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Festival pernambuco nação cultural

Poetas do Pajeú derramam poesia na terra do maracatu

Pela primeira vez, a tradicional mesa de glosa do Sertão do Pajeú reuniu poetas da região em Nazaré da Mata e emocionou público do Festival Pernambuco Nação Cultural

Mesa de Glosa com poetas do Pajeú em Nazaré da Mata (Foto: Clara Gouvêa)

Mesa de Glosa com poetas do Pajeú em Nazaré da Mata (Foto: Clara Gouvêa)

“Trouxe umbu do pomar de João Paraibano
pra Mestre Salustiano saber do gosto de lá.
Vim pra plateia escutar o canto do Pajeú
para que Mestre Salu nos faça aqui companhia,
vim derramar poesia no chão dos maracatus”
(Caio Menezes)

Como quem se esforça pra fazer bonito em casa alheia, como quem entra pedindo licença pra contar um pouco da história de seu lugar, o grupo de poetas do Sertão do Pajeú que visitou Nazaré da Mata nesta terça-feira, fez da Mesa de Glosas uma das ações mais emocionantes do Festival Pernambuco Nação Cultural até aqui.

De improviso e sob os olhares atentos do público que lotou o auditório da Universidade de Pernambuco, Alexandre Morais, Genildo Azevedo, Caio Menezes, George Alves, Zé Adalberto, Dudu Morais e Adiel Luna encheram o lugar com um tipo de beleza rara, aquela que a gente sente quando vê assim, bem de perto, o processo criativo de um artista popular.

Mais que um mediador da bela disputa, ou peleja da palavra, o também poeta Dedé Monteiro tratou logo de explicar como funcionaria a Mesa de Glosas: “A gente apresenta um mote aos participantes da mesa, na verdade são dois versos que cada poeta tem que incluir em sua estrofe rimada e feita de improviso”. Informações úteis para Ana Rosa, que como muitos ali, nunca haviam assistido a uma “luta pela poesia” naquele formato, como definiu a estudante de Letras.

Com tradicionais elementos do imaginário sertanejo ou que ressaltavam a riqueza da cultura pernambucana, os motes foram surgindo. Entre eles, versos que lembraram o legado para a poesia popular deixado por João Batista de Siqueira, o poeta Cancão, de São José do Egito. “Uma das nossas motivações para realizarmos este momento aqui em Nazaré da Mata foi também levar a todas as regiões o nome e a poesia deste importante poeta que, se estivesse vivo, faria cem anos em 2012″, comentou Wellington de Melo, coordenador de Literatura da Secretaria de Cultura do Estado. Na ocasião, Wellington anunciou um calendário de outras ações em homenagem ao “pássaro-poeta”, como a Aula Recitativa sobre a obra de Cancão que acontece na próxima sexta (30/03), às 15h, também na UPE de Nazaré da Mata.

Confira algumas glosas surgidas do encontro desta terça-feira, 27/03:

Em itálico estão os motes sugeridos aos poetas.
George Alves
Cancão glosava bonito, feliz de quem o conheceu.
Foi gênio enquanto viveu, faleceu pra virar mito.
De São José do Egito, voou para a imensidão
Onde não tem alçapão, baladeira e espinho.
Na terra é difícil um ninho, mas no céu tem de Cancão. 

Adiel Luna (convidado de São Lourenço da Mata)
Para descrever Cancão o poeta se retorce,
mas por mais que se esforce, todo esforço é em vão.
Cancão é imensidão, é o sabor da água fria,
a força da ventania e nessa mesa dileta,
no peito nu do poeta, Cancão se faz poesia.

Alexandre Morais
A missão é bem pesada nessa mesa se dispor
E a culpa é desse senhor da cabeça esbranquiçada.
Dedé velho camarada está entre os meus gurus,
pra poesia é Jesus e um Deus para quem cria,
vim derramar poesia no chão dos maracatus. 

Genildo Santana

A minha terra natal é um estado soberano.
Foi aqui que Ariano fez soneto armorial.
Que Ascêncio foi genial, que deu estrela a Cancão.
E de tanta inspiração vocês são o resultado.
Pernambuco é o estado mais cultural dessa nação. 

Zé Adalberto

Improvisar não é ruim, mas é bom que a gente diga
que dá frio na barriga, pois sempre começa assim.
Eu vim lá de Itapetinga pedindo força a Jesus
pra que ele me dê luz e assim minha mente cria.
Vim derramar poesia no chão dos maracatus.

Dudu Morais

Não foi criado em gaiola, nem era branco com preto,
mas Cancão fez do soneto seu caderno de escola.
Também cantou de viola, mas não seguiu profissão.
O gracejo e o baião inventou o do passarinho
Na terra é difícil um ninho, mas no céu tem de Cancão

Ouça AQUI mais glosas dos poetas do Pajeú em homenagem a Cancão.

Mesa de Glosas

Só agora itinerante, a Mesa de Glosas de Tabira, no sertão do Pajeú, já acontece na cidade há 16 anos. Sempre no 3º fim de semana de setembro, quando a população local celebra a Festa do Poeta Zé Marcolino, parceiro letrista de Luiz Gonzaga.

Para Genildo Santos, um dos organizadores do projeto no município, a “iniciativa é também uma forma de manter aceso o interesse dos tabirenses pela poesia, pra que as novas gerações também tomem gosto pela rima e não deixem essa marca tão característica da nossa região acabar”.

Mais programação
As atividades de Literatura no Festival Pernambuco Nação Cultural da Mata Norte que estão concentradas em Nazaré da Mata seguem até a próxima sexta-feira.

 

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