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O cavalo-marinho de Mestre Antônio em boas mãos

À direita, o Mateus, Seu Bita  (Foto: Eric Gomes)

À direita, o Mateus, Seu Bita (Foto: Eric Gomes)

Com 82 anos, o mestre não brinca mais, mas a continuidade de seu folguedo parece estar garantida pelas crianças e pelos jovens de Condado

Por: Maria Peixoto*

Quando a gente foi chegando, na noite de sexta (5/4), no terreiro do Cavalo-Marinho Estrela Brilhante de Condado, qual não foi minha surpresa ao ver dezenas de crianças tomando conta do lugar. Uns um pouco mais velhos, mas ainda adolescentes, tocavam os instrumentos. E a criançada toda fazia num misto de brincadeira e seriedade, cada um com seu estilo, mas sem perder a sincronia, os passos do cavalo-marinho.

Um senhor observava tudo de longe, sentado numa cadeira.Era Mestre Antônio Teles, de 82 anos. Ele começou a brincar cavalo-marinho com 12 anos. Quando a idade foi chegando, o mestre passou o bastão do folguedo pra sua filha, Nice. Mas garante que ainda toca: “A brincadeira que eu mais gosto de fazer é cavalo-marinho e viola”. Sento ao lado de seu Antônio, e fico ali proseando vez por outra, perguntando as coisas a ele. “Ô, Seu Antônio, esses passos que eles tão fazendo têm nome?”. Aí ele foi me dizendo: “mergulhão”, “trupé”… Eu olho pra ele com cara de quem não tá entendendo direito e ele: “Palavra de cavalo-marinho num se explica”. Eu aceito. São os filhos de Nice e netos de Mestre Antônio que hoje tocam pandeiro e rabeca no Estrela Brilhante. De vez em quando, Seu Antônio gritava: “Olha as voz, cadê o tom?”; “As voz tão morta! Né toada não!”; “Dá nesse pandeiro direito, nojento!”, ensinando o ofício pros netos.

Outro senhor sério que estava ali atento ao passo das crianças era Severino, ou Bita. Ele me conta que Nice expandiu mais o cavalo-marinho. Ela organiza oficinas do folguedo pros pequenos e criou um cavalo-marinho só formado por eles, o Estrela da Manhã. Quem faz parte das oficinas é Jonatas, 13 anos. O menino, que minutos antes dançava bem firmemente no terreiro, guiando os outros, conta que brinca desde os 6 : “Brincava no de Biu Alexandre e aqui, aí fui ficando”. Ele quer brincar de Mateus quando crescer. Esse é mesmo o personagem que cai na graça das crianças. Todas interagem com ele quando aparece pra cuidar do terreiro, a pedido do capitão. E o Mateus do Estrela Brilhante é Bita, o mesmo senhor sério com quem eu conversava minutos antes. Como que por feitiço, Bita pinta a cara, se traveste do personagem e se transforma num palhaço de carteirinha.

Confesso que fiquei um pouco desconfiada ao me deparar com a pouca idade dos meninos comandando o cavalo-marinho, mas a surpresa de ver a seriedade misturada com brincadeira com que eles levaram o folguedo me deixou bem contente. Eles faziam fala a fala, gesto a gesto aquilo que aprenderam com seus mestres, de forma muito bem feita, e com um sorriso no rosto de mostrar a todo mundo o prazer que sentiam. Parece que Seu Antônio pode ficar sossegado, que o cavalo-marinho dele está muito bem cuidado pela nova geração ali de Condado.

*Texto escrito a partir de cobertura do Encontro de Cavalo-marinho realizado pelo Festival Pernambuco Nação Cultural (FPNC) da Mata Norte, em 2013.

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