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“Gosto do território do estranhamento e do recomeço”

Lirinha voltou a Arcoverde para apresentar seu projeto "Lira" (Costa Neto/Secult)

Lirinha voltou a Arcoverde para apresentar seu projeto “Lira” (Costa Neto/Secult)

Entrevista com Lirinha*

Por Chico Ludermir

Encontro Lirinha pouco antes de subir ao palco na sua terra natal, Arcoverde, mas como se concentrava, prefere que conversemos com mais calma na volta do show. “É mais tranquilo”, diz. Depois da apresentação na qual tocou as músicas do seu projeto solo, “Lira”, lançado no segundo semestre de 2011 e três músicas da sua antiga banda, Cordel do Fogo Encantado, volto para uma entrevista de 20 minutos dentro do seu camarim. Mais tranquilo, José Paes de Lira conta como vive essa nova fase, como é tocar em Arcoverde longe do Cordel e antecipa que vai lançar 12 clipes e um vinil ainda este ano. No segundo semestre, começa também a pré-produzir o novo álbum, que também se chamará “Lira”, que fará parte de uma trilogia. “Estou muito feliz. Essa é a definição que eu posso dar”, conta Lirinha sobre seu momento atual. Segundo ele, a nova turnê vem dando a ele a possibilidade de se reinventar em composição e interpretação e um reconhecimento internacional: deve lançar “Lira” no México, e foi citado pelo jornal britânico “The Guardian” na lista das 30 melhores músicas do ano com a música Adebayor, feita em parceria com Lula Côrtes.

Fpnc.org
 – Como você percebe, em Arcoverde, a recepção dessa sua nova fase?
Lirinha – Eu sinto uma melancolia relacionada à saudade do Cordel. O Cordel era um grupo muito diferente e que não deixou substituto, isso causa saudade nas pessoas. Uns não entendem por que eu tomei a decisão, mas o que eu percebo é que a maioria das pessoas que me acompanha entendeu essa busca por um novo som. Eu vejo uma ligação muito forte deste projeto com o que eu já fazia. De fato, a grande diferença é a ampliação de elementos harmônicos no show e a utilização de pianos, baixos, sintetizadores e guitarras. Essa mudança estética sonora é forte e também causa esse sentimento de ‘Não é o Cordel’. Mas esse é som que eu estou fazendo agora e estou muito feliz. Esse disco era um disco dos meus sonhos. Queria fazer essa música e não tinha como não fazer.

Fpnc.org – Como é ser “solo”?
Lirinha – É muito diferente. Otto já tinha me dito isso. Ele falou de uma certa solidão que eu teria ao tomar decisões. É um recomeço que eu tenho muito prazer. Gosto muito desse momento de apresentar coisas novas. Isso me dá um impulso, um ânimo. Gosto muito desse território do estranhamento e do recomeço.

Fpnc.org – O que te influenciou de Arcoverde e o que te influencia fora?
Lirinha – Tem um movimento muito forte de rock, de bandas punks anteriores ao Cordel. Tem muita coisa das melodias do Reisado (das Caraíbas) que eu incorporei nas minhas composições. Os aboiadores, dos bares, dos subterrâneos, dos botecos de Arcoverde, tiveram uma influência muito forte em mim. Os repentistas, poetas, violeiros. Gosto muito da psicodelia nordestina da década de 1970, tanto é que convidei Lula Côrtes para participar do disco. Saindo de Arcoverde, algumas coisas como Joy division, Velvet Underground, isso tudo veio depois de sair de Arcoverde.

Fpnc.org – O nome “Lira” do álbum é também como muita gente tem te chamado. Você deixou de ser Lirinha?
Lirinha – Meus amigos me chamam de Lira, que é o apelido de Lirinha. Eu assino as músicas como José Paes de Lira desde o segundo disco do Cordel e meus livros também. Aí os meus amigos mais próximos me chamam de Lira. O Lirinha vem porque meu pai e meu bisavô também eram José Paes de Lira. Meu nome Lirinha vem das minhas primeiras aparições. Tem uma matéria quando eu tinha 12 anos no Diário de Pernambuco. Virou meu nome artístico. Nesse disco, achei a palavra Lira muito definidora de muitas coisas. Do meu novo momento e das ligações de metáfora com o lirismo.

Fpnc.org – Você acredita nessa separação regional/universal?
Lirinha – Eu tive muito problema com isso no tempo do Cordel. Eu foquei muito nesse assunto da música regional como sinônimo de música do Nordeste. Também descobri que isso vem de coisas que não têm a ver só com música, como o regionalismo na literatura. Hoje eu já consigo perceber que são reflexos dessa visão de mercado, do regionalismo, do interior, do Nordeste.

Fpnc.org – Quando você vem a Arcoverde, o que é que não pode deixar de ver?
Lirinha – A feira de sábado no Cecora (Centro Comercial de Arcoverde), porque é uma reunião das comunidades rurais e aí gera um monte de encontro louco. O São João de Arcoverde que é muito diferente. Mantém a pegada das fogueiras e das comidas de milho.

Fpnc.org – O que você gosta de música atualmente de Arcoverde atualmente?
Lirinha – O Emerson (Calado, ex-Cordel) fez um show e eu acredito muito no trabalho dele; Clayton (Barros, ex-Cordel), que eu sou fã e gosto das coisas dele; Noé Lira, que é uma pessoa mais antiga e um grande amigo meu; Tonino Arcorverde; vários grupos de coco, o Raízes de Arcorverde, tem o das Irmãs Lopes…

*Entrevista feita durante o Festival Pernambuco Nação Cultural do Sertão do Moxotó, realizado de 9 a 15 de abril de 2012.

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