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Clayton Barros na estrada

Ex-violonista do Cordel do Fogo Encantando lança no FPNC CD de sua nova banda (Foto: Divulgação)

Ex-violonista do Cordel do Fogo Encantando lança no FPNC CD de sua nova banda (Foto: Divulgação)

Por Chico Ludermir

Dois anos e meio depois do final do grupo Cordel do Fogo Encantado, o violonista da banda, Clayton Barros, está de volta à estrada. Confiante, sai do casulo após uma espera cuidadosa, e lança o primeiro CD com a sua nova banda, Os Sertões. Acompanham o músico nesse projeto Deco Trombone (sopro), Rafael Duarte (voz e baixo) e Pernalonga (bateria). O álbum de estreia d’Os Sertões, “A Idade do Metais”, apresenta um Clayton vocalista e compositor. Uma reelaboração que exigiu dedicação de, às vezes, 12 horas diárias e uma força sertaneja, que, não por acaso, deu mote para o nome da banda. O violão flamenco, com batidas fortes, só se percebe na música “Cavaleiros da Ordem do Deserto”, trazida dos tempos da antiga banda. Nas demais, há uma ode aos instrumentos de sopro, em um disco híbrido que passa pelo dub, bolero, rock, western e funk. No próximo dia 17/8, Clayton chega a Pesqueira para apresentar, pela primeira vez  no estado, o seu novo trabalho no Festival Pernambuco Nação Cultural do Agreste Central. Leia abaixo conversa com o blog FPNC.org sobre a nova fase. “Estou saindo de um processo de ansiedade muito grande. Estava há dois anos querendo voltar aos palcos”, confessa.

FPNC.org: Em que momento surge a ideia desta banda?
Clayton Barros: A gente já vem tocando junto faz quatro anos. Eu, Deco Trombone, Pernalonga e Rafael Duarte. Começamos a ensaiar no Recife enquanto o Cordel (do Fogo Encantado) ainda rolava. Quando o Cordel estava planejando o novo disco (o quarto álbum), convidei Deco e Rafael, mas o disco não veio. Esse tempo em que a gente criou juntos nos deu mais intimidade. Assim que o Cordel acabou (em fevereiro de 2010), uns dois meses depois, a gente já começou a conversar sobre esse novo projeto, a ensaiar. Sempre acreditando que ia dar certo para superar o fim com um recomeço.

FPNC.org: Quando a banda começou de fato?
Clayton: Passei dois meses no interior e, quando cheguei no Recife, em abril, quis me reelaborar. Me juntei com eles com quem eu já tinha entendimento musical. A gente fez um laboratório intenso. Dia 26 de junho de 2010 nos apresentamos pela primeira vez, no São João de Arcoverde. E eu já estava muito a fim de voltar para o palco. Estava habituado a uma rotina de no mínimo quatro shows por mês e sentia muita falta do palco. Entrei num processo de criação com esse pessoal e o show foi o primeiro passo para pensar no CD. A gente estreou com a banda, não com o disco. E a primeira recepção foi muito boa. Movimentou muita gente e nos deu confiança para seguir. Daí surge a necessidade de gravar o single (“Do zero”), que foi gravado no Recife e masterizado um mês depois do show.

FPNC.org: O CD está sendo lançado este mês…
Clayton: A gente já tinha o single e fez um coquetel de lançamento da banda. Houve um certo bochicho, mas a gente saiu de cena. Parou de fazer show e entrou em estúdio. O disco teve um processo longo de gravação. A gente fazia arranjos em casa e entrava em estúdio já sabendo o que queria. Foi tudo muito bem pensado. O disco levou esse tempo todo por causa desse processo delicado de aprimoramento.

FPNC.org: De onde veio o nome Os Sertões? Que sertão é esse?
Clayton: O nome quem deu foi o empresário da banda, Eduardo Pereira. Quando ele sugeriu, eu lembrei de “O sertanejo é antes de tudo um forte” (frase do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha). E era isso. A gente não baixou a cabeça naquele momento e fomos buscar o nosso espaço. Eu já tinha a filosofia de que o Sertão não é só um lugar no Nordeste do Brasil. Existem vários sertões. Não é só uma visão geográfica. Acredito que cada um carrega dentro de si esse lugar que não sabe que cara tem, que som que tem. O nome veio a calhar também, porque resolve a coisa da diversidade daquilo que cada um desbrava dentro de si. A gente nunca quis mostrar esse Sertão caricato: chão rachado, gado morto, ossada de boi que a própria mídia insiste. A gente tem que saber como é e como pode ser. As pessoas tangem boi de moto. O Sertão caricato não existe mais. Tudo se transforma. A cultura não precisa ser levada ao médico, porque ela se transforma e se adequa. O Sertão que a gente quer mostrar é mais cinematográfico. Guimarães Rosa e “bang bang”.

