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Filho da rima com o verbo

Ivanildo desde cedo começou a cantar. Hoje tem vários CDs gravados (Foto: Ricardo Moura)

Ivanildo desde cedo começou a cantar. Hoje tem vários CDs gravados (Foto: Ricardo Moura)

Conheça Ivanildo Vila Nova, o cantador e violeiro que se apresenta nesta sexta-feira (14/9) no FPNC

Por Chico Ludermir

Desde que nasceu, em 1945, Ivanildo Vila Nova pertence ao mundo da cantoria. Descendente de pai e avô violeiros, aos 12 anos o caruaruense já viajava Pernambuco adentro com sua viola. Ser cantador, para a família Vila Nova, era hereditário. E foi quase obrigatório Ivanildo cumprir esse destino.

Se de um lado sempre esteve a influência que corre no sangue dos Vila Nova, de outro, esteve uma ligação com a política. Durante a adolescência, na década de 1960, quando ferviam os ideais de esquerda, Ivanildo era comunista. Trabalhava na Banca Yuri Gagarin, que chegou até a ser incendiada pelos integralistas de Caruaru. Foi lá que o cantador conviveu com alguns intelectuais e artistas da sua região.

Pouco antes do Golpe de 1964, o pai José Faustino entregou-lhe a viola e mandou que fosse embora. “Ou você vai cantar ou vai ser preso”, disse imperativo e preocupado. Na época, Ivanildo era resistente. “Não queria cantar, porque via meu pai ser despejado de casa, não havia prosperidade no ramo”, contou, revelando o confronto de gerações entre o pai conservador e católico e ele, comunista e (consequentemente) ateu.

E então Ivanildo foi tentar fazer diferente. Como que unindo as duas referências, juntou os conhecimentos essenciais aos cantadores com o que tinha lido nos livros proibidos que chegavam às suas mãos. Alem da gramática, bíblia, mitologia, geografia, corpo humano…, acrescentou aos seus versos as questões políticas e sociais que ele lia nos autores russos como Tolstoi, Dostoievski, Gork, muitas vezes em versões em espanhol, língua que passou a dominar.

Mais ainda. Ao aceitar o caminho da cantoria, levou consigo o sentido de coletividade comunista. Fazia versos de cunho social, como os que falavam de Lampião e de Antônio Conselheiro, decidindo transformar seu ofício em profissão de verdade.  Na década de 1970, Ivanildo entrou e lutou para fazer associações e festivais de violeiros. “Todas essas ideias herdadas dos comunistas”.  E criou a Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos, em Campina Grande, na Paraíba.

Enquanto disputava seu espaço, como nas cantorias “propositais” (para desbancar o adversário), saía também em busca da sindicalização, profissionalização, contratos, horários e respeito à categoria.  Todos passaram a ter férias uma vez por ano, financiadas pelos outros cantadores.  “Assim dava para ter mais presença familiar e também dava para arejar os pulmões e a cabeça. Saímos da postura de pedinte”, explica. Foi nesta época, segundo Ivanildo, que os cantadores passaram a ser vistos pelos “cabeludos” e universitários.

E junto com este violeiro, a cantoria continua em evolução. “Só o que não muda é a viola, mas o resto tudo evolui. Não é aquela coisa folclórica e passiva.  Foi, sim, um veículo de comunicação e cultura. O cantador é um dos artistas mais importantes”, defende.

Aos 67, Ivanildo continua improvisando em sextilha, mote de 10, de 7, galope a beira-mar, martelo alagoana, mourão voltado e todos as outras dezenas de métricas do seu estilo, junto às 10 cordas de sua viola.  Mas também, depois de mais de 50 anos de cantoria, já é consagrado com sucessos como “Nordeste independente”. Já foi para Paris, Milão, Nova Iorque e tem alguns CDs  gravados.

A experiência que o consagrou é mesma que o coloca hoje no seu maior drama: o de quem está terminando uma carreira. “Daqui a um ou dois anos, não vou estar como hoje, com voz boa e disposição para viajar. É o medo da idade, da doença, da morte. E de como vou viver sem cantar. Isso me atormenta, porque a cantoria foi quem me deu sobrevivência, amigos e família”, confessa.

Nesta sexta-feira  (14/9), Ivanildo se apresenta ao lado de Luciano Leonel no distrito de Russinha, às 17h, em Gravatá. Em seguida, segue a apresentação da mostra Cinema na Estrada, às 19h.

 

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