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O fantástico mundo de Mestre Dila

Mestre Dila é Patrimônio Vivo, mas acha que não merece o título (Foto: Ricardo Moura)

Mestre Dila é Patrimônio Vivo, mas acha que não merece o título (Foto: Ricardo Moura)

Chico Ludermir (texto) | Ricardo Moura (fotos)

Meu encontro com Mestre Dila foi mais silêncio do que fala. Me recebeu como se eu fosse de casa e, sentado no seu cantinho de sempre, respondeu despretensioso cada pergunta que fiz. Para quem conhece, nem precisa explicar que a despretensão não tem nada a ver com desdém. É mais um desprendimento completo de qualquer vaidade. Dila não tem floreio para dizer o que é nem o que pensa, com aquela voz mansa que só a dele.

Tem muita coisa que deu pra sentir com pouco verbo, só olhando aquele talhado carinhoso que Dila faz na madeira. Vê-lo fazer suas xilogravuras foi como olhar as avós que passam a tarde toda fazendo tricô. Só mudam os instrumentos: ao invés de agulha, um estilete amolado; no lugar da linha, a madeira peroba do campo, que ele compra aos montes numa serralheria. Na frente da porta de casa, bem por onde a luz entra e ilumina a mesa, Dila gasta o tempo fazendo arte.

Quase sem tirar o foco de uma madeira lisa, que continha apenas um desenho de lua feito a lápis, José Soares da Silva contou quando a xilogravura virou sua profissão. Com apenas 15 anos de vida e só dois de estudo, foi para Caruaru passar só um dia e acabou ficando. Arranjou emprego nas gráficas da cidade e fez gravura para jornal, rótulos de bebida e cordel.

Na mesma época, começou a vender seus folhetos nas feiras de Pernambuco, Alagoas, Ceará e Bahia. Chegava bem cedinho, abria a maleta, espalhava os folhetos e ficava até as três da tarde cantando o que escrevia, como era frequente naquele tempo. Muitas vezes trocava cordéis com outros autores, cujos nomes ele lembra um a um: Vicente Vitorino de Melo, Heleno Francisco Torres, Antônio Ferreira, entre tantos outros que ele cita e descreve, com memória impressionante.

“Além de ser bem cantado, para o cordel vender bem, tem que ter boa xilogravura”, explicou o mestre. “São artes casadas”. E, por isso mesmo, Dila era sucesso. “São Bartolomeu e o Diabo” e “Paulo e Rosita” venderam para mais de 70 mil exemplares. E Dila não ficou com nenhum. Nem do seu preferido, “O sonho de um Romeiro com Padre Cícero Romão”, onde ele faz previsões quase messiânicas.

Aliás, no lugar onde ele vive, por trás do Museu do Barro, em Caruaru, não tem nada guardado. Na casa pequena e simples, da qual ele nem pensa em sair, encontramos, do passado, só uma impressora antiga. O restante tá espalhado pelo mundo. Cordel e xilogravura, em matéria e em memória.

Fazer uma antologia da obra de Dila é tarefa quase impossível. Além de um desapego generoso do autor em relação ao que produz, como agravante, o mestre tem o hábito de usar um sem número de pseudônimos. Nem ele mesmo é capaz de precisar quantos.

“Dila”, “Dilla”, “Dillas” e “Dyyllas” são fáceis de reconhecer. Mas tem ainda “José Ferreira da Silva”, “Saboia”, “Sabaó”, “Barba Nova”, “Kirbaano”, “Alexandre José Felipe Cavalcanti d´Albuquerque”, “Felipe Henrique”, “Antônio Cavalcanti”, “José Soares da Silva” e todas as combinações possíveis com esses nomes.

Tudo começou com a descoberta de que as pessoas só colecionavam 12 folhetos de cada autor. Daí em diante, ele só fazia uma dúzia com cada assinatura e, assim, foram mais de 2 mil folhetos. Daqui, desconfio de que os nomes eram trocados com outra frequência e eram mais relacionados ao estado de espírito e a um humor sensível do autor, do que ao medo de não ser vendido.

Como bom cordelista, Dila traz à tona a religiosidade, as lendas e os mitos nordestinos, onde Padre Cícero e cangaço ganham destaque. Tem ainda um dom para unir o sagrado e o profano em versos.

Pergunto do método e Dila faz parecer simples: “Você cai na ideia e fica pensando assim uns minutos. Aquilo é um título, que se você não anotar na hora, esquece. Ele foge”. Essa semana mesmo, o mestre estava deitado, idealizou um título e não anotou. Pelejou para lembrar depois, mas não retornou. “Tem que escrever na hora certa. Não anotou, adeus viola”.

– E como é que faz para escrever sobre tanta coisa diferente? Tem que ler muito? – perguntei.
– Não. Na hora que tá escrevendo, aparece.

As regras são poucas, mas tem uma que ele destaca. “Não pode maltratar ninguém no folheto. Além disso, o cabra tem que ter um bom sentido que agrade o povo”.

Na xilogravura, Dila descreve: “Depois que compro a madeira e deixo ela na medida, penso no desenho. No que penso, chega. Aí vou cortando”. O segredo só pode estar neste “pensar”. Ainda mais na xilogravura, onde se pensa ao contrário. O talhado é justamente onde não terá cor e o que é direito vira esquerdo, no espelhar da madeira para o papel.

Ora num realismo fantástico, ora num mergulho interior, ora num voo pra fora. Dila é gênio e, como os gênios, é do passado e do futuro. Conta que é filho do cangaço, ao mesmo tempo em que tem origem cigana, holandesa e norte-americana. No Recife ele não mora, porque lá sua pressão sobe. E o cordel, para ele, vem de um povo antigo, que só tinha três dedos em cada mão e em cada pé.

Xilo feita por Dila (Foto: Ricardo Moura)

Xilo feita por Dila (Foto: Ricardo Moura)

Quando a lua, antes desenhada, já estava toda talhada na madeira, Dila me explicou por que Matusalém viveu 900 anos: Deus passava todo dia na casa dele, que era uma pedra numa altura medonha. E na sombra daquela pedra, ele desviava do sol. Aí toda vez que Deus passava, dizia:

- Ô, Matusalém, faz uma casa.
- Que casa que nada – respondia.

E assim viveu 900 anos.

“É que Deus esperava que ele ajeitasse a casa dele. E ele nunca fez”.

Essa lenda é muito Mestre Dila, numa busca por uma vida longa e simples. “Quero viver até os 120 anos. Mais do que meu pai, que viveu 115” (ele hoje tem 75). Não por acaso, é ele o mesmo que não entende por que ganhou o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco. “Por merecimento é que não foi”, diz sério. E surpreende mais uma vez.

(a hora da despedida coincidiu com a assinatura de Dila na madeira. Letra por letra talhada cuidadosamente ao contrário, numa entrevista que durou o tempo exato de uma obra de arte).

*Esta narrativa foi feita em Caruaru, que recebe pela primeira vez o Festival Pernambuco Nação Cultural. O evento fica por lá até o dia 20 de maio de 2012. Caruaru está no Agreste pernambucano, a cerca de 130 km do Recife.

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