instrumentos nos intervalos da letra. “Aí isso tudo me alegra viver”, diz depois de cantar a música. “O melhor da vida é viver”, conclui com um sorriso satisfeito. Depois disso, cantou mais músicas, falou de amor, do tempo, da natureza, de Deus. “A gente ganhou da natureza 24 horas de vida. Nuca se diz não há tempo. E o tempo não é um todo”. Tirou uma foto com Dona Zezita, em frente à foto da big band na parede, e se depediu oferecendo seus cinco dedos sábios para cada um.

A segunda orquestra mais antiga do Brasil


Saio da casa de Seu Tota e volto pra Rua Direita, para sede da Saboeira. O prédio azul e branco tem uma placa grande na frente com o nome da banda. Uma escada de poucos degraus me leva pra dentro do espaço amplo, com um palco ao fundo. Manoel Jr. conversa com um rapaz no canto do palco, me pede uns minutos. Enquanto espero, ouço alto o barulho de alguns instrumentos sendo tocados. Espio da janela de uma das salas e um rapaz bem jovem bate com as baquetas nos pratos de uma bateria. Certamente um estudante da escola de formação de músicos da Saboeira. A escola já formou músicos importantes, como os Maestros Duda e Guedes Peixoto.

Manoel começa a me contar que ele, Edson Jr., Kall e Ademir Justino resolveram unir as forças e formar um grupo para defender as bandas musicais do município. “Um trabalho educacional e social que seja feito de forma justa” diz que é sua maior preocupação. É um grande apoiador da classe e das escolas de música mantidas por ambas as bandas, que formam especialmente crianças e jovens de baixa renda. “Eu não tive sorte, mas hoje eu não deixo faltar instrumentos”, me diz Manoel, ciente do seu papel de suma importância nessa história.

Na mesma noite, eu pude assistir à apresentação das bandas na sede da Saboeira, no encontro produzido pelo Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte. Manoel Jr. estava com o filho pequeno, observando os destalhes do encontro, como que concentrado em tudo. Um presidente. Kall estava elegante em um terno preto, um verdadeiro maestro , também concentrado, mas somente na música que saía dos instrumentos dos integrantes da Curica.

As bandas Saboeira e Curica apresentaram-se juntamente com a banda 28 de Julho, no dia 27 de Março, às 19h, na sede da Saboeira, em Goiana.

*Esta narrativa foi escrita durante o Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte, realizado de 26 de março a 1º de abril pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult/PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

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