Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival pernambuco nação cultural

De volta ao lugar de origem

A coquista Severina Lopes honrou, no local onde foi criada, a sua linhagem familiar (Foto: Daniela Nader)

A coquista Severina Lopes honrou, no local onde foi criada, a sua linhagem familiar (Foto: Daniela Nader)

Por Olívia Mindêlo

Diferentes gerações de samba de coco de Arcoverde se reuniram ontem em São Miguel, berço do ritmo na cidade

“Foi aqui que eu nasci e é aqui onde eu estou”. Enraizada no chão, a frase saiu firme da garganta da coquista Severina Lopes, como se buscasse, a uma só voz, resumir o sentido do tablado de cultura popular montado pelo Festival Pernambuco Nação Cultural no bairro São Miguel, periferia de Arcoverde. Poucos sabem, mas foi lá que, batendo os pés no chão, a cidade nasceu para o mundo, na porta do Sertão pernambucano.

Voltemos ao começo. No bairro morava a família de Severina, cujo irmão, Ivo Lopes, foi responsável por criar, nos anos 1940-50, o primeiro grupo de samba de coco do município. Este mesmo ritmo que depois viria a impulsionar a criação de nomes como o do Samba de Coco Raízes de Arcoverde, cujo trabalho vem chamando os olhos de fora, desde os anos 1990-2000, para olhar o que tem de bom aqui. Bom de ouvir e dançar. Ivo Lopes morreu, mas as sambadas continuram. E não tardou para que as batidas fortes do trupé, sapateado feito com tamanco de madeiras típico deste coco, contagiasse novos públicos e artistas por aí afora.

Hoje, o samba de coco é símbolo de Arcoverde. E passar por aqui sem ver e ouvir o som do trupé é como dar viagem perdida. Quem veio ao festival não deu. Ontem, o bairro São Miguel parecia entender bem isso, mesmo não sendo conhecido hoje como “o local do coco” – depois da fama do Raízes de Arcoverde, foi o Alto do Cruzeiro que adquiriu esse status. Ainda assim, estavam todos lá, com um orgulho de praça cheia em dia festa. “Eu praticamente nasci aqui, como vou deixar que este bairro morra? Vou brigar por este ponto, a gente precisa manter a tradição”, disse com convicção o coquista Cícero Gomes, que, diferente de Severina Lopes, ainda mora no bairro. Aliás, desde 1955. Ele foi um dos criadores do Raízes de Arcoverde, mas há três anos resolveu criar o próprio coco.

“Fizemos este palco em homenagem a ele, a Cícero”, frisou Alexandra Lima, coordenadora de Cultura Popular da Secretaria de Cultura do Estado e também responsável pelo polo do bairro no FPNC 2012 do Moxotó. Como anfitrião da festa, Seu “Cícero Cicerone” ficou feliz pelo valor dado a ele. Na noite de ontem (13/4), recebeu não só o coco das Irmãs Lopes, mas ainda as apresentações da Banda de Pífanos Santa Luzia e do Coco da Malhada, formado por cerca de 30 crianças e adolescentes da zona rural da cidade (o distrito de Malhada). Foi bonito ver diferentes gerações de Arcoverde pulsando no mesmo tablado.

Crianças do Coco da Malhada fazendo o trupé (Foto: Daniela Nader)

Crianças do Coco da Malhada fazendo o trupé (Foto: Daniela Nader)

“E olha o trupé!”, gritava Damião Leite, 11 anos, puxando seu grupo de coquistas mirins. E lá iam os pequenos meter os pés no chão. Num dos momentos mais interessantes da apresentação, as crianças acompanharam com os tamancos o ritmo da música “Tum tum tum”, que não é tradicionalmente cantada pelos sambas de coco arcoverdenses.

O Coco da Malhada foi criado em 2010 por iniciativa da Fundação Terra, ONG que atua na cidade. “Eu não era nada, só vivia brincando. Aí o padre Airton Freire fundou o coco e me botaram pra cantar. Meu sonho é ser um dos reis do coco”, falou explicadamente Damião, o menino puxador que já diz a que veio.

Na noite deste sábado (14/4), o Polo da Cultura Popular recebe, a partir das 20h, as apresentações de Mestre Pombo Roxo (coquista do litoral), Balão Popular (projeto de Arcoverde) e Samba de Coco Trupé de Arcoverde, de Cícero Gomes.

 

 

< voltar para home