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De como fazer arte desmanchando carretéis

Na comunidade de Jenipapo, há pelo menos uma rendeira em cada morada (Foto: Chico Ludermir)

Na comunidade de Jenipapo, há pelo menos uma rendeira em cada morada (Foto: Chico Ludermir)

E sobre como rendeiras que tiram das mãos um trabalho raro, que está na sina e na vocação de Sanharó

Por Julya Vasconcelos

Na garupa da moto de Alberis, numa manhã meio fria e ensolarada, enfrento 20 km de uma estrada de barro que sai do Centro de Sanharó, no Agreste Central de Pernambuco, e adentra a zona rural, cruzando os povoados de Água Branca e Mulungu, em direção à Vila de Jenipapo. De um lado e do outro da estrada, através do enquadramento que me permite o capacete, vejo um terreno inconstante, cheio de altos e baixos, além de algumas árvores. Gramados extensos com bois e vacas de diversas cores e tamanhos. Às vezes, parecem pontinhos negros sobre a grama; outras, são bichos enormes, encostados numa cerca à beira da estrada. Sanharó é a terra do leite, e isso é evidente em cada canto da cidade, que propaga sua fama com estátuas de barro ou gravuras de gado. Mas ela é também a terra de rendeiras, e isso só se vai sabendo aos poucos.

Segundo a Diretora de Cultura, Socorro Costa, a cidade tem mais de 1.200 rendeiras, espalhadas pelas comunidades de Barriguda, Jenipapo, Milho Brando, Sítio São João, Viramundo, Água Branca, entre outras. É possível andar pela região e, com grande frequência, deparar-se com uma mulher sentada na calçada de casa segurando sobre o colo uma almofada forrada com um papel vegetal todo desenhado de caneta, seguindo com agulha e linha flores e caracóis, que dão origem a uma das coisas mais delicadas que eu já vi.

Chegamos em Jenipapo perto das 11 horas da manhã. Fundada há 206 anos, a comunidade é de uma beleza estonteante. Me demoro alguns minutos na entrada da vila, que revela, de imediato, um conjunto de casas e uma mercearia antiga. As ruas de moradas de linhas simples, calçadas desiguais e ladeiras de paralelepípedos casam perfeitamente com a pequena Igreja de Santo Antônio e o opulento casarão que foi habitado pelo fundador português Antônio dos Santos Coelho da Silva. O céu azul, que pode ser visto sem dificuldades da entrada da comunidade até o horizonte, faz par com o verde meio puxado pro mel dos olhos de muitos dos habitantes. Assim são os olhos de Cida, de 38 anos.

Cida,de Jenipapo, faz renda desde os 9 anos (Foto: Chico Ludermir)

Cida,de Jenipapo, faz renda desde os 9 anos (Foto: Chico Ludermir)

 

“Mas tu sabe como é linha de renascença, né?”, me pergunta assim que entro na sua casa, na Rua Barão de Vilabela. A minha negativa a faz correr por dentro de casa em busca de um “tubo”. Os tubos são os carretéis de linha de algodão utilizados pelas rendeiras. Um pequeno tem 10 metros, e geralmente é fabricado em Poção, que, segundo as rendeiras com as quais conversei, é o berço da renda em Pernambuco. A técnica chegou ao Brasil pelas mãos dos colonizadores portugueses e foi durante muito tempo ensinada em conventos. Dizem que em Poção, uma senhora chamada Maria Pastora, que até hoje é homenageada em algumas embalagens dos carretéis fabricados por lá, foi a responsável por disseminar a atividade. De lá, a tradição tomou o Agreste Central pernambucano e, por consequência, Sanharó.

Cida vem com tubos, algumas peças prontas, agulha, riscados. Tudo em uma sacola branca. Senta no sofá ao meu lado, sempre com os olhos verdes bem vivos e um humor meio ácido. Começa a me pedir atenção. Olho atentamente, segundo a sua instrução, pra sua calça azul clara, na altura da coxa. Começa a fazer um ponto na própria calça, pra me mostrar como é que se faz renda. “Aí a gente puxa até embaixo, aí puxa, enrola, fecha ela bem fechadinha. Aí é por isso que leva tempo, viu? Depois que você aprende os normais, aí é que você vai aprender os difíceis. Esse é o ponto da malha, um dos mais difíceis”, ensina Cida. Ela me diz que na renascença há muitos pontos diferentes: dois amarrados com pipoca, abacaxi de torre e de dois, traça, aranha tecida, lua, vassourinha, caramujo, escama de peixe, amor seguro. Tem também a cianinha, que é a primeira a ser aprendida por qualquer menina de Jenipapo. “É o ponto mais fácil que tem. Toda vez que a gente vai aprender começa por ela. Aí a mãe da gente ensina cianinha, depois é que vêm os outros pontos. É por etapa. Renascença vai aprendendo ponto por ponto. Você não aprende renascença da noite pro dia de jeito nenhum!”, alerta Cida, que aprendeu a arte com a mãe, assim como acontece com absolutamente todas as mulheres rendeiras da região.

