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Festival pernambuco nação cultural

O exercício do improvável

A Gente da Palavra em Sertânia (Foto: Ricardo Moura)

A Gente da Palavra em Sertânia (Foto: Ricardo Moura)

Por Wellington de Melo*

Mas, olha: tem aquilo também, de exercitar o improvável. Literatura é meio isso, né não? Arte em geral, acho. Porque sempre vai ter o caminho fácil, o óbvio, o que todo mundo faz por comodidade, preguiça ou hábito. Quero ver é você exercitar, consuetudinariamente, o improvável. Usar um advérbio feito “consuetudinariamente” já é um lance meio improvável. Usar o adjetivo “improvável” quatro vezes em quatro linhas também. Oferecer um serviço de “disk poesia” para que as pessoas liguem e peçam recitais em suas casas durante o Festival Pernambuco Nação Cultural do Sertão do Moxotó é improvável. Com tantas atrações nos palcos, filme para ver na praça, peças para assistir, quem vai querer ouvir um poeta, que só tem a palavra e o corpo para encantar os olhares, tirar as pessoas do eixo? Imagina como é improvável alguém parar o que está fazendo em casa para receber um poeta e ouvir um poema no meio do dia. E se esses poetas estão vestidos com coletes em que está escrito “A gente da palavra”, aí é que o improvável é quase impossível.   Realizar um encontro de escritores num domingo à noite, em Sertânia, numa praça pública lotada de gente de todas as idades, com uma nuvem de chuva ameaçando cair é a improbabilidade personificada. Quem já viu gente sair de casa num domingo à noite para ouvir escritores falando? E pior se são escritores da própria região. A gente já conhece esse povo que vive por aqui escrevendo livros ou que foi embora e, de vez em quando, volta com mais versos na boca, mais ideias na cabeça. Esse Wilson Freire não é Bida do Cabo Jaime? Conheço. Diz que é cineasta também. E médico. E escritor. O que tem de novo ir ver Bida conversando com Josessandro Andrade, Luiz Pinheiro, Marcelino Freire, Ésio Rafael, Lirinha – e Lirinha é escritor? Ele não é músico? E essa menina que não sei quem é, Valeria Fagundes? E por que esse povo todo, umas duzentas pessoas, entre sentados e gente de pé, ouvindo atentamente cada palavra dita por esses escritores? Que tem de novo ir ver esse povo falando na praça da Vila da Cohab? Improvável isso que Marcelino disse lá, que saiu de Sertânia com três anos, mas que a voz de Sertânia está na literatura dele porque sua mãe tinha essa voz entranhada nela, e essa voz entranhou em Marcelino. É improvável que alguém tome prazer pela leitura porque achou livros numa sala da escola destinada a deixar alunos bagunceiros de castigo. Mas não disseram isso para Valeria Fagundes, que participou do encontro de escritores na programação de Literatura. “O pequeno príncipe”. Primeiro livro que leu, lá em Manari. Valeria me perguntou durante a viagem de Recife a Sertânia: “O que vou fazer nesse encontro, se não sou escritora?” É improvável que alguém com o talento e sensibilidade dela não tivesse certeza de que, sim, era escritora. Sim, porque foi ela que emocionou toda a praça da Vila da Cohab ao contar como saía de sua cidade para outra, todos os dias, num caminhão de lixo junto com dezenas de adolescentes para poder ir estudar; foi ela que contou como conseguiu mudar essa realidade com um poema dito ao final de uma peça que encenou em seu povoado. Um poema que falava de abdução e esperança. É improvável que ela não diga a todo pulmão “sou escritora”, porque um escritor precisa menos de ter publicado um livro do que ter essa dor do mundo plantada na pupila, feito ela. Mas é que seria clichê se ela fosse assim, cheia de soberba, dessa que se compra a três por quatro em toda esquina. É que a gente fala do improvável, porque há esse silêncio abismal que nos separa dos leitores, como falou Lirinha durante o encontro, quando lembrou que, para um escritor, a fama normalmente é póstuma e que ele, ao publicar seu livro, sentiu uma diferença enorme da resposta que tinha com a música. Quem já viu alguém fazer uma arte que é banhada de silêncio, que não tem quase aplauso, num país que ainda está aprendendo a ler? Mas é isso: em literatura tudo é meio improvável. E quem disse que o improvável não acontece? Tais falando besteira, cabra?

Wellington de Melo é escritor e coordenador de Literatura da Secretaria de Cultura de Pernambuco. Esta crônica foi produzida durante o Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Sertão do Moxotó, realizado de 9 a 15 de abril pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

 

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