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“O pássaro de papel” encanta público

"O pássaro de papel" fala sobre o respeito à diferença para o público infanto-juvenil (Foto: Costa Neto)

“O pássaro de papel” fala sobre o respeito à diferença para o público infanto-juvenil (Foto: Costa Neto)

No palco, um grande poleiro e uma espécie de círculo de tecido que parece delimitar um espaço de sonho. No alto, a atriz Sofia Abreu encarna um pássaro sonhado por uma menina, de penas cor de mel. No canto do palco, a menina Flor, interpretada por Regina Medeiros, o olha de baixo, investigando o próprio sonho. O pássaro vive, já no início, do espetáculo questões existenciais profundas para um público infanto-juvenil: “Estamos o tempo todo a perguntar se somos o que já somos”, diz o pássaro inventado.

O eu, o outro, a necessidade de ser aceito, o medo de enfrentar o mundo, de ser diferente e o desejo que todos temos de sermos amados e felizes fazem parte das discussões da peça, que toca de maneira delicada nas questões, com um texto poético e cenário e figurino primorosos.

“Gostei muito da peça porque atinge bem o público infantil além de deixar uma mensagem muito interessante”, comenta Rosele Nunes, mãe do pequeno Gabriel, de 3 anos, que estava na platéia do Cine Teatro Guarany na tarde desta quarta-feira.

Em entrevista, concedida ao final do espetáculo, as duas atrizes da peça falam sobre o teor atípico do espetáculo, bastante verbal e reflexivo para um público infantil, mas que no entanto consegue tocar e prender a atenção das crianças. Falam também sobre suas experiências com o texto, as trocas de elenco e a própria atividade de atrizes.

Sofia Abreu e Regina Medeiros dão vida aos personagens do espetáculo (Foto: Costa Neto)

Sofia Abreu e Regina Medeiros dão vida aos personagens do espetáculo (Foto: Costa Neto)

FPNC.org – Como é para vocês a experiência de dar vida aos personagens da peça, sendo dois deles pássaros?

Sofia Abreu - A experiência começou complicada, porque foi meu primeiro espetáculo infantil. Então existia – e ainda existe – uma tensão na responsabilidade de estar tentando se comunicar com crianças, porque é um espetáculo muito verbal, são poucas as ações, trabalhamos muito o sonho. E viver um pássaro tem suas dificuldades, porque no final das contas é a imaginação da menina que fala, então esse pássaro é um desdobramento dessa menina, é ela que está criando esse ser. Mas o que mais complica, como atriz, é porque é um espetáculo no qual eu não saio de cena em nenhum momento. Para pegar o pique dele foi um pouco complicado, como por exemplo lidar com o sobe e desce do mastro que a gente tem no cenário. Mas tem sido uma experiência ótima.

Regina Medeiros – Então, entrar no Pássaro de Papel foi um grande desafio, porque existia um elenco anterior que acabou não continuando por “n” motivos. Havia uma atriz fixa, que era a Luiza Fontes, que fazia a menina antes de mim. Então Sofia entrou como fixa junto com Luiza, e eu entrei com um grande desafio, que era ser coringa das duas! Então eu tive que pegar o trabalho tanto do pássaro quanto da menina flor e da passarinha, que no frigir dos ovos acaba sendo a mesma personagem, mas eu tinha que pegar tudo. Foi difícil, mas eu embarquei na história. De início eu super topei o desafio, mas só depois eu fui tendo a proporção de como as coisas eram. No ensaio, conseguir trabalhar tudo com as três atrizes foi bem difícil. Aí acabou que Luiza passou no vestibular em Minas e precisou trabalhar lá, e eu acabei assumindo fixa a personagem dela. E é muito gostoso fazer a pássara. Eu estou no quarto espetáculo, está bem recente pra mim. É um espetáculo que não tem muito tempo ainda, está na sua oitava apresentação, mas pra mim ele é ainda mais novo. Está sendo muito divertido de fazer. Eu gosto muito porque pra mim tem muitas entradas e saídas dos meus personagens, e eu mudo muito em cena. Sofia tem a personagem que fica fixa, não sai nem pra beber água, fica lá pra sempre (risos). Eu não, eu tenho essa mobilidade dos personagens. Tem uma um pouco mais meiga, doce, a outra é mais espivitada, mais vaidosa. E tem a passarinha que é totalmente o oposto de tudo, que é bem do mal, a vilã da história. Então é bacana que eu tenho um leque de possibilidades pra poder brincar em cena e interagir com o público. É uma delícia.