“Mas se você quiser ver uma renda bonita mesmo, bem feita, você vai na Rua José Cisneiros e pergunta: onde é a casa de Santina? É só virar à esquerda no orelhão”. Vou em busca de Dona Santina, uma das rendeiras de renascença mais talentosas de Jenipapo.


Perfeição e paciência

Costume local: Dona Santina e outra rendeira costurando na frente de casa (Foto: Chico Ludermir)

Costume local: Dona Santina e outra rendeira costurando na frente de casa (Foto: Chico Ludermir)

“Eu sentava no chão, num cantinho ou num tamborete, e ela ia me ensinando. Os pontos mesmo que minha mãe me ensinou foram cianinha, dois amarrados, vassourinha e laço de amor. O resto eu aprendi, porque vi as outras meninas fazendo”, me conta a sorridente Dona Santina.

Sua casa fica numa espécie de reduto das rendeiras de Jenipapo. Lá, em cada morada, há pelo menos uma mulher que trabalha com renascença. Pouco antes de encontrá-la, logo no começo da rua, pergunto a uma menina de uns 11 anos onde Dona Santina mora. Valquíria me olha meio curiosa e me aponta uma senhora morena, vestida de branco, sentada na calçada às gargalhadas, empunhando uma daquelas almofadas que eu já tinha visto de longe por ali. Antes de subir a ladeira em direção a Dona Santina, Valquíria me diz que também faz renda, assim como as outras meninas que brincavam na rua. Em Jenipapo, a renascença parece ser uma sina feminina.

Santina é sorridente e parece se realizar diante daquela almofada cheia de desenhos. “Eu gosto, mulher. Eu gosto de fazer, porque é a minha profissão. Se eu disser que sei fazer outra coisa, é mentira”, diz a rendeira de 54 anos, nascida em Poção. Ensina que não é simples viver de renda, e que a sua “linha de produção” não é tão simples quanto parece. Há quem venda apenas os riscados, os tais papéis vegetais desenhados com caneta, com os traçados bonitos que dão origem ao rendado. Há os atravessadores, que compram as rendas baratas diretamente com as rendeiras e revendem por valores altíssimos para grifes do Brasil inteiro. Também tem grupos de rendeiras que vão fazendo em conjunto uma peça, cada uma fazendo um tipo de ponto. “Não é uma vida fácil não, mulher”, lamenta ainda com um sorriso.

Santina me mostra uma camiseta semipronta, toda de renascença, linda, na qual está trabalhando há quase um mês. Diz que vai vendê-la em Pesqueira, mas não sabe quanto vão querer pagar por ela. Me mostra a perfeição das traças, um dos pontos mais delicados da renascença. Diz que pra ser uma boa rendeira é preciso sobretudo paciência e perfeição. Selma, outra rendeira mais jovem que chega à sua casa pra conversar conosco, também diz o mesmo. Cida, mais cedo, havia me falado algo parecido. Algo como “uma das maiores características da renascença é a perfeição”. Talvez tenha falado de inteligência também. A arte das rendeiras pernambucanas é rara, apreciada tanto dentro quanto fora do País, mas ainda refém de um mercado que acaba por explorar exatamente o lado mais precioso dessa cadeia: essas artistas delicadas que tecem metros e mais metros de tubos de linha de algodão, todos os dias, criando um trabalho artesanal dos mais refinados.

(Foto: Chico Ludermir)

(Foto: Chico Ludermir)

*Narrativa produzida pela ocasião do Festival Pernambuco Nação Cultural do Agreste Central, realizado em Pesqueira e mais seis cidades da região, incluindo Sanharó, que recebe no sábado (18/8) uma roda de diálogo com as rendeiras.

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