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Festival pernambuco nação cultural

Poesia falada e cantada ao fundo da alma

Encontro de Poesia Oral, em Arcoverde, trouxe cantadores, emboladores, repentistas e poetas de todo o estado

Por Leonardo Vila Nova

Uma poesia não se resume apenas a letras impressas no papel. Um bom declamador pode dar voz e sentimento ao que muito se quer dizer em versos. Por vezes, nem mesmo o papel é preciso, apenas inspiração e dom. Essa capacidade de transformar o mundo ao redor em emoção é uma tradição comum à oralidade dos poetas nordestinos. Mas pouco ainda se conhece sobre esses verdadeiros artesãos da palavra. Nesta quinta-feira (18/4) a Budega da Poesia, em Arcoverde, foi palco para vários desses declamadores, repentistas e emboladores pernambucanos. Dentro da programação do FPNC, o Encontro da Poesia Oral trouxe poetas de várias regiões do estado, celebrando suas diversas formas de dizer poesia.

Um copo numa mão, o limão na outra e os versos na ponta da língua. Alguns goles da “água que passarinho não bebe” para temperar ainda mais a poesia. “Isso é pra deixar a garganta quente e poder cantar direitinho as toadas”, disse Inácio de Roxim, de Sertânia, que, junto ao irmão Tinuca de Roxim, começaram a entoar aboios em versos  que comovem de cara. Com Dejacir do Sítio Macambira e Luiz Freire, também de Sertânia, formam um quarteto falante, empolgado e bastante atuante no município. Segundo eles, são poucos os que ainda sustentam a tradição da oralidade em sua terra. “Ainda tem alguns cantadores de toadas lá em Sertânia, mas de, no máximo, seus 40 anos. Os mais novos não se interessam hoje em dia. Mas eu sigo fazendo as minhas, que é o que me deixa feliz, que me dá força pra viver a vida”, confessou Dejacir.

E os versos surgem de repente, sem ensaio e sob qualquer situação. Um puxa e o outro segue, numa sintonia impressionante. De improviso. “A gente não tem aquele aprendizado de escola, de doutor, alguns até nem sabem ler. Mas a gente tem um dom que vem no sangue, que vem da família. Então, o verso vem junto. O mote pode ser qualquer um”, disse Tinuca. A vida dura que todos têm na lida com o gado e com o corte da madeira não transforma as poesias em lamúrias. Muito pelo contrário; são uma forma de dar uma resposta forte ao cansaço que o cotidiano impõe. “A gente gosta mesmo é de falar de alegria. Aqui não tem choro, não”, disse Luiz Freire.

Entre uma toada e outra, percebe-se que a voz incansável destes poetas carrega gerações a fio de inspiração e de um dom que não se explica e não se aprende. Apenas se tem. Falando e cantando versos que vem do fundo da alma e a ela se destinam. Um encontro desses que emociona quem vê. E Arcoverde viu.

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