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Festival pernambuco nação cultural

Todo cigano tem uma história pra contar

Até história de como chegou a Pernambuco. Nesta sexta (30/3), eles se encontram no Festival Pernambuco Nação Cultural, da Mata Norte

Chico Ludermir (texto e foto)*

Rejane Soares conta a sua história (Foto: Chico Ludermir)

Rejane Soares conta a sua história (Foto: Chico Ludermir)

“Todo cigano tem uma história pra contar. Mas é quase sempre a mesma história”. Assim inicia Rejane Soares Cavalcanti a narração de sua vida, que, segundo ela, se assemelha, em muito, à de outros 20 mil pernambucanos e cerca de um milhão de brasileiros. Nasceu pelas mãos de outra cigana, parteira, que a tirou do ventre da mãe em uma barraca montada provisoriamente embaixo de uma sombra. Depois de seu nascimento, seguiu-se uma celebração com música e cantoria ao som de violões. A partir daí, partiu em andanças pela Paraíba, por Pernambuco, pelo Rio Grande do Norte, pelo Ceará…

Há 42 anos, quando nasceu, seu povo andava pelo meio do mundo em cima de burros e cavalos, se “arranchando” em lonas nas beiras de açude e rios, vivendo de compra, venda e troca, especialmente de animais. Sempre que chegavam a um lugar novo, era comum ler mãos e jogar cartas para os habitantes nativos e, assim, recebiam algumas galinhas que eram assadas e repartidas por todos, no chão, ao redor de uma fogueira. “Cigano é uma nação de barriga cheia”, brinca, no mesmo momento em que, na cozinha de sua casa, em uma rua calma de Ibiranga, um dos distritos de Itambé, na Mata Norte de Pernambuco, já preparava o almoço que me convidou de improviso.
O preparo dos alimentos é coisa que ela já traz de criança, da mesma forma que tudo que hoje sabe. Uma carne, uma mistura, um ovo e a farinha, que não pode faltar. Tudo comida “limpa”, “feita com amor”. Com carinho, forra um tapete com estampa indiana e me chama para sentar no chão, “que é mais confortável”.

Ao redor da comida, ela me conta um pouco das coisas que correm no seu sangue. Há 15 anos morando na mesma casa, confessa que muitas vezes bate uma ansiedade imperativa de viajar, que ela atende. Adora fazer artesanato, colar, brinco, pulseira e bolsa, e também adora revender joias, bem do jeito que é descrito o seu povo. Tem a habilidade de ler o futuro nas mãos e nas cartas e, inclusive, se oferece para ler o meu. “É difícil ver um cigano que não saiba fazer uma arte. A gente nunca esquece nossa tradição”, me ensina, enquanto eu como, atento.

Das vivências que ela diz comungar com seus pares, ela também ressalta a dor. Do preconceito e do desprezo. Quando a identidade cigana é revelada, automaticamente aparece um sentimento de cautela e desconfiança no outro. “Cada um de nós tem a nossa convivência com dificuldade. Ninguém queria vender fiado à gente, mas isso tem mudado.”

Ao redor do mesmo tapete, seu irmão Roberto Cavalcanti Soares, um dos líderes dos ciganos que vivem em Itambé, confirma: “A gente mora aqui há muitos anos e todo mundo sabe que a gente é um povo honesto e tranquilo. O cigano é um povo inteligente, mas é discriminado. Até que enfim o povo tá se acostumando”.

Roberto ratifica, na sua fala, um capítulo longo da história do qual os ciganos fazem parte. Perseguidos na Península Ibérica desde o final do século 15, quando foram açoitados e mortos, os ciganos do grupo Kalon chegaram ao Brasil deportados, junto aos negros e presos políticos, carregando estigmas de que seriam “embusteiros, ladrões, vigaristas e viciosos”.

Em sua aparência e trejeitos, Roberto revela também algumas características quase caricaturais de seu povo. Com sua cor amarelada escura – descrita em diversos textos sobre os ciganos – e nariz adunco, estampa uma raiz indiana, tida por pesquisadores e linguistas como a origem basilar da etnia. No comportamento, um ar ao mesmo tempo receptivo e misterioso insinua uma preocupação em manter protegida uma imagem que já foi muito maculada.

Levado pelo próprio Roberto eu chego a outra casa cigana vizinha e sou recebido com crochês vermelhos estendidos. Além das colchas, na casa de Eliezer Francisco, mais conhecido como Antônio Seresteiro, também se fazem sofás e cadeiras para vender.

Para o seresteiro, os ciganos herdaram de Jesus Cristo a vocação para ser andarilho. “O povo cigano é um povo que Deus escolheu para ser livre. Quando Ele subiu ao céu, deixou os ciganos para continuarem os sofrimentos dele”, afirma categórico. Me espanto com o catolicismo de Antônio, lembrando que foi a própria igreja que comandou a caça aos ciganos, ao que ele rebate: “O povo cigano acredita em Deus”. E assim comprova o sincretismo brasileiro, capaz de misturar as maiores diferenças.

Mas não é só na religião que os ciganos vêm se integrando. Hoje em dia, são majoritariamente sedentários e vivem em casas espalhadas por todo o Brasil. Longe do estereótipo, estudam e trabalham. Os menores jogam videogame e sonham em ser jogadores de futebol. “O que a gente não larga é o amor pela música. A gente nunca deixou um violão de lado e agora chegou a rapazeada nova, que toca muitos instrumentos”, conta Antônio, ao me revelar que cigano gosta mesmo é de música sertaneja. Na sala de Rejane, eu já tinha encontrado evidência disso. Seu sobrinho John, estampado em um pôster da sala principal, “tem a voz igualzinha a de Luan Santana”, sucesso do chamado sertanejo universitário.

Se por um lado, a tradição parece arrefecer, por outro, sou lembrado de políticas afirmativas que fizeram do 24 de maio o Dia Nacional do cigano. Foi a mãe de John (o cantor) que encabeçou essa demanda, através de diversas cartas ao presidente Lula. “Para todos existe um dia, mas os ciganos eram esquecidos do mundo, viviam na Terra só por viver”, reclamou Rejane. Desde 2007, ela tem festejado as comemorações do seu dia, mas ainda sente falta de apoio e acolhimento. “A gente é um povo inteligente e honesto, que só precisa de oportunidade.”

Nesta sexta-feira (30/3), à tarde, a cultura do povo cigano da Mata Norte pode ser vista no Encontro das Manifestações Culturais das Populações Rurais e Povos tradicionais, através do Grupo de Dança Tradicional Cigana Leshigare de Itambé, que se apresenta em Vicência, como parte da programação do Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte.

*Esta narrativa foi escrita durante o Festival Pernambuco Nação Cultural 2012 – Mata Norte, realizado de 26 de março a 1º de abril pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult/PE) e da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe).

 

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