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Festival pernambuco nação cultural

Arte do mundo de dentro

Penitenciária Juiz Plácido de Souza mostrou sua força criativa em ação realizada pelo festival

Por Chico Ludermir

Pérola dança ao som de "Se eu quiser falar com Deus" (Foto: Wilson)

Pérola dança ao som de “Se eu quiser falar com Deus” (Foto: Wilson)

“Meu nome é Jean Carlos, conhecido como Pérola. Sou homossexual. Durante uma época, minha vida foi muito louca. Coloquei uma bagagem nas costas e saí viajando pelo Brasil. Parei aqui e me reencontrei. Quando sair, estarei pronto para recomeçar”. O “aqui” ao qual Pérola se refere é a Penitenciária Juiz Plácido de Souza, onde aconteceu, na quinta (17/5), a ação “Arte nas penitenciárias”, como parte da programação de formação do Festival Pernambuco Nação Cultural em Caruaru.

Passava pouco das 14h quando os mundos de fora e de dentro do presídio se encontraram. A capela ecumênica virou palco para falas confessionais, teatro, poesia, dança e capoeira, numa tarde de muita potência. As 80 cadeiras de plástico estavam ocupadas por um misto de apreensão, respeito e cuidado mútuo. Ainda mais quando Sérgio Ricardo, conhecido como “sociólogo da favela”, dividiu experiências de sua vida.

Ao ouvir a primeira parte da vida de Sérgio, é impossível não lembrar da música de Chico Buarque “Minha história”. Filho de prostituta com um marinheiro americano, foi criado no Coque, brincando com os filhos do mítico Galeguinho do Coque, um dos responsáveis por estigmatizar o bairro como um dos mais violentos no imaginário da cidade do Recife. “Minha infância foi tensa, mas pautada na solidariedade. Ainda mais quando, aos 8 anos, minha mãe morreu e eu fiquei órfão”. Do Coque, Sérgio foi para o Ibura, bairro que também estampava as página policiais dos jornais, e aos 9 começou a trabalhar como camelô.

O sociólogo destaca dois momentos cruciais na sua vida. O primeiro quando conheceu um grupo de “intelectuais urbanos”. A partir daí, começou a se politizar e acabou entrando no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco. O segundo foi a cultura hip hop, capaz de fazê-lo reconhecer seu próprio potencial. Hoje, à frente da Associação Metropolitana de Hip Hop, faz questão de lembrar que não existe hierarquia na sua fala. “Não sou melhor do que ninguém. Meu depoimento é só uma intenção de estimular. Acredito em Deus, nos estudos e em mim. É possível inverter esse jogo e as artes estão aí como instrumento de resistência”, concluiu.

Integrante da banda Devotos, Cannibal dividiu com os reeducandos a importância das rádios comunitárias. Com o exemplo bem sucedido da rádio Alto-Falante, no Alto José do Pinho, no Recife, o músico narrou como o foi o processo de transformação das representações midiáticas da sua comunidade. “Quando a gente começou a reivindicar que os jornais subissem os morros (para reportar outras coisas que não violência), os moradores da comunidade começaram a se ver de outra forma. A se achar importantes”, narrou.

Mais do que falar, Cannibal se dispôs a ver. “Estou a fim de saber o que estão produzindo aqui dentro. Quero mostrar lá fora, porque fazer aqui é mais difícil”, pontuou. “Na vida existe muito barulho, mas transformar é um dom que todo mundo tem. O importante é caminhar”, completou.

Como que atendendo ao pedido do integrante do Devotos, os reeducandos mostraram sua arte em um espetáculo dirigido por Marcos Mercury e José Carlos, professores voluntários de dança e teatro. Com força e beleza, Levi Sibério da Silva recitou uma das poesias que escreve nos momentos da solidão. Ele já tem dois cadernos inteiros escritos em desabafos e sonha em publicá-los.

O contramestre de capoeira Tião falou do tempo que passa rápido e do prazer de fazer a arte que gosta. Em seguida, uma dupla entrou em cena cantando a música “Menino de rua” , de Osvaldo Silva, e toda a sala cantou junto, como se cada um se identificasse um pouco com os versos cantados.

“Eu tenho que ir embora! Eu tenho meus sonhos! Eu tenho meus amores!”, gritou Pérola, com o rosto contraído de dor. E, do chão, iniciou sua dança de devaneios e sonhos. Com o peito e braços abertos, coreografou em dança contemporânea uma versão de Gal Costa para a música de Gilberto Gil “Se eu quiser falar com Deus”. Depois de voar, voltou ao chão e deu lugar às apresentações de uma roda de capoeira e hip hop.

Satisfeito, o diretor executivo da Secretaria de Cultura Vinícius Carvalho afirmou que pretende repetir a ação em outros lugares. “É a primeira vez que acontece uma ação do FPNC dentro de uma penitenciária. E a gente quer levar essa ideia para outros lugares. Essa ação é mais importante do que as atrações dos grandes palcos”, afirmou. Em sintonia, a diretora da unidade, Cirlene Rocha, também se sentiu realizada. Esses depoimentos estimulam os meninos. Força e energia, eles têm demais. Não me surpreendo com as coisas boas que eles fazem”, dividiu.

*As fotos que ilustram esta reportagem foram clicadas por Wilson , reeducando da penitenciária.

 

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