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Festival pernambuco nação cultural

Caruaru, uma cidade para ouvir e cantar

Município está presente em mais de mil letras de música

Vista de Caruaru (Foto: Ricardo Moura)

Vista de Caruaru (Foto: Ricardo Moura)

Julya Vasconcelos (texto) | Ricardo Moura (fotos)

O ano é 1953, e Cauby Peixoto grava um 78 RPM com duas músicas. De um lado da pequena bolacha, está “Mulher boato”; do outro, um baião chamado “Caruaru”. A música de Belmiro Barrela na voz de Cauby é a gravação mais antiga sobre a cidade de que se tem notícia. A música foi um grande sucesso nacional, e em 1958 foi regravada por Dalva de Oliveira, no disco “Dalva”. Um pouco mais tarde também por Clóvis Pereira e vários outros intérpretes.

Emanuel de Souza Leite, o famoso Dr. Leite, vestido de branco da cabeça aos pés, me mostra o disco. A capa verde musgo meio rasgada me dá a sensação de que o encarte pode se desmanchar entre os meus dedos. O vinil pesado do pequeno 78 RPM impressiona. Um som sujo de vinil começa a sair da radiola, e o baião orquestrado na voz impostada de Cauby tem uma letra romântica, embalada por um coral de vozes femininas. A sala de Dr. Leite é tomada por um clima de baile dos anos 1950, e nosso passeio começa.

“Foi num belo dia de verão
Que eu perdi meu coração
Foi numa cidade do Sertão
Que guardo na recordação
Caruaru, Caruaru
A princesinha do norte és tu” (escute aqui)

“Caruaru é uma palavra doce”, diz Dr. Leite, no meio da escada da sua casa, no bairro de Maurício de Nassau. “Ela abre pra poesia, pra literatura, pra música, pra tudo”. Subindo os degraus chegamos a uma varanda grande, com uma vista ampla de Caruaru. Prédios, antenas, construções e uma certa aridez de metrópole…

Procuramos um fundo bonito, com aquela ideia romântica da cidade agrestina por detrás, para fazer uma foto do Dr. Leite segurando o vinil de Cauby. Mas Caruaru mudou. Hoje em dia, tem ares de cidade grande, embora conviva ainda com características fortes do interior. Avenidas e bandas de pífano; arranha-céus e mazurca no Alto do Moura; shopping centers e fogueiras de São João. É como se coexistissem diferentes temporalidades no mesmo espaço da pequena cidade grande de mais de 300 mil habitantes.

Dr. Leite é um dos fundadores da Academia Caruaruense de Letras, um pensador de projetos de resgate da memória da cidade. “Caruaru não tem sua história contada direito, me sinto na obrigação de resgatar”, defende, justificando seu afã de catalogar músicas, fotos, livros e tudo relacionado à cidade.

Apesar de ter nascido em Capina Grande, ele pensa, age e sente como um homem de Caruaru, profundamente ligado à vida do município. Foi com esse ímpeto que, lá pelos idos dos anos de 1980, Dr. Leite começou um desses projetos, por conta própria, sem qualquer incentivo: catalogar todas as músicas que falam de Caruaru.

Dr. Leite (Foto: Ricardo Moura)

Dr. Leite (Foto: Ricardo Moura)

De tudo o que há no mundo lá tem
Muita gente já ouviu, quase todo nordestino sabe de cor. Se há uma música que é o grande clássico da cidade, ela é o forró de Onildo Almeida, gravado em 1957 por Luiz Gonzaga. “É o hino de Caruaru! Ela tinha que ser tocada, na minha opinião, feito orquestra sinfônica. Ia ser lindo”, imagina Dr. Leite com um sorriso de quem teve mais uma ideia maravilhosa.

Dr. Leite tenta me explicar por que a cidade é fonte de tanta inspiração. Quando começa a responder, seu pensamento chega imediatamente na feira, sem que fique muito claro o que o levou até ali. “A feira é o maior supermercado ao ar livre do matuto do mundo!”, vai contando. Diz que não se sabe muito bem se primeiro veio a feira ou a cidade. E depois vai tentando falar sobre essa mistura toda, cuja maior alegoria é a própria feira, que faz de Caruaru uma cidade tão inspiradora, tão evocada e cantada no Brasil inteiro. “De tudo o que há no mundo” Caruaru tem. “É muita cultura. Bacamarteiro, pé-de-serra, repentista, coco, feira, comida gigante, turista alemão conversando com matuto, fumando um cigarro de pacaia bem vagabundo”, define Dr. Leite.

