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Quilombos unidos em Conceição das Crioulas

Encontro de Povos Tradicionais reuniu mazurca, São Gonçalo, dança do trancelim e outras manifestações

Por Chico Ludermir

Há mais de 200 anos, seis mulheres negras chegaram aonde hoje é a comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, em Salgueiro. Com dinheiro da venda de algodão, conseguiram comprar “três léguas em quadra” de terra e construíram uma capela para Nossa Senhora da Conceição, em homenagem a uma imagem da santa que lá existia. Na frente desta mesma igreja, tão cheia de significados, foi realizado, nesse sábado (26/5), o Encontro de Povos Tradicionais do Sertão Central, como parte da programação do FPNC. Além dos anfitriões, os quilombos do Araçá, situado em Mirandiba, e de Santana, em Salgueiro, também levaram suas manifestações culturais ao local.

Passava pouco das 16h quando a banda de pífanos de Conceição das Crioulas começou a tocar debaixo de um toldo armado para o evento. Ao redor, moradores da comunidade já estavam juntos para prestigiar uma apresentação que eles já conhecem, mas não cansam de ver. De dentro da igreja, saíram 12 mulheres vestidas com saia branca e blusa estampada de um verde e laranja vivos, dançando a tradicional dança do trancelim, ao som do sopros dos pífanos e das pancadas das zabumbas.

Dona Generoza, de 63 anos, foi uma das dançarinas. Ela contou que as mulheres se apresentam sempre durante as novenas, comuns na comunidade nos meses de maio, junho, agosto e dezembro. “No começo, eram só os homens que dançavam, mas a gente queria mais uma animaçãozinha nas novenas e hoje não sei nem contar quantas mulheres dançam”, explicou ela, lembrando os tempos de criança.

Dança do trancelim (Foto: Ricardo Moura)

Dança do trancelim (Foto: Ricardo Moura)

Nem bem saíram de cena as mulheres do trancelim, já entraram os brincantes do São Gonçalo Mães e Filhos do Quilombo Araçá. Na frente das duas fileiras, estavam dois irmãos, um com um violão, outro com uma rabeca. Pouco a pouco, todos os integrantes da fila do rabequeiro iam sendo “roubados” para a do violeiro. “Esse é um dos 12 tipos de roda de São Gonçalo que a gente faz”, explicou Severino Diniz, integrante e organizador do grupo.

O São Gonçalo sai sempre para pagar promessas de curas e conquistas. “Quando alguém alcança o que deseja, chama o São Gonçalo e festeja durante todo o dia”, contou Severino. Em seguida, me ensinou uma das músicas, que eles cantam em coro:

“São Gonçalo de Amarante
feito de cedro cheiroso
Ora viva, ora viva
Viva São Gonçalo, viva
Viva meu santo, viva”

São Gonçalo Mães e Filhos (Foto: Ricardo Moura)

São Gonçalo Mães e Filhos (Foto: Ricardo Moura)

 

Do Quilombo de Santana, veio o grupo de mazurca e, num valseado, dançou em pares ao som da sanfona. O grupo foi criado 2004 e faz parte de um resgate de uma tradição antiga da comunidade. “Desde que fomos reconhecidos como quilombolas, foi iniciado um processo de pesquisa com os mais velhos”, disse Senilda Silva, da Associação Quilombola de Santana.

Integrante mais antigo da mazurca, Fernando Moisés do Santos tem 76 anos e ajuda a compartilhar o ritmo que dança há mais de 50. “A gente dançava muito no São João. Antes, a gente dançava mais ligeiro do que hoje”, lembrou. Ao lado dele, João Emerson, integrante mais novo, escutava tudo.

Mazurca do Quilombo de Santana (Foto: Ricardo Moura)

Mazurca do Quilombo de Santana (Foto: Ricardo Moura)

Última apresentação da noite, o grupo de dança local Baobá mostrou os ritmos afros afoxé e maculelê quando já caía a noite. Com batuques de uma percussão de conga, alfaia, agogô, ganzá e agbê, as 14 meninas mostraram o resultado do que aprenderam com o professor Adalmir Silva. “É um trabalho que não é tradicional do nosso quilombo, mas tem relação com o fortalecimento da identidade negra em Conceição das Crioulas”, explicou Adalmir.

Articuladora do evento na comunidade, Valdeci Maria da Silva reconheceu na ação um momento importante de troca com os quilombos vizinhos. “A gente pode apresentar os nossos trabalhos culturais e artesanato e, assim, incentivar uns aos outros. Essa troca de experiências é muito importante para as comunidade”, afirmou. Em consonância, Erika Nascimento, coordenadora para Povos Tradicionais da Secretaria de Cultura de Pernambuco, considerou que cumpriu a tarefa de fomentar e valorizar a cultura dos quilombos: “Este encontro proporciona trocas importantes. As comunidades são muito diversas, mas são unidas pelas suas histórias de resistência”.

Grupo de dança Baobá (Foto: Ricardo Moura)

Grupo de dança Baobá (Foto: Ricardo Moura)

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