FPNC.org – Como foi lidar com essas mudanças de elenco?

Sofia Abreu - O nosso preparador e assitente de direção, Mário Miranda, foi uma pessoa ótima, que nos abraçou. Havia um elenco anterior, e a gente veio pra suprir as necessidades. Ele teve muita paciência de acolher a gente dentro desse processo. E agora a gente está se readaptando. É um novo espetáculo. E agora com a Regina é outra adaptação, outro corpo em cena, e a gente tá se adaptando. É muito bom ter outra pessoa em cena, porque você escuta diferente o texto, nota outras coisas. É muito bom começar a brincar de novo, parece que é tudo novo de novo.

FPNC.org – É a segunda vez que vocês apresentam a peça em Triunfo no espaço de uma semana. Como estão sentindo a cidade e o público?

Sofia Abreu - Está sendo muito bom estar aqui em Triunfo. Viemos pro SESC na semana passada, e estamos aqui novamente esta semana. E é uma cidade aconchegante, muito querida. Eu acho que é das cidades do interior a mais charmosa que eu conheci. E é muito gostoso a gente estar trazendo uma coisa de Recife, pois sabemos da importância que é os espetáculos circularem, abastecerem o nosso mercado. As cidades do interior precisam ter acesso a isso, a nós precisamoos chegar nelas. É fundamental a destribuição, e elas precisam tambem levar coisas pra lá.

Regina Medeiros – E tá aquele clima de festival, cara de algo acontecendo… É importante haver esse intercambio, porque a cena cultural e teatral da cidade acaba vendo esses trabalhos e vai ampliando o repertório, a sua apreciação estética. E de alguma forma a gente também, por mais que não tenha um bate-papo ou algo assim depois com o público.

Sofia Abreu – Também tem um lance de formação de público. Imagino que não deve existir uma constância teatral aqui, fazendo um comparativo entre Recife e Triunfo. O Festival tem que ser reforçado todos os anos, porque é um momento em que os olhos se voltam para todas as artes. É um festival super completo, e é fantástico a gente estar representando artes cênicas aqui. É maravilhoso para formação de público. Adoro a experiência, a gente aprende muito. Lidar com um público diferente, com outras reações, é outro espaço, é outra coisa. É muito prazeroso e rico pra gente. Só tem a acrescentar, é uma troca fantástica.

FPNC.org – Geralmente espetáculos de teatro para o público infantil utilizam muito a comédia, o humor mais pastelão, e “O pássaro de papel” é bastante atípico nesse sentido. O que vocês pensam disso?

Regina Medeiros - É, é atípico, mas isso é extremamente relativo, porque teve apresentações das pessoas morrerem de rir, principalmente quando a passarinha entra…

Sofia Abreu – Isso, normalmente a cena mais bem humorada é a da passarinha má. É que eu acho que tem essa coisa do cruel, do maltratar, que é engraçado no final das contas. É um espetáculo que é um desafio muito grande, porque como ele tá muito no verbo, a gente tem que estar sempre ativo. Estamos sempre muito ligadas no público. Quando percebemos que eles estão começando a pensar em dispensar, é bombar de energia, para que a coisa continue fluindo.

Regina Medeiros – Eu gosto muito desse espetáculo, de um ponto dele, que é sobre aquilo que você colocou do humor pastelão. Para criança nem tudo tem que ser exatamente a festa, o risível, porque a vida não é sempre assim. Então de certa forma o espetáculo traz uma vivência pra criança de algo que ela pode não compreender no momento, mas é uma reflexão que vai ficar pra ela de alguma forma. Quando ela viver realmente uma situação próxima ou semelhante ao que ela assistiu, ela já tem uma experiencia daquilo. Isso pra formação da criança é fundamental. Eu gosto muito de não ser apenas a festa, o risível, e de passar essa coisas não de forma dura, mas poética. Tanto que a cena mais dura que tem, é a mais risível. Então é bem isso. Agora essa coisa do público é bem eclético.

Sofia Abreu – Eu achei as pessoas aqui muito tímidas. O público aconchegou a gente, mas não interagia muito. Eu até gostei que teve um menino que fez um passarinho, gritou. Pensei que, “bom, estão aí”. É sempre uma surpresa, cada lugar é diferente, depende de muita coisa.

Regina Medeiros - É a grande magia do teatro, porque é sempre um novo espetáculo. As pessoas são outras, o lugar é outro, a realidade é outra. Tudo é diferente, então é bem flexível essa resposta do público. A gente sempre está aberto ao inesperado.

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