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Festival pernambuco nação cultural

O forró e suas várias facetas

Na primeira noite do FPNC Sertã Central, o mais autêntico gênero nordestino deu as cartas

Por Leonardo Vila Nova

Ainda nem chegamos ao mês do São João, e o forró – gênero principal dos festejos juninos – já demarcou terreno em São José do Belmonte. Na primeira noite da programação de shows do FPNC Sertão Central, nesta sexta (24), a cidade foi ao palco montado no Estádio Carvalhão, para conferir diversos artistas que fazem do gênero sua principal forma de expressão. Cada um à sua maneira mostrou que no forró as possibilidades de reinvenção são tamanhas e que o gênero vem agregando à sua linguagem uma diversidade de elementos e de olhares.

Ricardo Moura/Secult-PE

Ricardo Moura/Secult-PE

Jackson da Sanfona & Paixão Nordestina

Coube à prata da casa abrir a noite forrozeira. Com sete anos e meio de estrada, a Banda Paixão Nordestina & Jackson da Sanfona fazem um som em que os instrumentos elétricos têm papel de destaque na sonoridade que já se tornou marca de boa parte dos grupos surgidos dos anos 1990 pra frente. O trio zabumba, triângulo e sanfona (esta empunhada pelo idealizador do projeto, o músico belmontense Jackson) ganham a companhia pesada da guitarra, baixo, bateria e de um naipe de metais. Essa particularidade abre espaço para que outras vertentes musicais, que não o forró, ganhem espaço no repertório. Foi assim com a presença de “Telegrama”, de Zeca Baleiro, no set list, ou “Lindo lago do amor”, de Gonzaguinha, encerrando o show da banda. Alguns clássicos indispensáveis, como “Anunciação” e “Frevo mulher”, também marcaram presença.

Ricardo Moura/Secult-PE

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Joãozinho de Exú

Joãozinho do Exu é uma das figuras mais celebradas em São José do Belmonte. Compositor com 25 anos de estrada, ele também segue a linha de forró conectada a um formato mais elétrico, o que desperta particular interesse nos mais jovens. No entanto, consegue fazer isso tanto com canções próprias (gravadas por nomes diversos, que vão de Dominguinhos a  Limão Mel) quanto com músicas de alcance nacional, a exemplo de “Xote dos milagres”, da banda Falamansa. “O forró pode ganhar novas influências, podem surgir novos grupos, mas sempe será zabumba, triângulo e sanfona. Isso ninguém tira. É importante inovar, e eu procuro inovar, mas sem deixar nossa raiz se perder. É o que eu procuro fazer, principalmente pelo fato de ter nascido na terra de Luiz Gonzaga”, disse Joãozinho.

Ricardo Moura/Secult-PE

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Claudiana de França

Tambem é possível observar que os formatos mais contemporâneos das bandas podem se colocar a serviço das canções mais tradicionais. Quem reza por essa cartilha é a cantora Claudiana de França, segunda atração da noite. Nascida em Parnamirim, sua essência musical foi apurada a partir da influência boêmia do pai, grande apreciador de música. E uma das principais referências do seu som é Luiz Gonzaga, presença constante na radiola de casa. Isso pode ser observado na escolha do seu repertório, que teve sua primeira metade completamente dedicada às músicas do Rei do Baião, com clássicos como “Xote das meninas”, “Cintura fina” e “Vem, morena”. A partir daí, ela abre espaço para as canções de autores mais recentes, a exemplo de Flávio Leandro, que se apresenta na noite de hoje, em Belmonte.

Ricardo Moura/Secult-PE

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Adelmário Coelho

Além do formato das bandas – que se reflete no som que chega ao público – e o diálogo do repertório com outros gêneros, uma característica marcante de alguns forrozeiros é o investimento na produção do show como um todo. Exemplo claro disso é Adelmário Coelho, que encerrou a noite desta sexta. Natural de Curaçá (BA), ele percorre o Nordeste apresentando um forró que ganha força não só musicalmente, mas visualmente. Cenário, figurino e iluminação: tudo isso salta aos olhos durante seu show, aliado a um corpo de bailarinos que vai cerzindo em suas coreografias o repertório do cantor, impressionando a plateia, que se vê instigada a acompanhar a dança.

No entanto, veio da penúltima atração a proposta mais “ousada”, digamos. A banda recifense Fim de Feira tem como base o autêntico forró, mas consegue traçar um amplo arco de diálogos com elementos diversos. Eles atacam de jazz, coco, carimbó, reggae e rock, sem perder de vista um minuto sequer que é o forró quem comanda a farra. De um repertório que tem como base os dois discos da banda – “A revolução dos pebas” e o recente “De todo jeito a gente apanha”- eles conseguem passear por territórios distintos da música – indo de “Pagode russo” a “Eleanor Rigby”, dos Beatles. Tudo isso, sendo dito num linguajar popular – refletido na presença constante da poesia de cordel ao longo do show.

Ricardo Moura/Secult-PE

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Fim de Feira

A ousadia reside no fato de seguirem uma linhagem iniciada por cânones como Ary Lobo, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, mas pouco explorada no forró atualmente, se permitindo mostrá-la a públicos dos mais diversos, como cariocas, europeus ou belmontenses. “A origem de tudo está no forró, no baião, no coco. Essa matriz é imprescindível no nosso trabalho, e procuramos, naturalmente, aliar novas linguagens a isso. A partir desses artistas que são nossas grandes referências, nós aprendemos que é importante essa raiz estar presente, contanto que possamos trazer nossas referências particulares, e uma bagagem da música universal também, o que acaba fincando uma marca registrada à cada artista, que vem a se chamar de ‘originalidade’. Jackson do Pandeiro tinha uma postura totalmente rock’n’roll. É bem essa postura. Essa é a nossa matriz”, explicou Bruno Lins, vocalista da Fim de Feira.

A voz do Sertão

Ricardo Moura/Secult-PE

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Aboidores Chico Justino e Cícero Mendes

Uma agradável surpresa marcou a noite desta sexta, no Estádio Carvalhão. A dupla de aboiadores Chico Justino e Cícero Mendes se apresentou, nos intervalos dos shows, para cantar toadas que já são uma prévia do que virá neste domingo (26), com a Cavalgada da Pedra do Reino. Vindos de Serrita, em seus versos certeiros de improviso, marcados pela voz rasgante, eles louvaram a cidade de São José do Belmonte, o Festival Pernambuco Nação Cultural e o homem nordestino. Arremataram a plateia, ao fechar uma de suas toadas com a frase “quem nunca veio ao Sertão, da vida não curte nada!”

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