Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival pernambuco nação cultural

Aprendendo a ser índio também na escola

A arte indígena é parte da grade curricular das escolas Xukuru (Foto: Ricardo Moura)

A arte indígena é parte da grade curricular das escolas Xukuru (Foto: Ricardo Moura)

Inserção da cultura indígena na escola é tema desta primeira reportagem da série “Curumins Modernos”

Por Chico Ludermir

Giovani Lima Feitosa  já observava, aos cinco anos, as artes do pai e do avô. Mesmo sem querer ou perceber, desde muito novo entrou em contato com um importante elemento de sua cultura: o artesanato. Giovani nem imaginava, mas acabaria virando professor daquilo que aprendeu sem ter que estudar. Junto a ele, estão outros 12 que se dedicam a transmitir a arte do povo Xukuru nas 42 escolas indígenas de Pesqueira.

“No passado, o artesanato era transmitido de geração para geração. Acho que todos os professores de hoje aprenderam dessa forma. Recentemente, percebemos que esse era um ponto forte da nossa identidade e que precisava ser inserido na grade escolar para fortalecer nossa cultura”, afirmou ele, que também coordena o grupo de professores.

Giovani aprendeu com o pai e o avô. Hoje é professor (Foto: Chico Ludermir)

Giovani aprendeu com o pai e o avô. Hoje é professor (Foto: Chico Ludermir)

A decisão de inserir a disciplina no currículo veio em 2003, mas partiu de discussões muito anteriores, da época em que o cacique Chicão ainda era vivo. “Ele alertava sobre a importância das escolas como local de fortalecimento da identidade indígena”, lembrou Maria Valdenice, coordenadora pedagógica. O currículo foi discutido em vários encontros e todos concordaram que era essencial repassar este conhecimento como conteúdo escolar.

Antigamente as escolas eram formadas por professores que não eram Xukuru e que, até mesmo por falta de conhecimento, ignoravam as particularidades dos índios. A partir de 1999, quando educadores das próprias aldeias foram incorporados às escolas, começou-se a discutir com os jovens histórias e características indígenas, assim como questões relacionadas à discriminação.

“A escola sempre negou a identidade indígena, por isso resolvemos inserir esses conteúdos. A nossa arte é um dos nosso fatores de diferenciação e de resgate de nossa história”, afirma Maria Valdenice.

Símbolos
As aulas de arte são sempre práticas e, nelas, se ensina a fazer vestimentas e adereços. Com a palha de coqueiro, saem das mãos o tacó – espécie de saia – e a barretina, chapéu símbolo do povo Xukuru. Da bananeira, são fabricadas as esteiras, que serviam como colchões para os mais antigos. Da madeira, o arco, a flecha e o jupago, cajado usado para marcar o som do toré. Das sementes, penas e pedras, colares e pulseiras.

A barretina, símbolo Xukuru (Foto: Chico Ludermir)

A barretina, símbolo Xukuru (Foto: Chico Ludermir)

“Esses elementos nos representam e nos fortalecem. A gente não mora em oca nem tem cabelo liso, mas a nossa identidade índia é afirmada com a nossa cultura”, afirma Giovani. Ao mesmo tempo em que ele ensina a fazer objetos concretos, também repassa elementos simbólicos. “Todo começo e final de aula, dançamos o toré para pedir força aos encantados. É do toré que vem a nossa força”, conta.

Esta estratégia, segundo Giovani e Valdenice, parece ser uma forma eficaz de conectar as crianças com a ancestralidade nos tempos de escola, televisão e Facebook. “As crianças gostam muito e sempre nos perguntam pelas próximas aulas. No começo, elas não aceitavam bem. Mas hoje a gente vê o crescimento do interesse de todos”, diz Giovani.

Diante de um sem número de crianças presentes nas aulas de artesanato do Encontro Juventude, Arte e Cultura Indígenas, pelo Festival Pernambuco Nação Cultural do Agreste Central, fica difícil saber quantos deles vão querer ser artesãos. Mas também não é este o ponto. “O objetivo não é formar artistas e, sim, trazer à tona a arte do povo Xukuru, interligada com a questão mística”, explica Valdenice.

Os mais jovens encaram como brincadeira e acabam resumindo num “gosto muito” sorridente a experiência cheia de símbolos. Geane, aos 9 anos, diz que acha fácil fazer a barretina. Aos 11, Bruno da Silva sabe que aquele “chapéu trançado” é o símbolo da sua etnia. Aos 18, Lucas Rafael já entende bem o que significam as aulas de artesanato. “Estamos aprendendo mais sobre a nossa cultura”, afirmou enquanto lixava a madeira pitiá para fazer o arco.

Lucas Rafael aprendendo a própria cultura (Foto: Chico Ludermir)

Lucas Rafael aprendendo a própria cultura (Foto: Chico Ludermir)

< voltar para home