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Teatro, espelho da identidade

As memórias de Dona Zenilda serviram de roteiro para a peça Mandaru (Foto: Chico Ludermir)

As memórias de Dona Zenilda serviram de roteiro para a peça Mandaru (Foto: Chico Ludermir)

Segundo texto da série “Curumins Modernos” conta das artes cênicas como elo entre jovens e suas origens

Por Chico Ludermir

Quando Dona Zenilda viu a peça que retrata a sua história ao lado de Chicão Xukuru, não conseguiu conter a emoção. Ao presenciar Silvaneide Nogueira, aos 16 anos, interpretando a cena em que ela entrega o marido de volta à natureza, sentiu de novo a dor de se despedir da maior liderança do seu povo.  “Acolha teu filho, minha mãe natureza. Ele não vai ser enterrado. Ele vai ser plantado para que dele nasçam novos guerreiros”, disse em maio de 1998.

Há três anos Silvinha vive Zenilda em “Mandaru no reino encantado de Ororubá”, espetáculo que mistura teatro e ritual, no resgate da memória do cacique que mudou a história contemporânea dos Xukuru. Encenada por jovens índios, a peça surgiu de depoimentos dos mais velhos da comunidade, que foram documentados e serviram de roteiro. No plano sutil, o projeto permite um contato da nova geração com momentos importantes que não viveram. A arte funciona como ponte entre o passado e o futuro.

Dona Zenilda acompanhou todo o processo, como faz com quase tudo na sua comunidade. Desde o dia em que uma menina tímidida chegou pela primeira vez na aula do professor Henry Pereira e surpreendeu a todos. “O professor do grupo pediu para a gente cantar. Não sei por que, mas me veio uma vontade de cantar um ritual de força. Fechei o olho e só ouvia o barulho da maraca e do vento. Quando terminei, Dona Zenilda disse chorando que eu seria ela na peça”, relembra com os olhos marejados.

Todo mundo das 24 aldeias conhece a história daquela que é considerada a mãe do povo Xukuru. Mas, Silvinha pode conhecer mais de Dona Zenilda. A partir do momento em que encarnou a personagem, assumiu também o papel de filha em conversas que lhe serviram de inspiração para além do espetáculo. “Minha vida mudou naqueles quatro meses de ensaio. Ela virou minha mãe”. “Eu estou ficando velha e estou abrindo os caminhos para os jovens que vêm vindo”, replica a viúva de Chicão, aos 62 anos, olhando para Silvinha.

Silvinha emocionou ao interpretar Zenilda (Foto: Chico Ludermir)

Silvinha emocionou ao interpretar Zenilda (Foto: Chico Ludermir)

Para a jovem atriz, nascida e criada na Aldeia Pé de Serra dos Nogueira, em Pesqueira, a entrada no grupo resultou em diversas tranformações na sua vida. Além de lidar melhor com uma timidez, a jovem intensificou a conexão com sua cultura. “Já tinha contato com os rituais, mas me aproximei mais e me senti parte da luta do meu povo. Vi que eles lutaram por nós e, por isso mesmo, me entreguei muito fortemente aos ensaios”.

Engajada, Silvinha resume a relevância do teatro indígena: “Para a comunidade, é importante, porque consegue trazer o jovem para perto dos mais velhos. É também uma forma de divulgar nossa história. As pessoas passam a entender melhor as nossas reivindicações”, explica. O grupo agora está se preparando para um novo espetáculo. Desta vez, com temática contemporânea, abordando a história desde o momento em que o atual cacique, Marquinho, assumiu a liderança do povo.

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