Pular a navegação e ir direto para o conteúdo

O que você procura?
Newsletter

Festival pernambuco nação cultural

Querosene Jacaré volta aos palcos nos braços de um público instigado

Querosene Jacaré se apresenta em Caruaru pela primeira vez em seus 19 anos de carreira. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Querosene Jacaré se apresenta em Caruaru pela primeira vez em seus 19 anos de carreira. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Querosene Jacaré foi a segunda banda a subir ao palco na noite da sexta-feira (17) e encontrou um público afinado com as canções do grupo formado em 1994. O curioso foi não encontrar na plateia tantos trintões ou quarentões, como era de se esperar, mas jovens com seus 20 e poucos anos. Muitos deles, imagino, assistindo a um show de Ortinho ao vivo pela primeira vez.Reunidos em comemoração aos 15 anos de lançamento do primeiro CD, Você não sabe da missa um terço, Querosene Jacaré e Ortinho são uma fórmula de rock que é quase impossível não gostar. Eles foram expoente da música pernambucana nos anos 1990 e começo dos anos 2000, fazendo um rock and roll cheio de paixão, de desaforos, de rimas e performance.

Esse talvez seja o ponto mais singular de Ortinho. Suas caras e bocas, seus olhares profundos e “mal” encarados para a plateia revelam um mocinho que se faz de vilão para se parecer ainda mais com sua música nos palcos. Sem meias palavras, ele fala o que pensa e fala no palco, doa a quem doer. Passado dos 40 anos, Ortinho se comporta como se não tivesse nada a perder, fala palavrões, senta no palco e até reza, e assim vai ganhando mais e mais fãs.

Cheio de simbolismos, o show da Querosene Jacaré não foi apenas o primeiro desde que eles se reuniram, foi o primeiro feito por eles na cidade de Caruaru, a terra natal de Ortinho e da própria banda.

Caruaruense, Ortinho partiu para uma carreira solo em 1999, lançando três discos até 2010. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Caruaruense, Ortinho partiu para uma carreira solo em 1999, lançando três discos até 2010. Foto: Chico Santana/Secult-PE

 

Fã desde criancinha - A noite dos roqueiros foi cheia de “primeiras vezes”. Em pé, colado na grade que separava o público da área logo antes do palco, onde eu estava, a figura de Fellipe Sinder se destacava entre os muitos jovens vestidos de preto. Não apenas pelo tamanho, Fellipe é alto e largo, mas pela emoção que parecia sentir. E não era para menos, o show foi o primeiro que ele viu.

Aos 22 anos, Fellipe começou a escutar Querosene Jacaré aos dez, por causa de um “bairrismo” de seu pai, que estava preocupado com o fato de o menino só ouvir o punk que vinha de fora. O recifense que mora em Bonito virou fã desde então e enlouqueceu quando soube que teria a oportunidade de assistir a um show viajando apenas alguns quilômetros. “Eu sempre quis ver a Querosene de perto, mas eles tinham se separado. Quando soube do show eu fiquei imensamente feliz, não só por mim, mas pelas pessoas que iriam ter a oportunidade de conhecer essa cultura que é tão rica e é nossa”, completa, realizado, Fellipe.

Fellipe Sinder acompanhou o show todo na grade, pertinho do palco, para não perder nenhum detalhe dos ídolos. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Fellipe Sinder acompanhou o show todo na grade, pertinho do palco, para não perder nenhum detalhe dos ídolos. Foto: Chico Santana/Secult-PE

As impressões do camarim - A porta estava aberta e ele estava expulsando um intruso do seu camarim quando eu parei na frente da cena. Confesso que quase perdi a coragem de perguntar se podia falar com Ortinho. Como não vi o produtor, burlei as regras e perguntei diretamente a ele se podia trocar umas palavrinhas comigo. Ele brincou, disse que estava “muito doido” e que se eu quisesse saber qualquer coisa séria, era melhor procurar outra pessoa. Resisti, insisti que tinha que ser ele, que ninguém poderia responder pelos seus sentimentos. No fim, consegui que ele me dissesse que a banda tinha se separado porque todos são geniosos e que, quando estão juntos, sai faísca. Voltaram para comemorar os 15 anos do primeiro álbum, mas também porque sentiram falta um do outro.

Ele falou bastante, contou como o menino caruaruense Wharton ganhou apelido de Ortinho, por causa da dificuldade que as pessoas tinhas em pronunciar. Explicou que a performance feita por ele é muito importante para o sucesso do show, mas que não existe dramatização que contagie se não houver uma banda muito boa por trás do artista.

“Todo roqueiro é, na verdade, um traumatizado. O meu trauma é o nome, Wharton, que me deram e que nunca foi chamado corretamente”, brica Ortinho. Foto: Chico Santana/Secult-PE

“Todo roqueiro é, na verdade, um traumatizado. O meu trauma é o nome, Wharton, que me deram e que nunca foi chamado corretamente”, brica Ortinho. Foto: Chico Santana/Secult-PE

Quando percebi que ele já estava ficando impaciente e estava me preparando para sair quando o entrou pela porta um dos maiores ícones da música pernambucana, o caruaruense Azulão. Os olhos de Ortinho brilharam na hora. Eles se abraçaram e o vocalista da Querosene Jacaré se jogou sobre Azulão num encontro frenético e caíram no sofá. Meu medo foi que o senhor de 71 anos que estava aí na minha frente se machucasse, mas isso não aconteceu. Eles sentaram lado a lado e ficaram conversando, lembraram histórias, como dois adolescentes acusando um ao outro sem saber qual tinha menos juízo.

A intimidade entre os dois era tão grande que achei por bem deixá-los a sós. Me despedi de todos e agradeci a Ortinho pela oportunidade de me deixar conhecê-lo um pouco mais. Foi aí que ele deixou o roqueiro mal encarado de lado, me deu um abraço e revelou que nada no mundo o tinha deixado tão emocionado quanto tocar em Caruaru pela primeira vez em quase 20 anos de carreira. Naquele camarim, Ortinho era um filho saudoso que se alegra de volta para casa.

< voltar para home