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O mestre do coco feito de sonho e rima

Zé de Teté mostra suas memórias (Foto: Ricardo Moura)

Zé de Teté mostra suas memórias (Foto: Ricardo Moura)

Conheça Zé de Teté, o coquista de Limoeiro que se apresenta amanhã (1/9), no encontro do FPNC em Limeiro

Por Julya Vasconcelos

“O poeta é um sonhador. A gente cria histórias”. O coquista Zé de Teté, afeito às palavras e à brincadeira que elas permitem aos fazedores de versos, explica em apenas duas frases, curtas e simples, o seu papel: o de sonhador e criador. E dizem por aí que, além disso,  Zé de Teté também é rei. Rei do coco de roda e da poesia rimada.

“O mestre que me ensinou /É o mestre da rima boa /Pegou a sua coroa /E em minha cabeça botou”, entoa ele em um dos seus cocos, informando que sua coroa tem origem. Zé vem da linhagem de coquistas que sabem rimar e poetar; que entendem da métrica e dos assuntos. Falam de amor, da natureza, de política, do dia a dia, de quem não presta. Tudo sem esquecer dos pés da rima, que são os versos de cada estrofe, e é preciso segui-los fielmente, domá-los. “E se começar com seis pés, tem que ir com os seis pés até o fim”.

Nascido José Rodrigues da Silva, Zé é filho de Seu Teté (apelido de Oteliano) e da cidade de Limoeiro. “Aqui nasci, me criei, me casei, e até hoje estou em Limoeiro e não pretendo sair daqui é nunca mais”. Nascedouro fértil de coquistas, Limoeiro já conta várias gerações desses poetas populares. De lá é também Paulo Faustino, hoje já com seus 90 anos, mestre e inspiração maior de Zé de Teté.

“Aqui em Limoeiro, desde que eu era novinho, tinha seu Paulo. Ele cantava coco, e era o melhor daqui. E ele cantava certo, cantava bonito. Eu invejava ele”, diz Zé, com um ar de respeito e orgulho por ter tido seu talento reconhecido por um outro grande talento. “Cada vez que eu o ouvia, tinha mais vontade ainda de cantar coco.”

Quando viu Zé cantando pela primeira vez, aos 20 e poucos anos, em 1970, no Clube Quebra Rócio, Paulo Faustino elogiou a sua voz, o seu ritmo: “Só não sei é se ele tem cabeça pra fazer coco”, dizia o mestre aos parceiros. Porque, segundo Zé, na época chamado de “O Canarinho do Quebra Rócio”,  pra ser um coquista bom de verdade não basta cantar as músicas dos outros, tem que fabricar seus próprios cocos. Tem que mostrar que além de voz, tem a alma de poeta e sabe rimar. “Fique comigo que você ‘tando cantando errado, eu digo’”. Esse foi o maior ato de generosidade que Paulo poderia oferecer a Zé. “O que um mestre pode fazer é ir moldando, ajustando, dizendo o que tá feio, o que tá errado”, conta Zé. “A pessoa conhece quando o outro dá praquilo, que tem vontade de fazer, quando tem talento”.

Zé de Teté, de camisa azul escura, e seu mestre Paulo Faustino, de chapéu preto (Foto: Ricardo Moura)

Zé de Teté, de camisa azul escura, e seu mestre Paulo Faustino, de chapéu preto (Foto: Ricardo Moura)

A voz de Zé cantando é um carinho no ouvido. Puxa o “r”, que em vez de ser na garganta, treme na língua. Um jeito de falar meio antigo, meio aportuguesado, que quando encaixado com seu timbre nos leva a outro tempo. Talvez o tempo dos palhoções, quando o povo fazia roda pra sambar coco em volta do cantador, todo mundo misturado com o pandeiro, a zabumba e o ganzá. Ou quando era apenas o coquista encostado na quina de uma parede, “sacudindo somente um ganzá e cantando pro povo sambar”, conforme conta Zé sobre os primórdios do coco. “Depois veio vindo a zabumba e a caixa, que foi o encaixe perfeito. Agora se botar mais instrumento já descaracteriza”, reflete o mestre sobre as releituras que se reproduzem por aí.

Com mais de 40 anos de brincadeira, o mestre coquista tem “pra mais de 200 cocos”. Já gravou CD, DVD e participou da coletânea “Poetas da Mata Norte”, organizada por Siba Veloso em 2004. Além do coco, Zé tem um salão onde corta os cabelos dos limoeirenses desde os seus 10 anos, seguindo os passos do pai, Seu Teté, que além da tesoura também empunhava o pandeiro em um Cavalo Marinho que havia na cidade.

As tesouras e o pandeiro são as paixões do mestre. “Mas, assim, cortar cabelo é trabalho. Coco é felicidade, é divertimento pra mim”, revela.  “Eu só vou deixar o coco daqui a 150 anos”, diz Zé de Teté, no alto dos seus 68 de vida. Se depender de paixão, sonho e rima, o coco de roda está muito bem cuidado nas mãos do mestre coquista de Limoeiro.

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