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Festival pernambuco nação cultural

Para manter a cultura viva

Grupo de Teatro Kambiwá (Foto: Ricardo Moura)

Grupo de Teatro Kambiwá (Foto: Ricardo Moura)

Encontro da Cultura dos Povos Tradicionais e Populações Rurais, realizado pelo FPNC, celebrou a preservação da história

Por Leonardo Vila Nova

Enquanto metrópoles inteiras avançam em meio ao barulho ensurdecedor de um cotidiano que preconiza progresso e tecnologia, mal se sabe que, em locais mais afastados, famílias inteiras seguem no caminho inverso, optando por preservar aquilo que lhes é tão caro e básico: modos, costumes e cultura. Bens tão preciosos para a base da existência humana, mas vivenciados em sua integridade por poucos. Mexendo o caldo dessa cultura, as mãos do povos indígena e negro foram fundamentais. E boa parte deles teve de se refugiar em terras do interior do estado para conseguir manter viva sua história. Nesta sexta-feira (19/4), o município de Ibimirim viu reafirmar-se essa luta. Durante o Encontro da Cultura dos Povos Tradicionais e Populações Rurais, promovido no FPNC, a história de várias comunidades seculares foi celebrada.

O povo indígena Kambiwá foi o anfitrião da festa, acolhendo as diversas manifestações que por lá passaram. Violeiros, grupos de dança e teatro, a alusão aos ritos religiosos. Tudo isso esteve presente e se congregou de forma indistinta. Parte significativa dessa herança cultural, os povos quilombolas também foram representados. Expedita Maria dos Santos, 41 anos, é da comunidade Sítio Baixas, em Betânia. Com cerca de um século de existência, ela se integra a mais outras três comunidades, que, juntas, reúnem pouco mais de 500 famílias. A sobrevivência se faz a partir da agricultura e do corte de cana. Mas, além disso, da preservação das suas tradições. “Nós sabemos que há um mundo lá fora, que muitos querem viver nas cidades grandes, em busca de emprego, mas poucos sabem que será difícil encontrar a tranquilidade que temos aqui. E é nessa comunidade que, apesar das dificuldades, ainda temos nossa cultura viva”, disse Expedita.

“Acho que esse encontro é de grande importância pra que a gente possa mostrar ainda mais essas tradições que poucos conhecem. E, principalmente, promover esse intercâmbio entre povos diferentes, mas semelhantes na sua luta”, comentou ela. Opinião compartilhada por Givanildo Francisco, o Vana, liderança da comunidade indígena Kambiwá, que tem hoje nove aldeias e um total de, aproximadamente, 5 mil famílias. A agricultura e o artesanato são as marcas desse povo, que mantém firmes seus costumes. A dança toré e os praiás (rito religioso que busca a cura para os males do corpo e da alma) formam parte dessa identidade, que resiste ao tempo, às gerações e às tentações do mundo ao redor. “Acho que o mais importante pra nós é ter viva essa nossa história. Algo que temos orgulho”, falou Vana.

E se engana quem acredita que essa é uma afirmação típica de velhos conservadores. A herança ancestral também está presente nos mais novos. Na voz de Raíres Maria, 18 anos, há claro o desejo de perpetuar o legado indígena. Quando questionada sobre a possibilidade de um dia sair da sua terra, ela foi categórica: “Tá louco, menino? Sair daqui só se for pra mostrar nossa cultura lá fora, para as outras pessoas”, exclamou. “Não podemos jogar fora nossa história que tantos lutaram, e até morreram, para manter viva”, continuou. Afirmações como essas mostram que, sem dúvida, em meio a olhos curiosos por encontrar o que há de diferente no outro, as semelhanças são tamanhas. O desejo por continuar sua trajetória no mundo é uma delas. A sensação de que, apesar das diferenças, somos todos parte de um mesmo povo e que nos reconhecemos em nossas diferentes tradições, é a mais forte delas. Por isso, se segue adiante e se vive. Todos, filhos brasileiros.

 

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