FPNC.org: Se comparado ao que você fazia no Cordel, percebemos uma mudança no seu estilo de tocar o violão. Como foi essa mudança?
Clayton: A princípio, o violão estaria em evidência gigantesca, mas percebemos que o disco era muito sopro. Por isso mesmo o álbum se chama “A Idade dos Metais”. E eu não quis pegar o violão do Cordel e repetir. Eu sou líquido, me encaixo e me adapto. Nesse disco, eu achei legal mostrar um outro lado que não era mostrado. Eu queria somar e não fazer mais do mesmo. Em Os Sertões tem muito dedilhado e batidas que eu não trabalhava no Cordel. Mas não deixo de lado minhas referências antigas. Por isso que eu coloquei a “Cavaleiros da Ordem do Deserto” (que já tocava na banda antiga). A mão direita flamenca ainda é presente no show, que é bem mais pesado que o disco. No show vem mais a ranhura. O CD é mais cristalino.

FPNC.org: E o “A Idade dos Metais” (título do CD), o que significa para a banda?
Clayton: Somos nós reelaborando as ferramentas para um próximo passo. É uma ode aos instrumentos de sopro ao mesmo tempo que uma etapa de evolução nossa. Esse é um disco mais harmônico e melódico, o que não estava explícito no Cordel. Mostramos outro espaço. O metal é o grande fio condutor. Une a sonoridade da banda.

FPNC.org: Como você define essa nova musicalidade?
Clayton: O disco é híbrido. Passa pelo ska, dub, bolero, rock, western, funk. Eu fui músico de bar e quando eu componho vem muito dessa escola. Eu tocava hits para as pessoas cantarem. Esse CD mistura muitos estilos, referências e influências. A gente fez duas versões: uma de Les Baxter, “Wheels”, uma música que eu tive vontade que fosse minha, e a de Zé Ramalho, “Galope rasante”, que tem ao mesmo tempo a simbologia da voz e violão da noite, e do reerguer-se. “Debaixo de sete pedras, querendo me levantar”. Dá injeção de ânimo e de um olhar pra frente. A banda e a turnê são fruto de muito empenho nosso. Muito planejamento e muito ensaio.

FPNC.org: E as referências?
Clayton: A gente escuta muita Moacir Santos, o disco “Coisas”. Gostamos também das “big bands” (grandes grupos de jazz) e Mulatu Astatke.

FPNC.org: O que esse novo projeto te possibilitou em termos criativos? As músicas são quase todas suas e você vem como vocalista principal…
Clayton: Eu estava sem escrever havia muito tempo, porque a minha função no Cordel era mais melódica. Eu sempre gostei muito do que Lirinha escrevia. E aí o meu eu compositor estava adormecido. A criação desse repertório foi de muito trabalho. Não pude esperar por inspiração. Eu tinha uma meta. Começava de manhã com o violão ali do lado. Passava o dia inteiro, às vezes 12 horas trabalhando na criação desse repertório. Abril e maio de 2010 formam meses cruciais. Quanto ao vocal, eu também cantava no Cordel. Foi uma redescoberta. É muito momento muito bom pra mim. É uma tremenda responsabilidade de guiar um projeto coletivo. Uma pessoa tem que falar por todas. Generalizar, como estou fazendo, falando pela banda. A ideia é muito coletiva, de muito diálogo, principalmente musical. Está sendo um aprendizado. É pegar referência do passado de voz e violão e usar com a banda. Está sendo muito desafiador e ao mesmo tempo divertido.

FPNC.org: O show de Pesqueira será um dos primeiros depois do lançamento do CD. O que vocês vão levar?
Clayton: Vamos levar um show multimídia, com VJ, luzes de LED… A gente vem com a ideia do retrô, também presente na capa do álbum. Tocaremos todas as músicas do CD e duas do Cordel, e uma do meu projeto infantil (Outros Planetas). Provavelmente levaremos alguns convidados especiais.

FPNC: Qual é a sua relação com a cidade?
Clayton: Já fui a encontro de jovens em Pesqueira na infância e tenho uma ligação muito forte com os índios Xucuru. Sempre fui partidário das causas deles. Este ano, meu Carnaval foi em Pesqueira e foi muito bonito ver os blocos de rua desfilando. Tenho uma sobrinha que mora em Pesqueira e tem muita gente instigando pra ir pro show.

FPNC.org: Você dividirá palco com China e Lenine, dois outros artistas da terra…
Clayton: Sou fã de Lenine e de China. Tenho o disco deles e tenho muito respeito por eles. Vai ser uma noite muito bonita. China com disco novo, a gente lançando Os Sertões, Lenine com disco Chão, cheio de sentimento. O Brasil é grande exemplo. Não gosto do bairrismo. A gente deve comemorar as pessoas da terra e de fora. Eu carrego muito essa hospitalidade na minha música também. Coleciono coisas e pessoas queridas.

FPNC.org: Como você está se sentindo neste momento?
Clayton: Eu saí de um processo de ansiedade forte. Dois anos querendo voltar pra estrada. Esse seria meu suicídio. Seguramos a onda de construir a criatura, que era o disco, e fizemos da melhor forma, sem mandar mensagens pela metade. Meu momento é de muita felicidade e confiança. As coisas começam a repercutir na hora certa. Sempre fui cuidadoso com o momento. Estou em atividade total. Passei muito tempo no casulo. Saímos desse momento agora. Estamos num momento de botar o pé na estrada. Era o que eu queria desde muito tempo. Ainda bem que agente soube esperar.

 

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