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Festival pernambuco nação cultural

Em Pesqueira, coco para resistir

Chã dos Negros trazendo a versão quilombola do coco pra Aldeia de Cimbres (Foto: Costa Neto)

Chã dos Negros trazendo a versão quilombola do coco pra Aldeia de Cimbres (Foto: Costa Neto)

Por Maria Peixoto

Depois de oficinas, exibições de vídeos e roda de diálogo, o FPNC  encerrou sua programação no território Xukuru ao som do coco

Ontem (16/8), todos da Aldeia Cimbres, uma das 24 do território Xukuru, sabiam que ia ser dia de festa. Foi ligar o som pra o povo começar a chegar, mesmo sem saber direito quem iria se apresentar. Maria Aparecida e Maria Tamires, de 4 e 6 anos, nunca tinham visto um teatro nem um samba de coco, mas a curiosidade era tanta que elas chegaram cedo pra ver. Num tinham dimensão, as duas menininhas, de que pela primeira vez dois cocos tradicionais iam se encontrar – um dali mesmo dos xukuru, o Origem do Ororubá, e outro lá de Passira, do Quilombo Chã dos Negros.

Plateia lotada para ver a roda de diálogo e a apresentação dos dois que aconteceria dali a pouco. Logo os dois grupos perceberam o que os unia: “a nossa história não é diferente de nossos irmãos negros. Nós, índios e negros, somos resistentes”, disse Dona Zenilda, viúva de Chicão Xukuru, cacique assassinado em 1998 e lembrado por todos pela sua luta pela homologação das terras e pela união das aldeias. Se Chicão era um pai, Dona Zenilda é como uma mãe para o povo xukuru. Com um semblante e falas fortes, ela mencionou a luta de Chicão e a continuidade que eles vêm dando pela defesa de seu povo: “Se nós não tivéssemos dado continuidade a essa luta, a gente não sabe onde estaria, talvez nas periferias da cidade”, disse. “O sangue que foi derramado do nosso povo voltou pras nossas veias”.

Dona Zenilda lembrou que os mais velhos passavam a noite de São João dançando coco. Porém, eles foram morrendo e essa tradição foi acabando. Aí, descobriram Seu Antônio, o Mestre Pirrila. “Desde pequeno eu tinha uma coisa dentro de mim que dizia que eu tinha que cantar samba de coco”, disse seu Antônio. Ele contou que tinha esse saber, mas não cantava em público. Um dia, quando pediram que ele mostrasse seu dom, ele ficou nervoso. “Entrei no banheiro, me concentrei, pedi a Deus, pedi à natureza, pedi aos encantos” e cantou. Hoje, se apresentar em público não é problema pra ele, que fica triste quando não tem ninguém dançando. “Daqui a cem anos, quando eu me for, eu deixo alguém no meu lugar”, brincou.

O grupo Chã dos Negros também teve que recorrer ao resgate de suas tradições pra trazer de novo o coco pro seu cotidiano. “Essa origem da gente é dos nossos pais, de nossas mães. A casa era de taipa, o povo dançava o coco pra pisar o chão de barro. Os negros cantavam o coco nos terreiros; com as perseguições, parou”, contaram. O mestre do coco, Severino Otaviano, mais conhecido como Chico Véi, lembrou também da luta do povo negro: “Foi luta pra a gente chegar até aqui. A posição que a gente ocupava era fraquíssima demais”. Hoje é tudo diferente: “o negro agora tem valor, cativeiro não é mais”. E é no coco que o Chã dos Negros expressa a delicadeza e a sabedoria do povo negro.

Depois da conversa foi a hora da festa. Todos lotaram o salão para dançar ao som do coco das matas e dos terreiros.

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