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Música, dança, guerra e tradição no Alto do Moura

Antes de iniciar a salva de tiros, bacamarteiros desfilaram pelo Alto do Moura e reverenciaram o Mestre Vitalino no casa museu em que ele viveu. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Antes de iniciar a salva de tiros, bacamarteiros desfilaram pelo Alto do Moura e reverenciaram o Mestre Vitalino no casa museu em que ele viveu. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Por Luiza Falcão

De longe os tiros assustas, mas é só pólvora  não machuca ninguém. Os bacamarteiros de Caruaru são uma tradição mais velha que a própria cidade. Reza a lenda que os primeiros bacamarteiros lutaram na Guerra do Paraguai e chegaram dando tiros para festejar a vitória.

Em caruaru, existem mais de 20 batalhões diferentes de homens (e mulheres) dedicados a essa arte. Neste sábado (18), o Alto do Moura deixou os homens de barros um pouco de lado para vê-los passar divididos em três grupos, cada um com cerca de 15 participantes, um comandante e um trio de triângulo, sanfona e Zabumba.

No batalhão 41, quem manda é José Manoel dos Santos, 74 anos, mais conhecido como Zé Benedito, nome do primeiro chefe do batalhão fundado em 1851, seis anos antes de Caruaru virar cidade. No grupo dele as crianças começam cedo, antes dos 10. A única exigência é que sejam homens. “Uma mulher num grupo de 25 homens ia bagunçar tudo. Um homem não pode. conversar nem fazer suas obrigações na frente de uma moça”, explica, todo desconfiado, seu José.

Além de bacamarteira, Willyane canta, toca sanfona e triângulo. Orgulhosa de perpetuar as tradições caruaruenses, ela quer passar isso para filhas e sobrinhas também. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Além de bacamarteira, Willyane canta, toca sanfona e triângulo. Orgulhosa de perpetuar as tradições caruaruenses, ela quer passar isso para filhas e sobrinhas também. Foto: Chico Santana/Secult-PE

 

No Batalhão 333, Willyane Nair discorda. Aos 23 anos, ela já soma três como participante do grupo de bacamarte e nunca sofreu represálias. Antes de descobrir uma doença nos ossos, ela até atirava, e atirava bem, diz ela, mas agora parou. No grupo dela, duas mulheres participam e ainda tem lugar para mais quantas quiserem.

Depois dos tiros e da festa, foi a vez dos pifeiros animarem o lugar. Para quem não conhece, os pífanos são instrumentos de sopro, semelhantes a flautas, que se toca de lado, paralelamente à boca e possuem som agudo e peculiar. No encontro dos pifeiros tinha até pífano feito de cano de PVC.

Uma rezadeira no meio do povo - Atenta a tudo no fundo da plateia, uma senhora de 69 anos admirava as apresentações. De altura, não chega a 1,60, mas trazia nos olhos uma luz que a engrandecia. Dona Júlia dos Santos nasceu em Brejo da Madre de Deus e se mudou para Caruaru aos 15 anos. Desde então ela mora na mesma casinha da Rua Vilela, perto do Campo da Aviação. Por lá, todo mundo conhece o trabalho dela, uma rezadeira que abençoa e tira olhado de gente, de casa e até de carro.

Niziani Miotto (Fundarpe) foi uma das benzidas por Dona Júlia depois do encontro de bacamarteiros e pifeiros. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Niziani Miotto (Fundarpe) foi uma das benzidas por Dona Júlia depois do encontro de bacamarteiros e pifeiros. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Quando perguntada como aprendeu a arte que carrega no pescoço em forma de terço, ela responde categoricamente “foi Deus quem me ensinou a rezar”. Depois da entrevista, ela se ofereceu para me rezar e eu, de pronto, aceitei. Depois de mim, uma pequena fila para a benção se formou. Teve gente saindo até com casamento prometido de lá.

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