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Festival pernambuco nação cultural

De dentro da memória para dentro da câmera

Julya Vasconcelos (texto) | Roberta Guimarães (fotos)

Ouvir as pessoas e transformar aquilo que estava guardado e empoeirado apenas dentro das memórias pessoais em documento. É isso o que o projeto PE na Memória pretende fazer. Ao longo de todos os Festivais Pernambuco Nação Cultural, uma equipe percorre casas, praças, igrejas, mercados e toda sorte de lugares que possam ter alguém para falar sobre a cidade. Idealizado pela Diretoria de Preservação e Patrimônio Cultural da Fundarpe, o projeto vai reunir, em um produto final, uma amostra da história de Pernambuco, contada, como que num grande mosaico, por seus próprios habitantes.

Nessa sexta-feira (25/5), em Verdejante (Sertão Central), Seu Mariano, Antenor e Paulo Cabeleireiro falaram para a câmera do PE na Memória, reunidos na budega de Seu Mariano.

Conheça aqui um pouco da história de cada um deles.

Seu Mariano do “aio” e a vaca de óculos verdes

Seu Mariano do balcão da sua budega em Verdejante (Foto: Roberta Guimarães)

Seu Mariano do balcão da sua budega em Verdejante (Foto: Roberta Guimarães)

“Brigado, Dimas. Deus te ajude e Deus te abençoe, que nunca falte”. Dimas senta na cadeira com um garrafa de cerveja gelada que acaba de pegar na geladeira vermelha e pagar ao Seu Mariano, mais conhecido no município de Verdejante como Mariano do “aio”, porque vende tempero, cebola e, obviamente, “aio”, na sua budega desde 1991. Do lado direito do estabelecimento, por detrás do balcão, várias prateleiras compõem uma “parede” de cajuínas São Geraldo, vindas diretamente do Ceará. Do lado oposto, apenas cachaça Pitú, que, segundo seu Mariano, é o que mais vende ali.  Cordões grossos e redinhas amarelas de guardar frutas e verduras pendem da parede do estabelecimento.

Nascido em 20 de abril de 1936, Mariano José da Silva conta que era agricultor e plantava milho, feijão, algodão e cebola no sítio Oiticica, a 4km dali, onde nasceu e mora até hoje. E diz que se lembra da cidade bem antiga, “sem nenhuma pedra de calçamento”. “E hoje, na idade alta que já estou, já vi muita coisa boa e já vi muita coisa ruim. Agora vejo a cidade toda organizada, toda bem calçada. Quando chovia descia água desse lado, descia do outro, toda nas valetas. Quase três rios desciam por aqui”, conta relembrando o seu município antes da urbanização.

Mas Seu Mariano se revela mesmo quando pedem pra ele contar uma história da cidade: “História assim eu não sei, não, mas história de anedota eu sei um monte”. O senhor forte, de pele clara e chapéu preto, tem um caderno com os títulos de mais de 60 histórias. Uma delas é a da vaca de óculos verdes, que conta os estudos de Seu Mariano para criar umas lentes que fizessem com que todas as vacas enxergassem tudo em volta verdinho, mesmo durante a seca. “Foi na seca de 2002 a 2003, aí acabou toda a palha verde, toda a verdura, não tinha o que o gado comer. Com os óculos, tudo o que a vaca olhava na terra era verdinho, e podia ser a folha que fosse no chão que ela via verde”.

Seu Mariano diz que enquanto está contando as história se esquece de tudo, dos problemas da seca, de falar da vida dos outros. Começou a contar em 1960, quando houve uma seca violenta. “No ano seco, é preciso muita viração pra um pai de família. Ele tem que ser caçador, trabalhador e vivedor. É muito difícil”. E assim começou a criar suas ficções, pra distrair a si e aos outros.

Paulo Cabeleireiro e Verdejante em torno da santa

O salão de Paulo Cabeleireiro (Foto: Roberta Guimarães)

O salão de Paulo Cabeleireiro (Foto: Roberta Guimarães)

Perto da budega de Mariano do “aio”, tem o salão de Paulo Pereira. Visto assim de avental, tesoura em punho, concentrado aparando os cabelos dos homens de Verdejante, ninguém diz que Paulo é poeta com três livros escritos. Além disso, o cabeleireiro-escritor sabe muito sobre a rota do cangaço e a missa do vaqueiro. Tem um longo poema que conta a história de como o Coronel de Verdejante, Davi Jacinto, foi sequestrado por Lampião, em maio de 1926:

“Em 9 de maio de 26
Por aqui passou Lampião
Com cerca de 100 bandoleiros
Que faziam sua proteção
Preferia os fazendeiros
Atrás de água e dinheiro
Alimento e munição”

“Antes Verdejante era só mato”, conta. E diz que por volta de 1917, Padre Manoel Firmino, por conta da devoção de Dona Joaninha, esposa de Davi Jacinto, à Nossa Senhora da Conceição, deu a ideia de construir uma capela. E a partir daí “foram fazendo uma casa, outra, e mais outra, até que foi nascendo a vila, o distrito, a cidade”, tudo em torno da devoção à santa, que também é a padroeira dos vaqueiros.

A pressa de um mazurqueiro

Seu Antenor da mazurca (Foto: Roberta Guimarães)

Seu Antenor da mazurca (Foto: Roberta Guimarães)

Seu Antenor está apressado. Precisa sair pra ensaiar com a mazurca que se apresenta no dia seguinte, ali mesmo em Verdejante, no festival. Dá um depoimento rápido, dois minutos, e sai como um raio da budega de Seu Mariano, para viver a tradição em vez de contá-la. Mas antes da fuga, diz que quando era jovem todo mundo dançava mazurca, e que hoje em dia ninguém sabe o que é. “Aí agora, depois de velho, o pessoal pede pro sanfoneiro tocar mazurca e aí a gente dança”, conta e sai se despedindo, tirando as cadeiras do caminho até alcançar a Rua José Matias Magalhães.

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