Em seguida, ele se lembra da música “Capital do Agreste”, também de Onildo Almeida gravada por Gonzagão. A canção é um verdadeiro resgate histórico, cheio de paixão:

“Da fazenda Cururu, povoado se tornou
Foi crescendo, foi crescendo
E a vila logo chegou
João Vieira de Melo, Coronel cabra da peste
Da vila fez a cidade, hoje Capital do Agreste
Ó cidade encantadora, terra do major Dandinho
Neco Porto, João Guilherme, do saudoso Vigarinho
O progresso foi tão grande, tudo, tudo evoluiu
Tens escolas, tens abrigos, também hospital infantil
As igrejas são tão lindas, habitantes mais de cem mil
Pedaço de Pernambuco, orgulho do meu Brasil”.

(escute as duas músicas do disco de Luiz Gonzaga de 1957 aqui)

Os Beatles de Caruaru e as zabumbas, tantãs e pandeiros do Rio de Janeiro
“E aqui a gente tem os Beatles. Sabe os Beatles? Acho que você não conhece não, não é da sua época”, diz Dr. Leite enquanto esboça um sorriso. Os Beatles de Caruaru é a banda de pífano. A música “Forrozear”, de Gilberto Gil, é que começou com essa história de comparar os quintetos. “No apertar da hora/ Periferia de Caruaru/ Onde moravam os Beatles/ Os Beatles de Caruaru/ Sebastião Biano/ Banda de Pífano agreste azul”. A Banda de Pífanos canta e é cantada na pequena amostra de músicas que Dr. Leite me mostrou. Nascida em 1924, é um dos grandes símbolos da cidade.

Até no Rio de Janeiro, no meio da avenida, em ritmo de samba enredo, Caruaru já foi cantada. O samba “Terra de Caruaru”, de Jamelão, fez a Estácio de Sá campeã do Carnaval carioca de 1970:

““Em Pernambuco, na terra de Caruaru
Berço de tantas tradições
Do frevo e maracatu
Os violeiros, cancioneiros
Zabumbas, tantãs e pandeiros
Uma canção e sanfoneiros
Pregoeiros na feira
Viajantes caixeiros
Negros trabalhavam
Na colheita do algodão
Filhos de pioneiros estudavam
Para o progresso da nação
Na casa grande da fazenda
Igreja da Conceição”, canta Jamelão com a voz grave de puxador de samba (escute aqui)

Banda de pífanos no barro (Foto: Ricardo Moura)

Banda de pífanos no barro (Foto: Ricardo Moura)

 

Cidade recorde

Gilberto Gil, Arnaud  Rodrigues, Jamelão, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Elba Ramalho, Luiz Gonzaga, Geraldo Azevedo, Azulão, Quinteto Violado, Capiba, além de um sem número de bandas de forró, xote, baião e toda sorte de ritmos cantam a capital do Agreste pernambucano. Vitalino, a banda de pífanos, a feira, o antigo Night Club, o forró, a própria cidade e, sobretudo, o São João são temas mencionados no repertório sobre Caruaru.

Dr. Leite tem quase 30 pessoas trabalhando com ele. Vendedores de discos antigos espalhados pelo Nordeste, que ele chama carinhosamente de pesquisadores. Me mostrou vários CDs marcados com caneta, apontando para as músicas que falam de Caruaru.

“Não para de chegar música, acho que vamos passar as 1.500”, me revela. “Nós vamos entrar pro livro dos recordes internacional. Provavelmente, terão que abrir uma nova categoria pra gente”, diz Dr. Leite, sem disfarçar certo orgulho e empolgação. Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Nova Iorque? “Ninguém bate o nosso recorde, não”. E coloca por último a música de que mais gosta, “Caruaru, azul palavra”, que escuta repetidas vezes. Pra Dr. Leite, Caruaru é doce, azul e cheia de memória.

*Narrativa produzida em Caruaru, que comemora hoje, no dia 18 de maio de 2012, 155 anos de emancipação política com muita cultura e história. A cidade recebe o Festival Pernambuco Nação Cultural pela primeira vez, até o dia 20/5.

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